Sons da Escrita 231

26 de Junho de 2009

Segundo programa do ciclo Jorge Luís Borges

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jorge Luís Borges

Parábola do palácio (Jorge Luís Borges)

Naquele dia, o Imperador Amarelo mostrou o seu palácio ao poeta. Foram deixando para trás, num longo desfile, os primeiros terraços ocidentais que, como degraus de um quase inabarcável anfiteatro, descem até a um paraíso ou jardim cujos espelhos de metal e cujas intrincadas cercas de zimbro prefiguravam já o labirinto. Alegremente nele se deixaram perder, a princípio como se condescendessem com um jogo e depois não sem inquietação, porque as suas rectas avenidas apresentavam uma curvatura muito suave mas contínua e secretamente eram círculos. Por volta da meia-noite, a observação dos planetas e o oportuno sacrifício de uma tartaruga permitiram-lhes libertar-se da região que parecia enfeitiçada, mas não da sensação de se encontrarem perdidos, que os acompanhou até ao fim. Percorreram depois antecâmaras e pátios e bibliotecas e uma sala hexagonal com uma clepsidra, e uma manhã, do alto de uma torre, divisaram um homem de pedra, que logo perderam de vista para sempre. Muitos resplandecentes rios atravessaram em canoas de sândalo, ou um único rio muitas vezes. O séquito imperial passava e a gente prosternava-se, mas um dia arribaram a uma ilha onde alguém não se prosternou, por não ter visto nunca o Filho do Céu, e o verdugo teve de o decapitar. Negras cabeleiras e negras danças e complicadas máscaras de oiro viram com indiferença os seus olhos; o real confundia-se com o sonhado, ou melhor, o real era uma das configurações do sonho. Parecia impossível que a terra fosse outra coisa que não jardins, águas, arquitecturas e formas de esplendor. De cem em cem passos uma torre cortava o ar; para os olhos a cor era idêntica, mas a primeira de todas era amarela e a última escarlate, tão delicadas eram as gradações e tão comprida era a série.

Foi ao pé da penúltima torre que o poeta (como que alheado dos espectáculos que constituíam uma maravilha para todos ) recitou a breve composição que hoje vinculamos indissoluvelmente ao seu nome e que, segundo repetem os historiadores mais elegantes, lhe proporcionou a imortalidade e a morte, O texto perde-se; há quem pretenda que constava de um verso; outros, de uma só palavra. O que é certo, o que é incrível é que no poema estava inteiro e minucioso o palácio enorme, com cada ilustre porcelana e cada desenho em cada porcelana e as penumbras e as luzes dos crepúsculos e cada instante desditoso ou feliz das gloriosas dinastias de mortais, de deuses e de dragões que nele habitaram desde o interminável passado. Todos ficaram calados, mas o Imperador exclamou: Arrebataste-me o palácio. E a espada de ferro do verdugo segou a vida do poeta.

Outros referem a história de outra maneira. No mundo não pode haver duas coisas iguais; bastou (dizem-nos) que o poeta pronunciasse o poema para que desaparecesse o palácio, como que abolido e fulminado pela última sílaba. Tais lendas, claro está, não passam de ficções literárias. O poeta era escravo do imperador e morreu como tal; a sua composição caiu no esquecimento porque merecia o esquecimento e os seus descendentes procuram ainda — e não a hão-de encontrar — a palavra do universo.


Castles In The Air (Don McLean)

And if she asks you why,
you can tell her that I told you
That I'm tired of castles in the air.
I've got a dream I want the world to share
And castle walls just lead me to despair. 

Hills of forest green where the mountains touch the sky,
A dream come true, I'll live there till I die.
I'm asking you to say my last goodbye.
The love we knew ain't worth another try. 

Save me from all the trouble and the pain.
I know I'm weak, but I can't face that girl again.
Tell her the reasons why I can't remain,
Perhaps she'll understand if you tell it to her plain. 

But how can words express the feel of sunlight in the morning,
In the hills, away from city strife.
I need a country woman for my wife;
I'm city born, but I love the country life. 

For I will not be part of her cocktail generation:
Partners waltz, devoid of all romance.
The music plays and everyone must dance.
I'm bowing out. I need a second chance. 

Save me from all the trouble and the pain.
I know I'm weak, but I can't face that girl again.
Tell her the reasons why I can't remain,
Perhaps she'll understand if you tell it to her plain. 

