Sons da Escrita 372

10 de Dezembro de 2011

Terceiro programa do ciclo Jorge de Sena

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jorge de Sena

Quando se pensa nesse amor

Quando se pensa neste amor que é feito
De tão variados modos sempre iguais
(ou de modos semelhantes tão diversos),
e se viveram já mais de trinta anos
de sonhá-lo, e fazê-lo, e desejá-lo
ainda e sempre como adolescente
sempre temendo quanto não conhece
(e ao mesmo tempo nada é já surpresa
no prazer que não cansa como nós) —
quando pensamos quantas vezes, quanta
gente por nós passou que possuímos
(se era de quem sempre desejou
um outro corpo além do que abraçava,
mesmo se o corpo fora o desejado mais) —
quando se pensa na ternura, o anseio
nos rodeando a vida que nos foge
e sendo como o que ainda mais a afasta
na dor de ser-se amado não se amando
senão o amor e não quem nos amara
por nós e em nós e não do que fazemos —
desde o nascer à morte, desde o instante
em que o prazer do sexo se descobre
até quando será memória extinta
nada sentido tem, nem o desejo
que sem sentido continua a ser
o só que vale a pena de ter tido
no desespero irónico de ser-se.


Thinkin’ about you (Trisha Yearwood)

I'm not quite sure what's goin' on
But all day through and all night long
I've been thinkin' about you
I've been thinkin' about you

The look in your eyes when you smile that way
The sound of your voice sayin' my name
I've been thinkin' about you
Just keep thinkin' about you
This single minded fascination I've got
Do you call it love
If you don't then what
All I know is I don't know what you've done
And this train ain't about to jump the track that it's on

In the back of my mind there's a secret place
But the whole world knows by the smile on my face
I've been thinkin' about you
Can't stop thinkin' about you

I know it's crazy callin' you this late
When the only thing I wanted to say is
I've been thinkin' about you
Just keep thinkin' about you
I Can't stop thinkin' about you
Always thinkin' about you


Jorge de Sena

Bucólica e não

Há sempre poetas para fazer versos à terra,
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos — que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musguentos
em troncos. Ou no chão buracos de formigas,
e de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
É orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
rios e regatos murmurantes — que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
Jorrando intermitentes num agudo jacto?
que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?


Peace on Earth (U2)

Heaven on Earth, we need it now
I'm sick of all of this hanging around
Sick of sorrow, sick of the pain
I'm sick of hearing again and again
That there's gonna be peace on Earth

Where I grew up there weren't many trees
Where there was we'd tear them down
And use them on our enemies
They say that what you mock
Will surely overtake you

And you become a monster
So the monster will not break you
And it's already gone too far
You say that if you go in hard
You won't get hurt

Jesus can you take the time
To throw a drowning man a line
Peace on Earth

Tell the ones who hear no sound
Whose sons are living in the ground
Peace on Earth

No whos or whys
No one cries like a mother cries
For peace on Earth

She never got to say goodbye
To see the colour in his eyes
Now he's in the dirt
Peace on Earth

They're reading names out over the radio
All the folks the rest of us won't get to know
Sean and Julia, Gareth, Ann, and Breda
Their lives are bigger than any big idea

Jesus can you take the time
To throw a drowning man a line
Peace on Earth

To tell the ones who hear no sound
Whose sons are living in the ground
Peace on Earth

Jesus and the song you wrote
The words are sticking in my throat
Peace on Earth

Hear it every Christmas time
But hope and history won't rhyme
So what's it worth
This peace on Earth
Peace on Earth


Jorge de Sena

Quantos na vida corpos

Quantos na vida corpos conheci?
Uns de passagem, outros repetidos, outros demorados
a ponto de não querer já conhece-los ou
conhece-los fazer que mais agudamente
a outros desejasse. É incrível se pensa.
E às vezes descendência de primeiros poderá ter sido.
Que me deixaram? Uma ciência inútil,
tão doce e tão amarga, de saber de mais
como corpos se entregam ou se negam.
Que deixei neles? Uma ciência? Culpa?
Uma memória cínica? Saudade?
ou quando se recordam do amor feito
algum estranho vazio a persegui-los
mais vazio se torna e de vazio estranho?
É isto o conhecer sem nome e sem conversa
em que se estendem corpos antes que o pensar
transforme o amor que é feito
no amor que se apaixona.


Dead bodies (Air)

instrumental


Como de súbito na vida

Como de súbito na vida tudo cansa!
e cansa-nos a vida e nos cansamos dela,
ou ela é quem se cansa de nós mesmos,
na teima de existir e desejar?
Porque, neste cansaço, não o que não tivemos,
ou que perdemos, ou nos foi negado,
o que de que se cansa, mas também
o quanto temos, nos ama, se nos dá
até os simples gozos de estar vivo.
Um dia é como se uma corda se quebrara,
ou como se acabara de gastar-se,
que nos prendia a tudo e tudo a nós.
Não é que as coisas percam importância,
as pessoas se afastem, se recusem,
ou nós nos recusemos. Não. É mais
ou menos que isto — se deseja igual
ao como até há pouco desejávamos.
É talvez mais. Mas sem valor algum.
O dia é noite, a noite é dia, a luz
se apaga ou se derrama sobre as coisas
mas elas deixam de ter forma e cor,
ou se sumir no espaço como forma oculta.
E o que sentimos é pior que quanto
dantes sentíamos nas horas ásperas
da fúria de não ter ou de ter tido.
Porque se sente o não sentir. Um tédio
não como o tédio antigo. Nem vazio.
O não sentir. Que cansa como nada.
Até dizê-lo cansa. É inútil. Cansa.


Sick & tired (Cardigans)

sick, tired and homeless
with no one here to sing for
tired of being weightless
for all these looking good boys

you can always say my attic has its charm
you can always say you did no major harm
you can always say that summer had its charm
and that you did no major harm
oh, spare me if you please

sick, tired an sleepless
with no one else to shine for
sick of all my distress
but I won't show I'm still poor

you can always say my attic has its charm
you can always say you did no major harm
you can always say that summer had its charm
and that you did no major harm
oh, spare me if you please

symptoms are so deep
something here's so wrong
nothing is complete
nowhere to belong
symptoms are so deep
I think I'd better stay
here on my own
so spare me if you please


Se vieres, poesia,
a mim ter comigo,
em mim não encontras
o teu velho amigo.
Mal onde procures,
já estive, não estou:
e mesmo que queiras
que eu parta: não vou.
Que a vida que tenho,
se o mundo a levar,
ainda é com ela
que esperas durar.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Jamie Lizmore

Ligações
Trisha Yearwood, U2, Air, Cardigans

Textos:
Jorge Sena

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012