Sons da Escrita 407

11 de Agosto de 2012

Primeiro programa do ciclo Jordi Virallonga

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Tudo está sereno

Agosto. Onze e meia.
É como se devesse algo a alguém
e tudo está sereno.

… Se não te faço amor, morro de tristeza.


Sad Lisa (Cat Stevens)

She hangs her head and cries on my shirt.
She must be hurt very badly.
Tell me what's making you sadly?
Open your door, don't hide in the dark.
You're lost in the dark, you can trust me.
'Cause you know that's how it must be.

Lisa Lisa, sad Lisa Lisa.

Her eyes like windows, tricklin' rain
Upon her pain getting deeper.
Though my love wants to relieve her.
She walks alone from wall to wall.
Lost in a hall, she can't hear me.
Though I know she likes to be near me.

Lisa Lisa, sad Lisa Lisa.

She sits in a corner by the door.
There must be more I can tell her.
If she really wants me to help her.
I'll do what I can to show her the way.
And maybe one day I will free her.
Though I know no one can see her.

Lisa Lisa, sad Lisa Lisa.


Onde os domingos cheiravam a refresco

Porque um dia me viste, porque não sei que coisas
tinhas lido há uns tempos, ao sair do cinema
quiseste conhecer o amor grande e secreto,
aquilo que foi tão demolidor no passado
e nada tinha que ver com essa recta virtude que praticavas
impecavelmente usual e boa com teu pai e teu marido.

Devia acompanhar-te amanhã ao dentista,
ter outro filho teu, disseste na primavera,
e comprar uma moto para por fim te levar
a onde os domingos cheiravam a refresco.

A bordo de uma mulher que devia ter o teu rosto
tentei hoje um pouco de carinho,
uma resposta que console o que sucumbe;
mas só tu, que falavas e sabias de segredos,
me dirias, se alguém sabe, que vai ser agora de nós,
se existe o esquecimento entre os mortos.


Hello sunday (Maria Montell)

Texto não disponível


Nada é meu

Não, não é verdade, nada é meu
e é o usufruto uma quimera:
quem conhece bem o seu ofício e te serve,
a quem serves instalando-lhe um alarme
ou um pouco de ternura para que não morra,
instala a outros íntimas, ferozes,
insaciáveis caixas-fortes
na sua casa e também na tua cabeça;
o mesmo que te busca há-de afastar-se,
quem te viu nascer pode enterrar-te,
e se ensinaste a amar, se amaste alguém,
acabará amando o que amares,
odiando o que odiares
e depois odiando e amando-se a si mesma
por ter deixado de ser ela por culpa tua;
nada é teu, tudo é de tudo o que passa,
também o branco dos olhos,
o próprio coração, a hora negra.


All mine (Tom Jones)

All the stars may shine bright, all the clouds may be white
But when you smile, oh, how I feel so good
That I can hardly wait to hold you, enfold you
Never enough, render your heart to me

All mine, you have to be

From that cloud number nine
Danger starts that sharp incline
And such sad regrets, oh, as those starry skies

As they swiftly fall
Make no mistake, you shan't escape
Tethered and tied
There's nowhere to hide from me

All mine, you have to be

So don't resist, we shall exist
Until the day, until the day I die

All mine, all you have to be
All mine, yes, you have to be
Ooh, you have to be all mine


Sempre falavas de luxo e de esperança

Sempre falavas de luxo e de esperança
e neles desbarataste o teu tempo e a minha cabeça.

De que pode servir-te agora tanto empenho,
tanta hora extraordinária, tanta raiva acumulada,
se nem sequer te restam os fins de semana,
se aqui não fazemos mais do que repartir a miséria.

Já vês que não mudei, digo-te o que penso
e aquilo que fiz ontem (fazia-o todos os dias):
saí tarde das aulas e ofereci as tuas saias
àquela amiga tua que ainda te quer tanto
em troca de carinho e um pouco de dinheiro
para suportar tudo o que aqui me deixaste.

Enfim, que mais posso dizer-te;
cómodo e instalado neste andar hipotecado
viajo sozinho agora olhando os retratos, o sol e a geleira,
pois aquilo que esperavas fértil e grandiosa
para tecer costuras de sol e tangerina
não sei se já passou, não sei reconhecê-lo,
pois vivo entre garrafas e novelos e entre agulhas
por onde pouco importa que não entrem os camelos.


It doesn’t really matter (Pete Ham)

Texto não disponível


Mas o que se passará com o prazer

Nunca imaginei ficar tão sem nada
e obrigado a pensar em começar de novo.
Fica-me apenas a tua cara nos meninos-
e aquela vida jovem antes de te conhecer.
Não tenho nenhum porto de saída nem chegada,
queimei todas as minhas naves para zarpar contigo
e tudo o que fomos comigo terá morrido;
mas entretanto
que se passará com o prazer?
com a ternura que sem ti é um puro regateio
e é sentir-se livre para a troca,
e a procura é luta nos saldos?


Tenderness (Paul Simon)

What can I do
What can I do
Much of what you say is true
I know you see through me
But there's no tenderness
Beneath your honesty

Right and wrong
Right and wrong
Never helped us get along
You say you care for me
But there's no tenderness
Beneath your honesty

You and me were such good friends
What's your hurry?
You and me could make amends
I'm not worried
I'm not worried

Honesty
Honesty
It's such a waste of energy
No you don't have to lie to me
Just give me some tenderness
Beneath your honesty
You don't have to lie to me
Just give me some tenderness


Tentei fugir
e o certo é que deu resultado:
permite-me ternura, risco ocasional,
não te seguir atravessando a sala,
beijar-te em qualquer lado, em toda a parte,
sentar-me nas cadeiras sem roupa amontoada por passar
e um pouco de tempo até que cheguem
os monstros, os vencidos, os teus fantasmas.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Harold Faltermeyer, Dan Gibson

Ligações
Cat Stevens, Maria Montell, Tom Jones, Pete Ham, Paul Simon

Textos:
Jordi Virallonga

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012