Sons da Escrita 013

11 de Junho de 2005

Primeiro programa do ciclo Uma carta para Tamina

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José-António Moreira

Uma carta para Tamina — 1 (José-António Moreira)

Depois do teu telefonema, o que começou por ser perplexidade transformou-se, rapidamente, numa avalanche de interrogações, que foi dar à foz de uma serena compreensão.
Quando me pediste para ir buscar os teus cadernos a casa da tua sogra, disse-te imediatamente que sim (não!, não me estou a preparar para te dizer que não faço isso, está descansada!)! Mas essa decisão, talvez extemporânea, resultou, sobretudo, da nossa amizade. Poderia eu recusar-te alguma coisa?! Não! Gosto, gostei sempre de ti, minha amiga!
Não foi por me pedires, a mim, a recuperação dos teus escritos, dos teus diários, que fiquei admirado. Afinal, podias ter pedido ao teu irmão, ao teu pai, mas depressa compreendi, tão bem como tu, que terias como resposta uma série de entraves, de desculpas! O meu espanto, que deves ter notado, foi ter constatado que, ao fim de tantos anos, te tenhas lembrado de recuperar esses cadernos. Porquê?!
Por que raio quererá ela os cadernos? — perguntei-me — e acabei, eu próprio, por tentar responder à pergunta que te poderia ter feito. Mas tu sabes que eu não gosto de forçar as pessoas a dizerem mais do que querem dizer. Aprendi isso, lentamente, contigo. Por isso, não te perguntei nada! Se quisesses dar-me mais explicações tê-lo-ias feito, eu sei!

Mas, os Cadernos?! Porquê os cadernos?, porque não qualquer outra das tantas coisas que deixaste para trás? Foi, assim que começaram as interrogações ou, pelo menos, as dúvidas!


Refugee (Camel)

There's a rumor flying through the air;
Paranoia's creeping everywhere.
You're gonna raise a wall -
to draw the line.

You say you've got your reasons
I hear them all the time
You say it's talking treason
and a crime...
to question why.

Don't you know I've seen this all before?
History repeats itself once more.
I don't want to go -
and I can't stay.

You say you've got your reasons
I hear them all the time.
You say it's talking treason
and a crime...
to question why.

I don't want to be a refugee,
I just want a single guarantee.
I don't want to be a refugee,
I just want the right to disagree.


José-António Moreira

Uma carta para Tamina — 2 (José-António Moreira)

Pois é, surgiram dúvidas. Não!, nenhuma dúvida sobre a tua vontade. Nenhuma dúvida sobre o direito de reaveres o que te pertence. Mesmo quando não compreendemos a vontade, o direito à vontade própria impõe-se e, relativamente a isso, dúvida nenhuma.
As dúvidas de que te falo são outras; são as que se relacionam com os meus próprios cadernos — se os perdesse, por qualquer motivo, tentaria reavê-los?, ficaria num tão grande desespero como o que deixaste transparecer da tua voz aflita?
Afinal, que significado podem ter os meus escritos dispersos, que vão da puerilidade juvenil, até ao peso máximo de duas ou três palavras (que sei de cor), sem nomes, sem os nomes que pronuncio a mim próprio apenas em surdina, quando nem o silêncio me deixa ouvi-los, como se admitisse ser cúmplice de pessoas ilícitas, como se as quisesse proteger,… apesar de tudo!
Afinal, porque escreveste?, para que escrevo eu?


Private investigations (Dire Straits)

It's a mystery to me - the game commences
for the usual fee - plus expenses
confidential information - it's not a public inquiry
I go checking out the reports - digging up the dirt
you get to meet all sorts in this line of work
treachery and treason - there's always an excuse for it
and when I find the reason I still can't get used to it
And what have you got at the end of the day?
what have you got to take away?
a bottle of whisky and a new set of lies
blinds on the windows and a pain behind the eyes
Scared for life - no compensation
private investigations


José-António Moreira

Uma carta para Tamina — 3 (José-António Moreira)

Lembras-te quando estivemos juntos em Frieburg? Foi na altura em que estava a escrever o guião do filme que não se realizou (estás a sorrir!, imagino!); era aquele filme de antecipação (há quem diga que o género é ficção científica). Tu mostraste-te muito curiosa e quiseste ler o que eu já tinha escrito. Lembras-te?
Eu não me importei nada! Pouco depois de começares a ler, levantaste os olhos para mim e pude notar a expressão de quem interroga a verdade, essa expressão que é tão singular e que conheço em tão poucas pessoas. Claro que não perguntaste nada. Tu nunca perguntas nada!!! Mais à frente, levantaste, novamente, os olhos mas, dessa vez, falaste:
– Este és tu! Isto é a tua vida!…
– Como assim?
– Podes negar, se quiseres, e, se o fizeres, eu acredito no que disseres…
– Tamina, tudo isso se passa no futuro… é quase tudo ficção…
– O futuro é que é uma ficção… Tu bem te escondes atrás de nomes e lugares estranhos, mas, mesmo os lugares só parecem estranhos, porque, naturalmente, eu não os conheço. Mas eles existem… Esse teu futuro é só um vazio indiferente, que não interessa a ninguém! Mas o teu passado está cheio de vida e o seu rosto pode irritar-te, pode revoltar-te, e ferir-te ao ponto de o quereres destruir ou de o voltar a pintar, que é o que fazes, de resto! Só se quer ser senhor do futuro para mudar o passado! É isso que queres ser?, é isso que queres fazer?
– Agora fizeste-me lembrar o Kundera! Conhéce-lo, não conheces?
– Sim, conheço o Kundera! Estas palavras até podiam ser dele! Se calhar até são! Sei lá! O que é que isso interessa?, O que interessa é que eu, eu própria, não quero mais do que o meu passado e o que nele possa existir do passado dos outros. É por isso que escrevo,… se quiseres, para ter a certeza,… para não esquecer!
– Não será, também, uma forma de lamberes as tuas feridas? Não achas que um pouco de sol lhes faria bem melhor?
– Não, exposição não, nunca! Posso sofrer as feridas todas do mundo, mas quero as minhas protegidas dos insectos, especialmente, daquelas miríades de olhos…
– Ocelos, Tamina!
– Sim, serão ocelos, mas vêem tudo, nunca se sabe para onde estão a olhar…
– Desse ponto de vista, todos podemos ser insectos! Eu posso ser um insecto…
– Não, tu não és um insecto!
– Obrigado, Tamina!


Will you? (Hazel O’Connor)

You drink your coffee and I sip my tea
And we're sitting here playing so cool, thinking
What will be, will be
But it's getting kind of late now
I wonder if you'll stay now, stay now, stay now, stay now
Or will you just politely say goodnight?
I move a little closer to you, not knowing quite what to do
And I'm feeling all fingers and thumbs, I spill my tea,
oh silly me!
But it's getting kind of late now
I wonder if you'll stay now, stay now, stay now, stay now
Or will you just politely say goodnight?

And then we touch much too much
This moment has been waiting for a long long time
Makes me shiver, it makes me quiver
This moment I'm so unsure
This moment I've waited for
Is it something you've been waiting for, waiting for too?
Take off your eyes, bare your soul
Gather me to you and make me whole
Tell me your secrets, sing me the song
Sing it to me in the silent tongue
But it's getting kind of late now
I wonder if you'll stay now, stay now, stay now, stay now
Or will you just politely say goodnight?


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Camel

Ligações
Camel, Dire Straits, Hazel O’Connor

Textos:
José-António Moreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012