Sons da Escrita 365

22 de Outubro de 2011

Segundo programa do ciclo Jorge Vicente

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jorge Vicente

Gabriel

gabriel. deixa-me escrever-te um poema. um poema que diga
do meu nome, da sabedoria inerente a todas as coisas. dessas
pequenas palavras que só os justos conhecem, como se fosse
algo inerente ao mundo. e partisse dele. e o rebentasse.

deixa-me ser um rebento azul. anterior à terra e à sementeira
das águas. nunca poderei ser mãe. nem pai. apenas um
invólucro de giz envolto em mil pontos de luz.

deixa-me escrever-te um poema, como se fosse uma carta.
ou um rol de pedidos dirigido às mais altas entidades. nunca
perceberei o significado de ser pai ou mãe. ou uma terra
aberta rio desfloramento da alma.

anuncia o teu amor. anuncia-me. e cai. cai como se fosses o
único, como se a cor vermelha não te afligisse e visses o
homem no lugar do anjo.


Gabriel’s mother highway ballad (Arlo Guthrie)

Woke up this morning with my head in my hand
Come on, children, come on
The snow was falling all over the land
Come on, children, come on

I don't know but I've been told
Come on, children, come on
That the streets of heaven have all been sold
Come on, children, come on

Come on, children, all come home
Jesus gonna make you well
Come on, people, now its time to go
Go to where a man can dwell

Well the sun come up while I wrote this song
Come on, children, come on
To remind me well that it won't be long
Come on children come on

Come on, Gabriel, blow that thing
Come on, children come on
All God's children got to dance and sing
Come on, children come on

All God's children got to sing and shout
Come on, children, come on
There ain't nobody 'round bound to kick you out
Come on, children, come on

One of these days we'll all be there
Come on, children, come on
Seeing those wheels way up in the air
Come on, children, come on

Come on everybody now what's it worth
Come on, children, come on
To make a heaven out of this earth
Come on, children, come on

Moses gonna make you well
You know even Daniel's gonna make you well
Jesus gonna make you well
Mm, mm, gonna make you well

Jorge Vicente

Diz o mestre ao discípulo

I
diz o mestre ao discípulo:
reúne a cor na sua expressão
máxima e juntai-a de luz branca

só assim as aves serão
mais do que pontos negros
na copa dos dedos

II
as crianças fogem. e do seu
cálice retomará o espírito
a sua longa caminhada

III
fácil é a palavra que se
incendeia quando dita;
difícil o poema que dança
no colo de um vulcão


The master’s eyes (Van Morrison)

How the light shone from the master
How the light shone from the master
How the light shone from the master's eyes

Or how the truth shone, from the master
How the truth shone, from the master
How the truth shone, from the master's eyes

Why didn't they leave us to wander through buttercup summers
Why didn't they leave us to wander when there was no other

And my questions all were answered
When the light shone from the master
When the light shone, from the master's eyes

Jorge Vicente

Ontem, uma mulher

ontem, uma mulher sonhou por dentro
de mim — no interior da pele, no espaço
que vai do rosto ao coração maior,

ontem, esse coração não era o meu
coração — senão aquele que a lenda diz,
que os homens esquecem quando essa mulher
se senta e junta neve às palavras

de pranto,

ontem, o corpo não era o corpo,
mas sim o que restava de todos os homens
na enxurrada das árvores
e das palavras

quando anoitecem.


Yester-me, yester-you, yesterday (Stevie Wonder)

What happened to the world we knew
When we would dream and scheme
And while the time away
Yesterme yesteryou yesterday

Where did it go that yester glow
When we could feel
The wheel of life turn our way
Yesterme yesteryou yesterday

I had a dream so did you life
Was warm and love was true
Two kids who followed all the rules
Yester folls and now

Now it seems those yester dreams
Were just a cruel
And foolish game we used to play
Yesterme yesteryou yesterday

When I recall what we had
I feel lost I feel sad with nothing but
The memory of yester love and now
Now it seems those yester dreams
Were just a cruel
And foolish game we had to play

Yesterme yesteryou yesterday


a casa é o último
vestígio do pranto:

as suas paredes — sentinelas
de memória — adormecem

num abraço o rebordo
dos olhos


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Russ Deane

Ligações
Arlo Guthrie, Van Morrison, Stevie Wonder

Textos:
Jorge Vicente

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012