Sons da Escrita 370

26 de Novembro de 2011

Primeiro programa do ciclo Jorge de Sena

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jorge de Sena

Génesis

De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça… — Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade… Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.


Perfect lie (Sheryl Crow)

Burn like a cigarette
All inside my head
Reminding me not to forget
Words, words I'd never say
Things along the way
Like telling me that I'm the best

Look at your face it doesn't look like it did
You give away everything now that you've hid
You, you wanted me only
To never be lonely
So you opened up your arms and took me in
but this is it our last goodbye
And this is a perfect lie
Told by someone that I used to know back then

Help, help is on the way
That's what they all say
But the thing that they don't know
Is I, I know everything
And maybe it's just a ring
But help won't make me let it go

Look at your face it doesn't look like it did
You give away everything now that you’ve hid
You, you wanted me only
To never get lonely
So you opened up your arms and let me in
And this our last goodbye
And this is a perfect lie
Told by someone that I used to know back then

Look at your face, it doesn't look like it did
You hide the love
That you're not willing now to give, willing now to give
You, you wanted me only
To never be lonely
So you opened up your arms and let me in
And this is our last goodbye
And this is a perfect lie
Told by someone that I used to know back then

and this is the last goodbye
and this is the final lie
that i never have to hear that voice again


Jorge de Sena

Conheço o sal

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.


Saltwater (Julian Lennon)

We are a rock revolving
Around a golden sun
We are a billion children
Rolled into one
So when I hear about
The hole in the sky
Saltwater wells in my eyes
We climb the highest mountain
We'll make the desert bloom
We're so ingenious
We can walk on the moon
But when I hear of how
The forests have died
Saltwater wells in my eyes

I have lived for love
But now that's not enough
For the world I love is dying
(And now I'm crying)
And time is not a friend
(No friend of mine)
As friends we're out of time
And it's slowly passing by
Right before our eyes

We light the deepest ocean
Send photographs of Mars
We're so enchanted by
How clever we are
Why should one baby
Feel so hungry she cries
Saltwater wells in my eyes

I have lived for love
But now that's not enough
For the world I love is dying
(And now I'm crying)
And time is not a friend
(No friend of mine)
As friends we're out of time
And it's slowly passing by
Right before our eyes

We are a rock revolving
Around a golden sun
We are a billion children
Rolled into one
What will I think of me
The day that I die
Saltwater wells in my eyes

Saltwater wells in my eyes


Jorge de Sena

A diferença que há

A diferença que há entre os estudiosos e os poetas
É que aqueles passam a vida inteira com o nariz num assunto
A ver se conseguem decifrá-lo, e estes
Abrem o livro, lêem três páginas, farejam as restantes
(nem sequer todas) e sabem logo do assunto
o que os outros não conseguiram saber. Por isso é que
os estudiosos têm raiva dos poetas,
capazes de ler tudo sem ter lido nada
(e eles não leram nada tendo lido tudo).
O mal está em haver poetas que abusam do analfabetismo, 

E desacreditam a Gaya Scienza


Difference (Wallflowers)

One, two boys by the river
Down by the water
Tellin' riddles in the dark
With fireflies under the moonlight
Carvin' the insides of a tree with a knife
Ever hear the one about the boy's big sister
His best friend come along
He tried to kiss her

The only difference
That I see
Is you are exactly the same
As you used to be

One boy lives in a tower
With bow and arrow
And the artificial heart
With his girl
Maid of dishonor
He loaded the cannon
With a jealous appetite
They say that children now
They come in all ages
And maybe sometimes old men die
With little boy faces

You always said that you needed some
But you always had more, more than anyone


Dizer porquê e para quê

Dizer porquê e para quê do que descubro
que a vida ensina ou julgo que ela ensina?
Se o só descubro quando passou tempo,
e a gente já passou como eu também?
Se quem me leia não me entenderá?-
ou são mais velhos e já sabem,
ou mais antigos e têm outra língua
ou são mais jovens crendo que o saber
é a sua descoberta em que de passo em passo
descobrirão que a vida não ensina
senão o que mais tarde em nós descobriremos
de quanto nunca foi ou não escolhemos. 

Di-lo-ei por mim e para mim? Porquê
Aos outros? Que comum tenho com eles
além de lhes dizer que não importa
dizer o que não dizem? se não há
maneira alguma de viver de novo
o que quiséramos que a vida fora?
E se outros não de nós mas de si mesmos
já descobriram de outro modo a mesma coisa,
ou hão-de descobri-la? De experiência
Falamos e falemos. E nenhuma
serve a ninguém. Que tê-la não a tendo
Ou que não tê-la tendo-a é o que se diz dizendo.


I can’t tell you why (Eagles)

Look at us baby, up all night
Tearing our love apart
Who'd be the same two people who lived
through years in the dark?
Ahh...
Every time I try to walk away
Something makes me turn around and stay
And I can't tell you why

When we get crazy,
it just ain't right,
(try to keep you head, little girl)
Girl, I get lonely, too
You don't have to worry
Just hold on tight
(don't get caught in your little world)
'Cause I love you
Nothing's wrong as far as I can see
We make it harder than it has to be
and I can't tell you why
no, baby, I can't tell you why
I can't tell you why

Every time I try to walk away
Something makes me turn around and stay
And I can't tell you why

No no, baby, I can't tell you why
I can't tell you why
I can't tell you why


É tarde, devia ter-me deitado mais cedo,
há muito que devera estar a dormir.
Mas estou acordado com o meu cansaço
e a ouvir música. Desfeito de cansaço
incapaz de pensar, incapaz de olhar,
totalmente incapaz até de repousar à força de
cansaço. Um cansaço terrível
da vida, das pessoas, de mim, de tudo.
E fumo cigarro após cigarro no desespero
de estar tão cansado. E ouço música…


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vangelis Papathanassiou

Ligações
Sheryl Crow, Julian Lennon, Wallflowers, Eagles

Textos:
Jorge Sena

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012