Sons da Escrita 373

17 de Dezembro de 2011

Quarto programa do ciclo Jorge de Sena

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jorge de Sena

Sem data

Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.
Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.
Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.
Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
circula entre as folhas paradas,
conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.
Apetece-me explicar, agora as asas dos anjos.


No face, no name, no number (Traffic)

I'm looking for a girl who has no face
She has no name, or number
And so I search within his lonely place
Knowing that I won't find her
Well, I can't stop this feeling deep in inside me
Ruling my mind

I feel no sound
Don't know where I'm bound

The scenery is all the same to me
Nothing has changed or faded
I'm a part of it, some part of me
Painted cool green, and shaded
So, try to find myself must be the only way
To feel free


Jorge de Sena

Arrecadação

Relógio combalido…
minutos eram muitos, tantos, tantos.
e os astros à lareira
aprendem a aquecer-se…
Quantos céus vieram acabar ali!…
e ali estão a enrubescer à chama
e ajeitando a manta nos joelhos…
— E daquela vez que Saturno inclinou de mais o anel?
— E quando passávamos por detrás da Lua!
Na terra toda a gente olhando,
a querer em nós ler o segredo…
Relógio combalido…
minutos eram muitos, tantos, tantos...
e os astros à lareira
aprendem a aquecer-se
e riem, riem mansamente...
quantos céus vieram acabar ali…
— Há quem não conheça a Via Láctea…
— Sabes? Também lhe chamam Estrada-de-Santiago…
— Disseram-me que o outro dia um homem descobriu a minha idade…
riem todos, riem mansamente…
minutos eram tantos, tantos, tantos…
Da janela da arrecadação
vê-se trabalhar pelo infinito,
uns poucos firmes, outros decididos…
Agora mesmo, um Poeta escreveu que nós andámos no infinito…
e riem devagar como se me vissem muito perto.
No silêncio crepitou a lenha,
há nova cor e variação de brilho.
— Além atrás da porta.
— Ah sim! É uma foice
muito antiga… muito antiga… Já não corta.
E os astros riem, riem mansamente…
Relógio combalido…
minutos eram muitos, tantos, tantos…


A matter of minutes (Shawn Colvin)

I've been thinking
About you and me
Maybe I was just
Seeing what I wanted to see

You can call me crazy
But you know this time I swore
That I wouldn't run
But I can't do that anymore

I can't find a way to stay
And I can't see my way to go
But I can't give up without a fight.

I can pack myself up in a matter of minutes,
Leave you all far behind
All of my old world and all the things in it are hard to find
If they ever were mine

You've been trying
And I know it's been hard
And I'm afraid of
All this blood in my heart

If there's one thing certain
It's there ain't nothing for sure
And I want to run
But I can't do that anymore

I can't meet you half way
And I can't have it my way
And I can't give up without a fight

I can pack myself up in a matter of minutes,
Leave you all far behind
And all of my old world and all the things in it are hard to find
All of my old world and all the things in it are hard to find
Like they ever were mine

I could count the good times we had
On one hand
All the rest was
A sort of means to the end

Well not it's done
And I can never
Go back to where I was before
And I wanna run...

I can get myself clean in a matter of minutes
And get it wrong every time
All of my whole world and all the things in it are hard to, hard to find
Everything change in a matter of minutes
And nothing was saved in time
All of my old world and all the things in it are hard to find
But they never
never
never
were mine


Jorge de Sena

Para Bellum

Protestos, livros, poemas, sacrifícios,
A história analisada e desmascarada: a paz
E não a guerra desde sempre a guerra.
É velho tudo isto. Há malandros
Para ganhar com as guerras, há patriotas
Para mandar os outros morrer nelas, há
Heróis ou não heróis que morrem nelas,
Há multidões para serem massacradas.
Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc.
E nada muda, ou muda para mais.
Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos
(nunca os próprios mortos) exageravam — evidente.
Hoje, os comunicados cometem sempre esse exagero
(e a mesma distracção discreta). Mas há sempre
humanidade com vocação para matar e multidões
com vocação vacum para cadáver.
E neste cheiro a podre milenário — vale a pena
Sequer dizer que são filhos da puta?


Web of lies (Mike & the Mechanics)

Just a minor indiscretion
No need to apologise
I don't want this to become an obsession
But I just can't believe my eyes

Evidence in my possession
Points a finger straight at you
Every day I'm closer to a confession
If only I can face the truth

Every mistake that you make
Drives the knife into my heart
Twisting down deeper and deeper
Still tearing me apart

I'm trying to find a grain of truth in this web of lies
I'm trying to find a grain of truth in this web of lies

You swear to god you're on the level
And you've nothing more to hide
Then I turn around and "speak of the devil"
You're both together side by side

Every mistake that you make
Seems more careless than the last
I'm just amazed that you try to cover
The tracks of your past

I'm trying to find a grain of truth in this web of lies
I'm trying to find a grain of truth in this web of lies

Have you got me in your pocket?
Am I eating from your hand
I think we need to shed some light on the matter
So I can really understand

Darlin' there's no perfect crime
That's left without a trace
And right now I'm judge and I'm jury
Till I can rest my case

I'm trying to find a grain of truth in this web of lies


Solstício breve

Imensa e doce a sombra me prepara
um despertar incauto. No estertor
das luzes cruas com que o sol me queima
os corpos nus dispersos pela brisa
ao longo da planura reticente,
já breve e subitânea se insinua
a mesma lucidez, velha agonia,
de mesma sempre com vagar perdida
ser outra ainda a juventude pura.
É com vagar que me reclino e perco
as últimas esperanças e cuidados,
no extenso dardejar mais fugitivo
quanto a meus olhos os visíveis gritos
vão sendo, ao longe, pouco a pouco, gestos
que a própria dispersão só envelhece.

Na lenta despedida o sol me esquece.


Ring out, Solstice bells (Jethro Tull)

Now is the solstice of the year,
winter is the glad song that you hear.
Seven maids move in seven time.
Have the lads up ready in a line.
Ring out these bells.
Ring out, ring solstice bells.
Ring solstice bells.

Join together beneath the mistletoe.
by the holy oak whereon it grows.
Seven druids dance in seven time.
Sing the song the bells call, loudly chiming.

Ring out these bells.
Ring out, ring solstice bells.
Ring solstice bells.

Praise be to the distant sister sun,
joyful as the silver planets run.
Seven maids move in seven time.
Sing the song the bells call, loudly chiming.
Ring out those bells.
Ring out, ring solstice bells.
Ring solstice bells.
Ring on, ring out.
Ring on, ring out.


Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa
essa alegria.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
William Elwood

Ligações
Traffic, Shawn Colvin, Mike & The Mechanics, Jethro Tull

Textos:
Jorge Sena

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012