Sons da Escrita 132

14 de Setembro de 2007

Primeiro programa do ciclo José de Almada Negreiros

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José de Almada Negreiros

Textos de intervenção.1 (José de Almeida Negreiros)

Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva.
Eu sou um poeta português que ama a sua pátria.
Eu tenho a idolatria da minha profissão e peso-a. Eu resolvo com a minha existência o significado actual da palavra poeta com toda a intensidade do privilégio.
Eu tenho 22 anos fortes de saúde e de inteligência.
Eu sou o resultado consciente da minha própria experiência: a experiência do que nasceu completo e aproveitou todas as vantagens dos atavismos. A experiência e a precocidade do meu organismo transbordante. A experiência daquele que tem vivido toda a intensidade de todos os instantes da sua própria vida. A experiência daquele que, assistindo ao desenrolar sensacional da própria personalidade deduza a apoteose do homem completo.
Eu sou aquele que se espanta da própria personalidade e creio-me portanto, como português, com o direito de exigir uma pátria que me mereça. Isto quer dizer: eu sou português e quero portanto que Portugal seja a minha pátria.


That's where I belong (Paul Simon)

Somewhere in a burst of glory
Sound becomes a song
I'm bound to tell a story
That's where I belong

When I see you smiling
When I hear you singing
Lavender and roses
Every ending a beginning

The way you turn
And catch me with your eye
Ay ay ay
That's where I belong

When I see you smiling
When I hear you singing
Lavender and roses
Every ending a beginning

That's the way it is
I don't know why
Ay ay ay
But that's where I belong

A spiny little island man
Plays a jingling banjo
He's walking down a dirt road
Carrying his radio
To a river where the water meets the sky
Ay ay ay
That's where I belong


José de Almada Negreiros

Textos de intervenção.2 (José de Almeida Negreiros)

Quando, no fim do ano lectivo de 1910-1911 terminei o curso dos liceus e saí do Colégio para onde fui interno desde a idade dos seis anos, vi pela primeira vez diante de mim uma única coisa e da qual ninguém me tinha falado. Essa única coisa que estava diante de mim era a vida, a realidade da vida. Antes de eu chegar a vê-la pela primeira vez nunca ninguém se lembrou de me prevenir de que ela surgiria um dia pela minha frente. Com certeza que se esqueceram de me avisar, porque não creio que os mestres e os amigos desejassem o meu mal. Mas a verdade é que, de um dia para o outro, eu tinha sido posto de repente, nem mais nem menos, do que na realidade deste mundo, essa perigosa surpresa para quem tenha apenas o curso dos liceus. Não me foi necessário muito tempo para perceber que não havia afinal ligação possível entre o meu curso e a realidade da vida que estava na minha frente, de modo que não tive outro remédio senão dar por escusados aqueles dez anos consecutivos que levei a estudar metido no colégio. O pior era a vida que estava agora mesmo na minha frente. Ora eu lembrei-me de que gastei mais de três anos do que os necessários para os sete dos liceus. A explicação era a de ter sido inúmeras vezes apanhado em flagrante pelos professores a fazer bonecos nas aulas, às escondidas. Muita descompostura, muito tabefe, muito castigo eu tive por causa dos malditos bonecos! Mas a verdade é que uma vez chegado à vida a minha pena foi a de não ter perdido antes sete anos do liceu por causa dos três anos de bonecos! Na realidade eu não entendia o espírito nem a alegria senão através da Arte, palavra da minha muita simpatia e a qual, por isso mesmo sempre me mereceu um A grande. Desde pequeno e especialmente desde que terminei o liceu tudo o que não fosse Arte não era comigo, era com os outros. O Comércio, a Ciência e todas essas coisas que também se escrevem começadas por maiúsculas eram-me todas interditas.
A Arte não, a Arte era para mim. De modo que diante das sete portas por onde se entra para a vida eu enfiei sem hesitação por aquela que tinha em cima estas quatro letras A, R, T, E. Só depois de entrar é que reparei que, apesar de se nascer artista como se nasce com os cabelos encaracolados ou de olhos azuis, a Arte tinha ainda muito que se lhe dissesse e sobretudo Ela que dizer aos artistas.
Em todo o caso, mesmo antevendo futuras dificuldades, V. Ex.as não supõem a minha alegria quando reparei que era um artista nato. E foi com essa alegria que fui à procura de outros que em Arte soubessem mais do que eu. Não me seria difícil encontrá-los, pois que eu tinha entrado pela portA designada e além disso fora eu o último a entrar. Soube então que havia professores oficiais próprios para estes estudos e ensinaram-me onde era a casa onde se aprendia a ver a natureza. Para lá me dirigi. A porta estava aberta e não havia nem soldado nem paisano que dificultasse a entrada a quem quer que fosse. Simplesmente eu não consegui entrar. Peço-lhes por tudo quanto há que não me perguntem a razão pela qual eu não entrei na Escola de Belas-Artes. Eu senti a impressão, ao ver aquela fachada, que tinha de estar outra vez mais dez anos a tirar os sete dos liceus. Mas a verdadeira razão pela qual eu lá não entrei, essa não a digo porque não tenho interesse especial em ferir aqueles que por lá passaram.
Depois disso conheci pouco a pouco toda essa multidão que entrou na vida por aquela porta que tem Arte escrito em cima. Por último, eu julgava ter-me já enganado de porta e ter metido pela do Comércio ou por outra qualquer menos a da Arte. Porém, não era eu que me tinha enganado de porta, eram eles. Há efectivamente muita gente que não necessita do balcão para fazer comércio. Está-lhes na massa do sangue.


