Sons da Escrita 128

17 de Agosto de 2007

Terceiro programa do ciclo Jorge de Sousa Braga

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jorge de Sousa Braga

Algumas considerações sobre o desfiladeiro

Para quê as cimeiras as mesas das conversações
Os grandes problemas resolvem-se na cama
… O secretário de estado norte-americano deitou-se com um membro do comité central do PC chinês
Boas perspectivas de abertura nas relações sino-americanas

Não há nada como uma tranquila lua de mel na Sibéria
com centenas de agentes de segurança dentro de bonecos de neve
para se chegar a acordo sobre a redução das armas nucleares

Segundo um telegrama da Reuter
abortou
a conferência de paz em Genebra

De manhã vamos todos acordar
com uma pérola no cu


Casual conversations (Supertramp)

It doesn't matter what I say
You never listen anyway
Just don't know what you're looking for

Imagination's all I have
But eveN then you say it's bad
Just can't see why we disagree

AND Casual conversations how they bore me
YEAH, they go on and on endlessly
No matter what I say
You'LL ignore me anyway
I might as well talk in my sleep (YEAH, I could weep)

You try to make me feel so small
Until there's nothing left at all
Why go on, just hoping that we'll get along?

There's no communication left between us
But is it me or you who's to blame?
There's nothing I can do, yes you're fading out of view
Don't know if I feel joy or pain (AND IT'S SUCH A SHAME)

And now it SEEMS IT'S all been said
If you must leave then go ahead
Should feel sad
But I really believe that I'm glad
Yes I really believe that I'm glad
I REALLY BELIEVE THAT I'M GLAD


Jorge de Sousa Braga

A erva da fortuna cresce (Jorge de Sousa Braga)

A erva da fortuna cresce como por encanto nas orelhas dos ministros.
O primeiro ministro proclama a amnistia para os cucos dos relógios, o degelo nas relações internacionais restabelece o nível das albufeiras. O ministro da energia esfrega as mãos de contente.
Embora o boletim meteorológico seja controlado pelo governo, nuvens cor de chumbo toldam frequentemente o horizonte.
Os pescadores de águas turvas procuram o alto mar.
Uma chuva de impostos cai de imprevisto — ah, a chuva na primavera, escrevem os poetas.


Fool in the rain (Led Zeppelin)

Well there's a light in your eye that keeps shining
Like a star that can't wait for a night
I hate to think I've been blinded, baby
Why can't I see you tonight
And the warmth of your smile starts a-burnin'
And the thrill of your touch gives me fright
And I'm shaking so much, really yearning
Why don't you show up, make it all right

And if you promised you'd love so completely
And you said you would always be true
You swore that you never would leave me, baby
What ever happened to you
And you thought it was only in movies
As you wish all your dreams would come true, hey
It ain't the first time believe me, baby
I'm standin' here feeling blue

Now I will stand in the rain on the corner
I'll watch the people go shuffling downtown
Another ten minutes no longer
And then I'm turning around, 'round
The clock on the wall's moving slower
Oh, my heart it sinks to the ground
And the storm that I thought would blow over
Clouds the light of the love that I found

Hand that ticks on the clock / Just don't seem to stop
When I'm thinking it over / Oooh, tired of the light
I just don't seem to find / Have you wait, get away
Whoa oooh, I see it in my dreams / But I just don't seem to be with you
You I gotta get it all / Gotta get it all, gotta get it all / I've got to get all

Now my body is starting to quiver / And the palms of my hands getting wet,
I've got no reason to doubt you baby / It's all a terrible mess
An' I'll run in the rain till I'm breathless / When I'm breathless I'll run till I drop,
The thoughts of a fool's kind of careless
I'm just a fool waiting on the wrong block

Light of the love that I found


Jorge de Sousa Braga

Portugal, quero falar contigo (Jorge de Sousa Braga)

Portugal quero falar contigo.
Não faças esses olhos de quem viu um lobisomen. Achas esquisito, porventura, que queira falar contigo?
É que tenho coisas muito importantes para te dizer e só agora arranjei a coragem suficiente.

Portugal: eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos.
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais e nunca mais voltasse?
Às vezes quase chego a acreditar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente.

Portugal: não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional, que os meus egrégios avós me perdoem.
Ontem estive a jogar ao póker com o Velho do Restelo. Ele anda na consulta externa do Júlio de Matos. Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas.

Portugal: eu se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to. Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir.

Portugal: vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém. Sabes, estou loucamente apaixonado por ti.

Pergunto a mim mesmo como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu mas que tem um coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal e o corpo cheio de pontos negros para eu poder espremer à minha vontade.

Portugal estás a ouvir-me? Eu nasci em 1957, Salazar estava no poder, nada de ressentimentos.
O meu irmão estava na guerra, tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos.
Um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos.

Portugal: ia propor-te um projecto iminentemente nacional: que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que o Camões lá deixou.

Portugal: sabes de que cor são os meus olhos? São castanhos como os da minha mãe.

Portugal gostava de te beijar muito apaixonadamente na boca.


Brava dança dos heróis (Heróis do Mar)

Oh Grande tribo, nasces do cio
De bélicas Deusas à beira rio
Brava Dança dos Herois
Sagras a vida quando guerrreias
à luz macia das luas cheias
Brava Dança dos Herois

Dos fracos não reza a história
Cantemos alta nossa vitória (2 xs)

Corpos caídos na selva ardente
A terra fertil do sangue quente
Brava Dança dos Herois
Dos feitos a gloria há-de perdurar
Mesmo se a morte nos apagar
Brava Dança dos Herois

Dos fracos não reza a história
Cantemos alta nossa vitória


As andorinhas podem passar livremente a fronteira. Os polícias oferecem grinaldas aos condutores de veículos mal estacionados.
O cio invade a assembleia. Os deputados bombardeiam-se com pólen. Um nostálgico do outono argumenta: a primavera de Praga também foi de lagartas nas estradas.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Camel, David Lanz & Paul Speer, Carlos Paredes

Ligações
Supertramp, Led Zeppelin, Heróis do Mar

Textos:
Jorge Sousa Braga

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012