Sons da Escrita 374

24 de Dezembro de 2011

Quinto programa do ciclo Jorge de Sena

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jorge de Sena

Quem a tem…

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.


Liberdade (Djavan)

Um amor ou um gen da mesma cor
Cintila em mim o chão a tremer
Conduz a luz meu amor e quer
Me matar de amor que seja assim
Por obedecer viver por mim

E voar onde o longe é pouco
Cruzar os muros do além
E assim pousar na Terra
E amar muito mais que poucos
Pousar a vida em tuas mãos
E assim cruzar a Terra

Liberdade vai na poesia
Traz meu destino que eu vou sair

E voar onde o longe é pouco
Cruzar os muros do além
E assim pousar na Terra
E amar muito mais que poucos
Pousar a vida em tuas mãos
E assim cruzar a Terra


Jorge de Sena

De poesia falemos…

Contemplo inutillmente a voz que surge
e é tão inútil como contemplá-la.
Inútil escrevê-la, dar-lhe a fala
mansa e provável com que procurá-la
por entre ecos urgentes e confusos.

Se eu próprio a escuto quando a vejo escrita
que só a entendo se me esqueço dela,
que sombras, que arvoredos à janela
o recordar ao recordar congela
como escolhidos, contemplados ecos?

Murmúrios vagos de amarguras nítidas
sem sonhos inconfessos nem paisagens;
ciência certa de secretas viagens
pelo silêncio impuro de outras margens:
memórias são que pelo olhar se espelhem?

Ah não, nem o que vejo a mim me vê,
nem me é visão distante o que conheço.
E o próprio contemplar que, escrito, esqueço,
acaso é de outro acaso com que teço,
inútil, um sentido em quem me lê.


Let’s talk about me (Alan Parsons Project)

Let's talk about me for a minute
Well how do you think
I feel about what's been going on
Let's talk about me for a minute
Well how do you think
I feel about what's gone wrong

Let's talk about dreams
I never learned to read the signs
Let's think about what it all means
I never seem to have the time

Let's talk about you and your problems
All that I seem to do is spend the night
Just talking 'bout you and your problems
No matter what I say I can't get it right

Don't think about dreams
Is it all a waste of time
Don't think about what it all means
If you are a friend of mine

Talk about me, for a minute
I'm the one who's losing
Talk about me, for a minute
I'm the one who's always losing out

And how do you think
I feel about what's been going on
Let's talk about me for a minute
Well how do you think
I feel about what's gone wrong

Let's think about dreams
We never seem to have the time
Let's talk about what it all means
If you are a friend of mine

Let's talk about me
I'm the one who's losing out
I'm the one who's losing out
I'm the one who's losing out, losing out

Talk about me, for a minute
I'm the one who's losing
Talk about me, for a minute
I'm the one who's always losing out


Jorge de Sena

Dupla glosa

«Não passam, Poeta, os anos sobre ti»
— eis o que em tempos uma vez te disse.

Não é bem a verdade; passam sobre ti
como por sobre os seres que perecem.
Apenas sempre tu soubeste como
se vive no intervalo entre os instantes.

Os anos passam; mas, desta passagem,
a permanente essência em nós se cumpre,
que para testemunho só nascemos.

Mas de que falas tu? De ti? Do mundo?
Ou do intervalo em que te aceitas outro,
precisamente quando mais te julgam tu?

A pouco e pouco, nascerás de tudo.
Tu próprio, todavia, não disseste que
«anoitecendo a vida recomeça»?


Life is just a passing parade (Carlos Santana)

When I was a little boy
I was raised down south in Mexico
Nothing ever happened that was new to me
Then one day we saw circus posters on the wall
Suddenly, All my friends and I
We heard a sound
It was loud
Music all around us seemed to make us free

Life is just a passing paradise
Life is just a passing paradise

Everybody started dancing
I never saw so many people having so much fun

Now I'm living in this country
And I've got myself a steady job
I keep seeing people happy everywhere
All I get to do is play my guitar

Come on! Everybody get together, have some fun
Come on! Everybody get together, have some fun

Life is just a passing paradise
Life is just a passing paradise

Everybody started dancing
I never saw so many people having so much fun


Epitáfio

De mim não buscareis, que em vão vivi
de outro mais alto que em mim próprio havia.
Se em meus lugares, porém, me procurardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.


Essas palavras que em meu nome passam
nem minhas nem de altura são verdade.
Verdade foi que de alto as desejei
e que de mim só maldições cobriam.
Debaixo delas a traição se esconde,
porque demais me conheci distante
de alturas que de perto não existem.

Fui livre, como as águas, que não sobem.
Pensei ser livre, como as pedras caem.
O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,
que o dia a dia
em que me via
ele mesmo apenas era e nada mais.

Por isso fui amado em lágrimas e prantos
do muito amor que ao nada se dedica.
Nada que fui, de mim não fica nada.
E quanto não mereço é o que me fica.

Se em meus lugares, portanto, me buscardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.


I’ll find my way home (Jon & Vangelis)

You ask me where to begin
Am I so lost in my sin
You ask me where did I fall
I'll say I can't tell you when
But if my spirit is lost
How will I find what is near
Don't question I'm not alone
Somehow I'll find my way home
My sun shall rise in the east
So shall my heart be at peace
And if you're asking me when
I'll say it starts at the end
You know your will to be free
Is matched with love secretly
And talk will alter your prayer
Somehow you'll find you are there.
Your friend is close by your side
And speaks in far ancient tongue
A seasons wish will come true
All seasons begin with you


Quanto eu disser não ouças,
quanto eu fizer não vejas;
e, se eu estender as mãos,
não me estendas as tuas.

Aceita que eu exista como os sonhos
que ninguém sonha,
as imagens malditas que no espelho
são noite irreflectida.

Talvez que então
da pura solidão
eu desça à vida.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden

Ligações
Djavan, Alan Parsons Project, Carlos Santana, Jon & Vangelis

Textos:
Jorge Sena

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012