Sons da Escrita 034

5 de Novembro de 2005

Primeiro programa do ciclo Joaquim Pessoa

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Joaquim Pessoa

Passo a passo (Joaquim Pessoa)

A par e passo, passo neste espaço
abrindo a largos golpes largos espaços
e passas, nos meus passos,  passo a passo
repassas em abraços os meus braços.
A peso, peso os passos quando piso
os traços com que traço e já trespasso
o passeio nos lenços que desfaço
em lassos laços quando passas
como um punhal perdido em plena praça.


A todos e cada um dos meus amigos (Joaquim Pessoa)

Por um, por todos, por nenhum
faço o meu canto, canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum, por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum, por um, mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.


Friends will be friends (Queen)

Another red letter day
So the pound has dropped and the children are creating
The other half ran away
Taking all the cash and leaving you with the lumber
Got a pain in the chest
Doctor's on strike what you need is a rest

It's not easy love but you've got friends you can trust
Friends will be friends
When you're in need of love they give you care and attention
Friends will be friends
When you're through with life and all hope is lost
Hold out your hands cos friends will be friends right till the end

Now it's a beautiful day
The postman delivered a letter from your lover
Only a phone call away
You tried to track him down but somebody stole his number
As a matter of fact
You're getting used to life without him in your way

It's so easy love cos you got friends you can trust
Friends will be friends
When you're in need of love they give you care and attention
Friends will be friends
When you're through with life and all hope is lost
Hold out your hands cos friends will be friends right till the end

It's so easy love cos you got friends you can trust
Friends will be friends
When you're in need of love they give you care and attention
Friends will be friends
When you're through with life and all hope is lost
Hold out your hands cos friends will be friends right till the end


Joaquim Pessoa

Bastava-nos amar (Joaquim Pessoa)

Bastava-nos amar e não bastava…
Bastava-nos amar e não bastava o mar.
E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar, pelo mar, por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente era amar e ficar e fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar e fazer amor contigo sobre a areia. 


Reason enough (Andreas Vollenweider e Eliza Gilkyson)

All The King’s Men Stand Still In A Thunder Storm
Diamonds Of Rain On The Skin Of The Battle Worn
Eyes Touching Eyes In The Sight Of Their Long Range Guns
The Bough That Breaks, The Cradle Falls
Could This Be Reason Enough
The Beast That Down To Eden Crawls
Reason Enough
Staring Into The Depths Of The Darkest Dream
Hurling Your Stones In The Eye Of The War Machine
Howling Like Wolves To The Moon For The Sons Of Our Daughters
The Bough That Breaks, The Cradle Falls
Could This Be Reason Enough
The Beast That Down To Eden Crawls
This Could Be Reason Enough
Hush Little Baby, Dry Your Eyes
Claro Que Sì, Reason Enough
Stars Will Fall For Love To Rise
Reason Enough
Little Drops Of Water
Little Grains Qf Sand
Make The Mighty Ocean
And The Pleasant Land
The Bough That Breaks, The Cradle Falls
Could This Be Reason Enough
The Beast That Down To Eden Crawls
This Could Be Reason Enough
Hush Little Baby, Dry Your Eyes
Claro Que Sì, Reason Enough
Stars Will Fall For Love To Rise
Reason Enough
Lady Bug, Lady Bug
Fly Away Home
Your House Is On Fire
Your Children Are Gone
All The King’s Horses, And All The King’s Men
Couldn’t Put Humpty Together Again
She Went To The Cupboard,
The Cupboard Was Bare
Eight Little Indians Never Heard Of Heaven
One Went To Sleep, And Then There Where Seven
Ashes, Ashes, We All Fall Down
Hark, Hark, The Dogs Do Bark
Beggars Are Coming To Town
And If The Great Man Cut Down The Great Tree
What A Splish-Splash That Would Be


Joaquim Pessoa

Outono (Joaquim Pessoa)

Uma lâmina de ar atravessando as portas, um arco, uma flecha cravada no outono e a canção que fala das pessoas, do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como uma amarra, à espera do mar, esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza quando saio para a rua, molhado, como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se da minha revolta última ou do teu nome que repito.
Hoje, há soldados, eléctricos; uma parede cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se como se, de repente, não houvesse mais nada senão a imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro que os meus olhos derrubam, um estranho vinho que a minha boca recusa.
É outono. A pouco a pouco despem-se as palavras.


Autumn leaves are falling (Clannad)

Autumn leaves are falling 'round us
Time to gather all those many thoughts
Of all the things that might have been

Or gained at such a cost
For some of us there's endless hoping

For some of us craziness too
Holding on to better reasons
Works for me and you, you know it's true

And when the stakes are higher
Never play with fire

Leave it alone

I wandered through a country churchyard
And wandered what kind of life they led
Walked into a castle ruin

Of gentry that had fled
For some of them they had endless hoping
For some of them crazy too

Holding on to better reasons

We'll never truly know
Those trees will tumble down
On a stormy day

And those leaves will fade away, fade away

The autumn leaves are falling 'round us
I'm here to gather all my many thoughts
Of all the things that might have been

As the ground has turned to frost

Leaves are falling, Autumn leaves are falling...


Quero-te para além das coisas justas e dos dias cheiros de grandeza.
A dor não tem significado quando ma roubam as árvores, as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo, a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas dos beijos?
Discuto esta noite apenas o pudor de preferir-te entre as coisas vivas.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
Queen, Andreas Vollenweider e Eliza Gilkyson, Clannad

Textos:
Joaquim Pessoa

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012