Painted smile (Moody Blues)

I can sing
I can dance
Just give me a chance
To do my turn for you / There's a change I'll slip
But with stiff upper lip / I'll sing a song for you
Laughter is free / But it's so hard to be a jester
All the time / And no one's believing
I'm the same when I'm bleeding
And I hurt all the time deep inside

I've shed a tear for the lying
While everyday trying to
Paint this smile for you
Backflips, cartwheelings,
Somersault feelings
What is there left to do
Laughter is free / But it's so hard to be a jester
All the time / And no one's believing
I'm the same when I'm bleeding
And I hurt all the time deep inside

Roll up, roll up / Enjoy the show
Pick me up, wind me up, put me down / You'll see me go
And this painted smile / May miss for a while
Then come back and steal your show

I sing
I dance
Give me a change to do my turn for you
With backflips, cartwheelings,
Somersault feelings
What's there left to do
Laughter is free / But it's so hard to be a jester
All the time / And no one's believing
I'm the same when I'm bleeding
And I hurt all the time deep inside.


José de Almada Negreiros

Textos de intervenção.3 (José de Almeida Negreiros)

A palavra mais desconsiderada hoje em Portugal é a palavra artista.
Desconsiderada, desprestigiada, falida, e posta fora da cena e da vida. Não haja receio de afirmar isto mesmo, rendidos estamos pela evidência das realidades. Há outra palavra, hoje, tão diminuída e prejudicada no seu verdadeiro significado como a palavra artista - precisamente essa que lhe serve de raiz: a palavra Arte. Estas duas palavras Arte e artistas estão à mercê das deficiências e barbarismos de quantos as hão-de usar, do lado público e do lado particular, precisamente como se elas não fossem essencialíssimas na vida dos povos e dos indivíduos.
Pois se não sossobraram ainda, é porque de verdade não são de qualidade de morrer, contudo vão desastradamente arrastadas pela força da corrente, sem comando próprio, à deriva.
Essencialíssimas na vida dos povos e dos indivíduos, dissemos e agora repetimos para quem não o tenha ouvido da primeira vez.
Pomos o superlativo decididamente para sublinharmos a sua capital importância e precisamente hoje, quando essas duas palavras andam longíssimo do que representam.


Paint it black (Rolling Stones)

I see a red door and I want it painted black
No colors anymore I want them to turn black
I see the girls walk by dressed in their summer clothes
I have to turn my head until my darkness goes

I see a line of cars and they're all painted black
With flowers and my love both never to come back
I see people turn their heads and quickly look away
Like a new born baby it just happens ev'ry day

I look inside myself and see my heart is black
I see my red door and must have it painted black
Maybe then I'll fade away and not have to face the facts
It's not easy facin' up when your whole world is black

No more will my green sea go turn a deeper blue
I could not foresee this thing happening to you

If I look hard enough into the settin' sun
My love will laugh with me before the mornin' comes

I see a red door and I want it painted black
No colors anymore I want them to turn black
I see the girls walk by dressed in their summer clothes
I have to turn the head until my darkness goes

Hmm, hmm, hmm,...

I wanna see your face, painted black
Black as night, black as coal
I wanna see the sun blotted out from the sky
I wanna see it painted, painted, painted, painted black
Yeah!

Aha, Aha, Aha, ...


Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andy Summers

Ligações
Paul Simon, Moody Blues, Rolling Stones

Textos:
José de Almada Negreiros

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012