Sons da Escrita 232

3 de Julho de 2009

Terceiro programa do ciclo Jorge Luís Borges

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jorge Luís Borges

O tango (Jorge Luís Borges)

Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muraña, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte de uma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, para além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.

(…)

Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora,
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.


Tango to Évora (Lorenna Mckennitt)

(intrumental)


Jorge Luís Borges

Página à memória do coronel Suarez, vencedor em Junín (Jorge Luís Borges)

Que importam as penúrias, o deserto,
A humilhação de envelhecer, a sombra crescente
Do ditador sobre a pátria, a casa no Bairro do Alto
Que os irmãos venderam quando guerreava, os dias inúteis
(os dias que esperamos esquecer, os dias que sabemos que esqueceremos),
Se, a cavalo, teve a sua hora alta
Na visível pampa de Junín como um cenário para o futuro,
Como se o anfiteatro de montanhas fosse o futuro.

Que importa o tempo sucessivo quando nele
Houve uma plenitude, um êxtase, uma tarde.

Serviu por treze anos nas guerras da América. Por fim
A sorte levou-o ao Estado Oriental, aos campos do Rio Negro.
Aí pela tardinha pensaria
Que para ele tinha florido essa rosa:
A encarnada batalha de Junín, o instante infinito
Em que as lanças se tocaram, a ordem que desencadeou a batalha,
A derrota inicial, e no meio dos fragores
(não menos brusca para ele que para a tropa)
A sua voz gritando aos peruanos que atacassem,
A luz, o ímpeto e a fatalidade da carga,
O furioso labirinto dos exércitos,
A batalha de lanças em que não ecoou sequer um tiro,
O godo que ele com o ferro trespassou, a vitória, a felicidade, a fadiga, um princípio de sono,
E a gente a morrer por entre os pântanos
E Bolívar a proferir palavras sem dúvida históricas
E o sol já ocidental e o recuperado sabor da água e do vinho
E aquele morto sem cara porque a pisou e dissipou a batalha…

O seu bisneto escreve estes versos e uma tácita voz lhe chega do antiquíssimo do sangue:
—  Que me importa a batalha de Junín se é uma gloriosa memória,
Uma data que se aprende para um exame ou um lugar no atlas.
A batalha é eterna e pode prescindir da pompa
De visíveis exércitos com clarins;
Junín são dois civis que numa esquina maldizem um tirano,
Ou um homem obscuro que na prisão morre.


 

Winner/Loser (Steve Winwood)

Sometimes I think I'm losing
Then again I think I win
I don't want to think at all of hope

It could be better for me
If I win or I give in
It could be better for you
If I lose everything
It could be better for you
If I lose or you give in
It could be better for me
If you lose everything

When you win sometimes you lose
All that you had when you lose
It could be better for me
If I win or give in
It could be better for you
If you lose or give in

When you win, when you lose
I don't know who to choose
Winner lose
Loser win
Winner lose
Loser win


Jorge Luís Borges

Xadrez (Jorge Luís Borges)

No seu grave recanto, os jogadores
Deslocam os peões. O tabuleiro
Tem-nos até à alva no altaneiro
Âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, alta rainha, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

Quando os jogadores se houverem ido,
Quando o tempo os tiver já consumido,
Nem por isso terá cessado o rito.

A leste se ateou uma tal guerra
Que hoje se propaga a toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.


Games People Play (Alan Parson Project/Lenny Zakatek)

Where do we go from here now that all other children are growin' up
And how do we spend our lives if there's noone to lend us a hand

I don't wanna live here no more, I don't wanna stay
Ain't gonna spend the rest of my life, Quietly fading away

Games people play, You take it or you leave it
Things that they say, Honor Brite
If I promise you the Moon and the Stars, Would you believe it
Games people play in the middle of the night

Where do we go from here now that all of the children have grown up
And how do we spend our lives knowin' nobody gives us a damn

I don't wanna live here no more, I don't wanna stay
Ain't gonna spend the rest of my life, Quietly fading away

Games people play, You take it or you leave it
Things that they say, Just don't make it right
If I'm telling you the truth right now, Do you believe it
Games people play in the middle of the night

Games people play, You take it or you leave it
Things that they say, Honor Brite
If I promise you the Moon and the Stars, Would you believe it
Games people play in the middle of the night

Games people play, You take it or you leave it
Things that they say, Just don't make it right
If I'm telling you the truth right now, Do you believe it
Games people play in the middle of the night


Penso num tigre. E a penumbra exalta
A vasta Biblioteca laboriosa
E parece afastar as prateleiras;
Forte, inocente, ensanguentado e novo,
Irá p'la sua selva e p'la manhã
E marcará seu rasto na lodosa
Margem dum rio cujo nome ignora.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Adiemus, Ion, Bruce Mitchell

Ligações
Loreena McKennitt, Stomu Yamashta & Steve Winwood, Alan Parsons Project

Textos:
Jorge Luís Borges

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012