And if she asks you why, you can tell her that I told you
That I'm tired of castles in the air.
I've got a dream I want the world to share
And castle walls just lead me to despair.


Jorge Luís Borges

Mateus, XXV, 30 (Jorge Luís Borges)

A primeira ponte de Constitución e a meus pés
O fragor de comboios que teciam labirintos de ferro.
E de súbito foi o Juízo Final. Do invisível horizonte
E do mais íntimo do ser, uma voz infinita
Disse estas coisas (estas coisas, não estas palavras,
Que são a minha pobre tradução temporal de uma só palavra):
— Estrelas, pão, bibliotecas orientais e ocidentais,
Naipes, tabuleiros de xadrez, galerias, clarabóias e caves,
Um corpo humano para andar pela terra,
Unhas que crescem na noite, na morte,
Sombra que esquece, atarefados espelhos que multiplicam,
Declives da música, a mais dócil das formas do tempo,
Fronteiras do Brasil e do Uruguai, cavalos e manhãs,
Um peso de bronze e um exemplar da Saga de Grettir,
Álgebra e fogo, a carga de Junín no teu sangue,
Dias mais populosos que Balzac, o olor da madressilva,
Amor e véspera de amor, recordações intoleráveis,
O sono como um tesouro enterrado, o liberal acaso
E a memória, que o homem não olha sem vertigem,
Tudo isso te foi dado, e também
O antigo alimento dos heróis:
A falsidade e a derrota e a humilhação
Em vão te prodigalizámos o oceano,
Em vão o sol, que os maravilhados olhos de Whitman contemplaram;
Malbarataste os anos e malbarataram-te,
E não escreveste ainda o poema.


Poema da farra (Fausto Bordalo Dias)

Quando li Jubiabá
me cri Antônio Balduíno.
Meu Primo, que nunca o leu
ficou Zeca Camarão.
      
Eh Zeca!
      
Vamos os dois numa chunga
Vamos farrar toda a noite
Vamos levar duas moças
para a praia da Rotunda!
Zeca me ensina o caminho:
Sou Antônio Balduíno.
              
E fomos farrar por aí,
Camarão na minha frente,
Nem verdiano se mete:
Na frente Zé Camarão,
Balduíno vai no trás.
            
Que moça levou meu primo!
Vai remexendo no samba
que nem a negra Rosenda;
Eu praqui olhando só!
               
Que moça que ele levou!
Cabrita que vira os olhos.
Meu Primo, rei do musseque:
Eu praqui olhando só!
                 
Meu primo tá segredando:
Nossa Senhora da Ilha
ou que outra feiticeira?
A moça o acompanhando.
                 
Zé Camarão a levou:
E eu para aqui a secar.
E eu para aqui a secar.


Jorge Luís Borges

Composição escrita num exemplar da ‘Gesta de Beowulf” (Jorge Luís Borges)

Pergunto a mim próprio que razões
Me movem a estudar sem uma esperança
De precisão, enquanto a noite avança,
A língua desses ásperos saxões.
Já gasta pelos anos a memória
Deixa cair a em vão repetida
Palavra e é assim que a minha vida
Tece e destece sua exausta história.
Será (disse-me então) que de algum modo
Secreto e suficiente a alma sabe
Que é imortal e que o seu vasto e grave
Círculo abarca tudo e pode tudo.
Para além deste cuidado e deste verso
Espera-me inesgotável o universo.


Universe (Slade)

I was coming home, I was all alone
In a place so cold I don't feel
I was there for years, so afraid of fears
I was lost and I was the curse
Oh won't you be my universe

Oh yeah

I can hear the sound, I can hear it loud
Of the beat before time was dawned
Through the fire and rain I can feel your pain

Won't you be the last like the first
Oh won't you be my universe

How much have I traveled
How much have I seen
Is this reality or a broken dream, Ohhh

Break

Through raging storm won't you keep me warm
I'm the hunger, I am the thirst
Oh won't you be my universe


Ninguém pode escrever um livro. Para
Que um livro seja verdadeiramente,
Requerem-se a aurora e o poente,
Séculos, armas, mar que une e separa.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Tangerine Dream, Kirsty Hawkshaw, Celtas Cortos

Ligações
Don McLean, Fausto Bordalo Dias, Slade

Textos:
Jorge Luís Borges

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012