Sons da Escrita 036

19 de Novembro de 2005

Terceiro programa do ciclo Joaquim Pessoa

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Joaquim Pessoa

De onde me chegam estas palavras (Joaquim Pessoa)

Nunca houve palavras para gritar a tua ausência. Apenas o coração, pulsando a solidão antes de ti, quando o teu rosto doía no meu rosto e eu descobri as minhas mãos sem as tuas e os teus olhos não eram mais que um lugar escondido, onde a primavera refaz o seu vestido de corolas. E não havia um nome para a tua ausência!
Mas tu vieste!
Do coração da noite? Dos braços da manhã? Dos bosques do Outono?
Tu vieste. E acordas todas as horas, preenches todos os minutos, acendes todas as fogueiras, escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos quando toco o teu corpo e habito em ti e a noite não existe, porque as nossas bocas acendem, na madrugada, uma aurora de beijos.
Oh, meu amor!, doem-me os braços de te abraçar, trago as mãos acesas, a boca desfeita e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos e se perde depois numa estrada deserta por onde caminhas nua.


Naked twister (Mansun)

To be twisted
To be naked
To be broken
To be free
Tell me stick or twist
Tell me which will it be
I tell you stick or twist
Tell me which do you see
Oh can't you see, oh oh yeah
Where do we go
Who do we trust
Who do we see, yeah now
Who wants to know
Who do we tell
What will we see, yeah
Oh where do we go now, yeah
Who do we see, oh yeah
It will sparkle
It is beauty
It is broken
It is free


Joaquim Pessoa

A rosa (Joaquim Pessoa)

Estou aqui! Estou aqui, não pretendi fugir, nunca!
O meu peito é sólido, o meu nome é sólido, o meu céu é sólido, o meu ar é sólido, as minhas dúvidas são sólidas.
Acabei de jantar no Restaurante Chinês e olhei para as minhas mãos: estão inquietas como ontem, tremem como ontem e, ontem, foi tudo inquieto e trémulo, como as minhas mãos.
Não há nenhuma flor que resista à beleza da poesia de Paul Éluard, não é meu filho?, repetia aquela mãe que eu nunca tive!
E eu afirmava, afirmava sempre, que nada, neste mundo, tem a força de uma rosa.
A minha mãe era bela, todas as mães são belas e eu só posso chamar-lhes: meu amor!
Quando a minha mãe morreu, a cidade não tinha sombras!
Em Abril, tinha recomeçado tudo, até as próprias sombras, e eu vesti-me de branco para dar o último beijo a minha mãe, no dia em que me senti, pela primeira vez, um homem, porque, ao ficar de novo órfão, disse: é preciso ler Paul Éluard!, e não lhe dei, simplesmente, a minha rosa.


Kiss from a rose (Seal)

There used to be a greying tower alone on the sea.
You became the light on the dark side of me.
Love remained a drug that's the high and not the pill.
But did you know, that when it snows,
My eyes become large and the light that you shine can be seen.
Baby, I compare you to a kiss from a rose on the grey.
Ooh, The more I get of you,
Stranger it feels, yeah.
And now that your rose is in bloom.
A light hits the gloom on the grey.
There is so much a man can tell you,  so much he can say.
You remain, you... My power, my pleasure, my pain, baby
To me you're like a growing addiction that I can't deny
Won't you tell me is that healthy, baby?
But did you know, that when it snows,
My eyes become large and the light that you shine can be seen. 

I've been kissed by a rose on the grey.


Joaquim Pessoa

Face a face (Joaquim Pessoa)

Entendamo-nos: falar de ti e dos teus olhos de garça enevoados seria talvez tão vulgar como enumerar as coisas simples e nisso não há qualquer desafio.
Existe apenas uma razão íntima, como a de quem não gosta de se repetir ou de estar de costas voltadas para o mar, amando o imprevisto como um sinal de alarme.

Também, falar de mim, poderia tornar-se perigoso, se me virasse para dentro, habitando a minha memória e não a memória de todos os meus dias.
Fariseu único de um Templo de Escadas Rolantes, quando vejo mudar a água em sangue e arregaçar as mangas para transformar uma seara em pão  não deixando ao diabo esse trabalho de mostrar que a realidade não é o que é  mas sempre o outro lado da indiferença.

E bato as esquinas, levando a pederneira com que se acendem os poemas que alimentam as primeiras esperanças, atravessando nas passagens de peões com a precaução da caça perseguida e a preocupação de me dar desinventando mágoas, repartindo alegrias como quem escreve um tratado de amizade, num país de vidro, onde a dor está mais escondida que os ovos da codorniz no coração da erva.


In the air tonight (Phil Collins)

I can feel it coming in the air tonight, oh lord
I’ve been waiting for this moment, all my life, oh lord
Can you feel it coming in the air tonight, oh lord, oh lord

Well, if you told me you were drowning
I would not lend a hand
I’ve seen your face before my friend
But I don’t know if you know who I am
Well, I was there and I saw what you did
I saw it with my own two eyes
So you can wipe off the grin, I know where you’ve been
It’s all been a pack of lies

And I can feel it coming in the air tonight, oh lord
I’ve been waiting for this moment for all my life, oh lord
I can feel it in the air tonight, oh lord, oh lord
And I’ve been waiting for this moment all my life, oh lord, oh lord

Well I remember, I remember don’t worry
How could I ever forget, it’s the first time, the last time we ever met
But I know the reason why you keep your silence up, no you don’t fool me
The hurt doesn’t show; but the pain still grows
It’s no stranger to you or me

And I can feel it coming in the air tonight, oh lord...


Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo, nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente, como se todo o tempo fosse nosso, como se todo o tempo fosse pouco, como se nem sequer houvesse tempo.
Quero soltar os teus seios, despir as tuas ancas e apunhalar de amor o teu ventre.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
James Horner

Ligações
Sissel, Mansun, Seal, Phil Collins

Textos:
Joaquim Pessoa

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012