Sons da Escrita 014

18 de Junho de 2005

Segundo programa do ciclo Uma carta para Tamina

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José-António Moreira

Uma carta para Tamina — 4 (José-António Moreira)

Cá estou eu a caminho de Praga! Registo que navego os procelosos carris dos caminhos de ferro e que o dia acabará, muito provavelmente, por dar razão ao meteorologista de serviço — bom tempo em todo o país, céu geralmente pouco nublado ou mesmo limpo.
Amanhã, cedinho, partirei de camioneta para casa da tua sogra e espero, por volta desta hora, estar de regresso a Praga na companhia dos teus cadernos. Se tudo correr bem, se não houver hostilidades, terás os teus onze cadernos daqui a uma semana.
Pensei muito antes desta viagem, aliás, não tenho pensado noutra coisa, neste últimos dias. Qual das duas razões, se forem só essas, será mais forte no teu coração — furtar os cadernos ao olhar da tua sogra e de outras pessoas, como deduzi das palavras que disseste, há uns anos atrás, em Freiburg, ou essa necessidade, que invocaste recentemente ao telefone, que me parece mais o recoser o passado como se fosses uma cerzideira?
Compreendo que o passado se torne cada vez mais pálido, mas nenhuma técnica de rememoração será suficientemente perfeita para imitar a pele humana! Cautela, Tamina! Se é verdade que é sempre numa presença que julgamos encontrar a felicidade, também as ausências são capazes de segregar as nossas piores dores. Estás preparada para te confrontares com a ausência? Pergunta a ti própria se é isso que queres!
Os cadernos não te vão trazer Pavel de volta! Estarás preparada para te confrontares, ainda mais fortemente, com a ausência dele? E não disseste tu que a maior parte das páginas estão vazias e que o pouco que escreveste são notas fragmentárias?
Eu compreendo que não queiras que a tua sogra leia os teus cadernos! Mas ela, praticamente, já não vê! Então, será, certamente, a reconstrução do passado que te move, mas que não te poupaste a censurar durante a nossa conversa, em Freiburg.
Sabes?, eu achei muito bonito que tivesses dito, nessa altura, que só querias o teu passado. Isso eu acho legítimo e sei que o podes contemplar sem perigo! É teu, mais ninguém o poderá ter.
Outra coisa bem diferente é quereres alterar a memória. Por isso é que me interrogo se não quererás, antes, redesenhá-la, pintar-lhe um tempo de fascínio, mas, inexoravelmente, imperfeito em que tudo pode parecer vivo, mas nada mexe?!
Tem cuidado, minha amiga!, não escrevas nada nas páginas que deixaste em branco, nem tentes apagar nada do que escreveste!


Dear diary (Travis)

Dear Diary, What is wrong with me? ‘Cos
I’m fine between the lines. Be not afraid.
Help it is on its way. A sentence suspended
in air, way over there. Dear Diary, What
else could it be? As nightshade descends like
a veil, under the sail of my heart. Be still,
don’t stop until the end. Dear Diary, What
is wrong with me? ‘Cos I’m fine between
the lines.


José-António Moreira

Uma carta para Tamina — 5 (José-António Moreira)

Lembras-te da carta que me escreveste quando chegaram aos Alpes? Depois de tudo o que vocês passaram, dizias:
— Estamos na montanha magnificamente sós. Em volta reina um silêncio incrível. Recebo esta dádiva inesperada e penso que Pavel deixou a pátria para escapar às perseguições e eu para encontrar o silêncio; o silêncio para Pavel e o silêncio para mim; o silêncio para o amor.

Partilhaste esses momentos comigo e eu senti-me tão feliz, pelo Pavel e por ti.
Se quiseres posso dar-te essa carta. Mas para quê? Não sabes tu que eras feliz? Não conservas essa memória? Porque não a guardas assim, como a tens agora? Porque insinuas a ti própria que precisas de ter a certeza? Não será esse o início da dúvida, de todas as dúvidas?
Claro que não te estou a fazer perguntas. Estou a tentar que te interrogues e que o faças de tal maneira que tu própria encontres a resposta. É necessária alguma mestria e silêncio para que possas “ouvir” a tua voz, sobretudo quando responderes a ti mesma. E… não escrevas… não duvides de ti própria.


Unspoken words (Supertramp)

Why sing a lonely song
The whole world knows that love goes wrong
Why browse a heart that isn’t broken
It isn’t broken, it can be broken
Life’s just a show for free
Come along and watch with me
The only sins are words unspoken
Words unspoken, never spoken

Sweet things come and go
Give me shame I’ll give you “woo”
To live for love isn’t so easy
It isn’t easy, it won’t be easy
How all good men try
Look around and wonder why
Can they shape this world to please me?
Can they please me, should they please me?

And follow and maybe you’ll correct me
I wish you never met me
For I am no gentleman
And follow and while you watch and wonder
I’ll pull the world a sunder
And show you who I am

Send me a gentle dream
of love so strange it’s never seemed
Prove how such a love can happen
It can happen, make it happen
Find things, don’t abound
Fade away without a sound
But hope must never end or slacker
Never slacker, never slacker


José-António Moreira

Uma carta para Tamina— 6 (José-António Moreira)

Cheguei, agora, ao hotel e, está tranquila, trouxe os teus cadernos. Pude contá-los, porque não estavam embrulhados como me descreveste. Terás que aceitar esse facto como consumado. Terá sido a tua sogra, mais ninguém, e, naturalmente, não os leu; quis, apenas, certificar-se que eram só papéis.
Agora sou eu que me encontro numa posição difícil — os cadernos ali à mão, prontos a serem folheados! Espero, agora, que possas dizer que acreditas em mim, mas não enfatizes, não digas, que, mesmo que eu minta, acreditas no que eu disser.
Quando olho para os teus cadernos, não é a curiosidade que faz a vontade de os folhear. Se fosse isso já o teria feito na camioneta e não te trairia. Foste tu quem repetiu ao telefone: — Tu não és um insecto!
Não, não é a curiosidade! Talvez seja, antes, a resposta a uma pergunta que ando à procura do melhor momento, da melhor forma de colocar a mim próprio.
A visão dos teus cadernos, a possibilidade de os ler vai, lentamente, clareando esta ideia de que tenho qualquer coisa para fazer, qualquer coisa para dizer! Ou será para calar?
Não sei ainda!


Know who you are (Supertramp)

Know who you are
There’s a world wants to know you
Know where to go...
There’s a world wants to touch you
Feel all you can...
Let your heart speak and guide you
Don’t be afraid...
Of the love deep inside you.

Bring it out for everyone
When you smile we can see the sun
Bring it out for all to hear
Because you’ve so much to give
And there’s so much to know
But if you wait for your moment
Well, it may never show.

Know who you are...
There’s a new song inside you.
Weep if you can...
Let the tears fall behind you.

Bring it out for everyone.
When you smile we can see the sun,
Sing it out for all to hear
Because you’ve so much to say
And you’ve so much to do
And everyone’s waiting.
Yes, it’s all up to you.

Know who you are...
There’s a world deep inside you
Trust me if you can...
There’s a friend there to guide you.



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Valgeir Gudjonsson, Georges Boudassian Harold Faltermeyer

Ligações
Travis, Supertramp

Textos:
José-António Moreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012