Sons da Escrita 035

12 de Novembro de 2005

Segundo programa do ciclo Joaquim Pessoa

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Joaquim Pessoa

Soneto Primeiro (Joaquim Pessoa)

Não foi Guevarra, mãe, quem te rasgou com os punhais do frio, pela manhã.
Foi quando eu te feri que um cão ladrou.
Das rosas veio um cheiro a hortelã! Nos mastros adejavam as gaivotas.
Era Fevereiro e a noite um pesadelo. Da chuva que caía, algumas gotas quiseram repousar no teu cabelo.

E eu nasci. No quarto ninguém estava. À porta só a chuva é que teimava em molhar os lençóis da tua cama.

Não foi Guevarra, mãe, quem tu pariste!
Foi um grito do povo azul e triste, na noite em que chorei luas de lama.


Hasta siempre (Paulino, Rojitas, Leo, Mayito, Calvo, Aramis, Yurumi, Dorita)

Aprendimos a quererte
desde la histórica altura
donde el sol de tu bravura
le puso cerco a la muerte.

Aquí se queda la clara,
la entrañable transparencia,
de tu querida presencia
Comandante Che Guevara.

Tu mano gloriosa y fuerte
sobre la historia dispara
cuando todo Santa Clara
se despierta para verte.

Vienes quemando la brisa
con soles de primavera
para plantar la bandera
con la luz de tu sonrisa.

Tu amor revolucionario
te conduce a nueva empresa
donde esperan la firmeza
de tu brazo libertario.

Seguiremos adelante
como junto a ti seguimos
y con Fidel te decimos:
!Hasta siempre, Comandante!


Joaquim Pessoa

Amor combate (Joaquim Pessoa)

Meu amor que eu não sei, amor que eu canto, amor que eu digo: os teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto, por quem fico, por quem vivo: os teus olhos são da cor do sofrimento.
 
Amor-país: quero cantar-te, como quem diz:
O nosso amor é sangue, é seiva, é sol, é Primavera, amor intenso, amor imenso, amor instante. O nosso amor é uma arma, é uma espera. O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é um pássaro voando, mas à toa, rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo, amor sorrindo, amor doendo — o nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada. Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor, amor, amor, amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade. Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade. 


Oh! My Love (John Lennon)

Oh my love for the first time in my life,
My eyes are wide open,
Oh my lover for the first time in my life,
My eyes can see, 

I see the wind,
Oh I see the trees,
Everything is clear in my heart,
I see the clouds,
Oh I see the sky,
Everything is clear in our world, 

Oh my love for the first time in my life,
My mind is wide open,
oh my lover for the first time in my life,
My mind can feel, 

I feel the sorrow,
Oh I feel dreams,
Everything is clear in my heart,
Everything is clear in our world,
I feel the life,
Oh I feel love.


Joaquim Pessoa

Canção de estar em terra (Joaquim Pessoa)

Da sede, meu amor, farei um barco, uma vela no porto. E, ao vê-la perto, eu direi, meu amor, que por ti parto e fico e firo e faço e sigo e ardo.

Direi a rosa, o cravo, o trevo, o cardo; darei o corpo, amor; direi um astro.
Ai!, flor de quem está farto, farto, farto de rimar contra a maré em pinho incerto.

Que mais direi amor? Eu que maldigo, eu que mal amo as coisas conquistadas, que mais direi? Anéis, corais, espadas? Já mal me há-de bastar o que eu não digo.

É aqui, de bruços sobre a espuma, que o mar nos causa a dor de estar em terra e as palavras nos doem, uma a uma, e os homens, em Lisboa, fazem guerra.


Sailing ships (Whitesnake)

Do you remember
Standing on the shore,
Head in the clouds,
Your pockets filled with dreams
Bound for glory
On the seven seas of life,
But, the ocean is deeper than it seems

The wind was with you
When you left on the morning tide,
You set your sail for an island in the sun,
On the horizon, dark clouds up ahead,
For the storm has just begun

Take me with you,
Take me far away,
Lead me to the distant shore

Sail your ship across the water,
Spread your wings across the sky
Take the time to see
You’re the one who holds the key,
Or sailing ships will pass you by

You cry for mercy,
When you think you’ve lost your way,
You drift alone, if all your hope is gone
So find the strength and you will see
You control, your destiny,
After all is said and done

So take me with you,
Take me far away,
An’ lead me to the distant shore

Sail your ship across the water,
Spread your wings across the sky
Take the time to see
You’re the one who holds the key,
Or sailing ships will pass,
Sailing ships will pass you,
Sailing ships will pass you by...

Take me with you,
Take me far away,
We’ll ride the wind across the sky
Spread your wings and you will see
You control, your destiny,
So sailing ships don’t pass you by

So take me with you,
Take me far away,
We’ll ride the wind across the sky
Spread your wings and you will see
You control, your destiny,
So sailing ships don’t pass,
So sailing ships don’t pass you,
So sailing ships don’t pass you by...

Baby, baby, baby, baby,
You’ll find that you’re the only one
Can sail your ship across the sky


Desenho a curva da tua boca, um sino. Por cima das palavras, já é dia.
A voz persegue o animal difícil que caminha o dia, a passo.

Esta parede de vidros enlouquece como uma selva, uma paragem de autocarro.
Na tua mão, a coragem é a arma necessária, o amor são três lâmpadas e os dedos principiam.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Lito Vitale

Ligações
Paulino, Rojitas, Leo, Mayito, Calvo, Aramis, Yurumi, Dorita, John Lennon, Whitesnake

Textos:
Joaquim Pessoa

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012