Sons da Escrita 009

14 de Maio de 2005

Terceiro programa do ciclo Western, Round-up & Country

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José-António Moreira

O acampamento (José-António Moreira)

Ao pôr-do-sol, a caravana detém-se. O dia foi bom, animais e homens percorreram trinta quilómetros. Um grupo de índios veio parlamentar, o comandante do combóio deu-lhes tabaco e whisky.
Os carroções formam um círculo fechado para proteger o acampamento. As crianças apanham bosta de bisonte seca que substitui a lenha para acender o lume. As mulheres preparam a sopa, os bolos de milho! Riem, contam as histórias de David Crockett. Alguns lêem a Bíblia. Depois toda a gente mergulha no sono. Em redor do acampamento, as sentinelas montam guarda.

— Hum!, que cheirinho a café! Já te levantaste há muito tempo?
— Não dormi quase nada! Tens aí café e ovos com toucinho e feijão…
— Obrigado, és um gajo porreiro! Mas porque é que dormiste mal?! As pedras eram muito duras?, ou foram os coyotes que fizeram muito barulho?, se calhar tiveste medo que aparecessem os índios?
— Deixa-te disso!
— OK! É aquela ferida outra vez, não é, companheiro?
— …
— Não queres falar disso? Fazia-te bem…
— Não há nada para falar…
— Queres voltar para trás?, eu não me importo!
— Não!, nunca!
— Não digas nunca!
— Vou selar os cavalos!
— Então, voltamos?
— Não!

— Se quiseres empresto-te o meu telemóvel…
— Deixa-te de merdas, pá! Isto é um western… os telemóveis ainda não foram inventados!…


If tomorrow never comes (Kent Blazy & Garth Brooks)

Sometimes late at night
I lie awake and watch her sleeping
She's lost in peaceful dreams
So I turn out the lights and lay there in the dark
And the thought crosses my mind
If I never wake up in the morning
Would she ever doubt the way I feel
About her in my heart

If tomorrow never comes
Will she know how much I loved her
Did I try in every way to show her every day
That she's my only one
And if my time on earth were through
And she must face this world without me
Is the love I gave her in the past
Gonna be enough to last
If tomorrow never comes

'Cause I've lost loved ones in my life
Who never knew how much I loved them
Now I live with the regret
That my true feelings for them never were revealed
So I made a promise to myself
To say each day how much she means to me
And avoid that circumstance
Where there's no second chance to tell her how I feel

So tell that someone that you love
Just what you're thinking of
If tomorrow never comes


José-António Moreira

Tatuagens, piercings e outros adereços (José-António Moreira)

— Cortaaaaaa! Mas que é que vem a ser isto? Foste tu quem fez o “casting” para a figuração?
— Fui…
— Eu não acredito!!
— Mas o que foi? Não estou a ver nada de errado!
— Então aquele caramelo vai aparecer com umas jeans “boca de sino” da Zara e com uma tatuagem com o coelhinho da Playboy? Aposto que tem um piercing na língua e que o lenço do pescoço tem um emblema do Benfica!
— Ah!!!
— Pois, Ah!!! Daqui a nada aparece-me a índia vestida pela Ana Salazar ou pela Fátima Lopes… Estou feito!… Chama-me a anotadora, pá!


A new way to fly (Kim Williams & Garth Brooks)

Like birds on a high line
They line up at night time at the bar
They all once were lovebirds
Now bluebirds are all that they are
They landed in hell
The minute they fell from love's sky
And now they hope in the wine
That they'll find a new way to fly

A new way to fly
Far away from goodbye
Above the clouds and the rain
The memories and the pain
And the tears that they cry
Now the lessons been learned
They've all crashed and burned
But they can leave it behind
If they could just find
A new way to fly

By the end of the night
They'll be high as a kite once again
And they don't seem to mind all the time
Or the money they spend
It's a high price to pay
to just find a way to get by
But it's worth every dime
If they find a new way to fly

They'll leave it behind
As soon as they find
A new way to fly


José-António Moreira

Meia-noite em ponto… (José-António)

Era meia noite em ponto, faltavam cinco minutos, e ambos os três cavaleiros, simultaneamente ao mesmo tempo…

— Cortaaa! Mas que porra vem a ser esta! Isto é um filme de cowboys ou uma entrevista a um jogador de futebol? Cá p’ra mim, vocês querem que eu tenha um AVC…
Nem num “western spaghetti” se ouviria uma coisa destas! Às tantas, deram os diálogos ao Serginho! Esse gajo que me desapareça da vista. Ponham-no a escrever no “24 horas” e a apresentar programas na TVI e desamparem-me a loja! Isto ainda há-de ser um filme de cow-boys!


The thunder rolls (Pat Alger & Garth Brooks)

Three thirty in the morning
Not a soul insight
The city's lookin' like a ghost town
On a moonless summer night
Raindrops on the windshield
There's a storm moving in
He's headin' back from somewhere
That he never should have been
And the thunder rolls
Every light is burnin'
In a house across town
She's pacin' by the telephone
In her faded flannel gown
Askin' for miracle
Hopin' she's not right
Prayin' it's the weather
That's kept him out all night
And the thunder rolls
The thunder rolls
And the lightnin' strikes
Another love grows cold
On a sleepless night
As the storm blows on
Out of control
Deep in her heart
The thunder rolls
She's waitin' by the window
When he pulls into the drive
She rushes out to hold him
Thankful he's alive
But on the wind and rain
A strange new perfume blows
And the lightnin' flashes in her eyes
And he knows that she knows
And the thunder rolls

The thunder rolls
And the lightnin' strikes
Another love grows cold
On a sleepless night
As the storm blows on
Out of control
Deep in her heart
The thunder rolls

She runs back down the hallway
To the bedroom door
She reaches for the pistol
Kept in the dresser drawer
Tells the lady in the mirror
He won't do this again
Cause tonight will be the last time
She'll wonder where he's been


E quando a planície verdejante se confunde com o céu vermelho do Arizona, aí temos o reino do coyote…

— Posso mudar de canal?
— …
— Já te vais deitar?
— …
— Olha, podias fazer um chá de jasmim, se houver! Anda lá! Amanhã faço-te panquecas para o pequeno almoço…
— …
— ‘Tá bem! Sou eu que faço o chá! Queres que to leve à cama?

Sabes?! Às vezes chego a gostar do teu silêncio; outras vezes, não!
De qualquer modo, faz por seres feliz! Pelo menos faz isso nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da tua vida, se puderes, se fores capaz!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Eric Kunzel, The Cincinatti Pops, Dan Gibson

Ligações
Garth Brooks

Textos:
José-António Moreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012