Sons da Escrita 015

25 de Junho de 2005

Terceiro programa do ciclo Uma carta para Tamina

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José-António Moreira

Uma carta para Tamina — 7 (José-António Moreira)

Inicio, agora, a viagem de regresso, Tamina! A minha escrita está, definitivamente, ligada aos combóios — escrevo atrasado, como este combóio que agora parte; escrevo aos solavancos, passo algumas pontes, muitos túneis. Estou sempre de partida, mas é como se regressasse, sempre. Nisto, pelo menos, sou constante. Estou atrasado, é um facto. Descubro isso nas pequenas pausas e descubro, sobretudo, que, sem remédio, quanto mais me apresso no quotidiano, mais se alonga este atraso transformado em cansaço.
Às vezes dou comigo parado, quieto. É nessas ocasiões que procuro nas entrelinhas dos acontecimentos a verdade perdida, aquela de que cada um esteve próximo alguma vez e que um vento súbito e incompreensível afastou para uma distância de que não se sabe a medida. A questão é que nós sabemos que a verdade está lá.
Vês, minha amiga, toda a serenidade pode ser corrompida quando se aguarda a verdade, como se estivéssemos presos a um lugar algures entre a realidade e o sonho — se queremos fugir da realidade é o sonho que se afasta de nós; se nos afastamos do sonho, não conseguimos alcançar a realidade. É nesse território que se torna difícil lembrar e impossível esquecer! Escreve-se, então, para anotar o que queremos esquecer?! — o desencontro e o desconcerto, o desencanto; regista-se o que não queremos lembrar ?! — o desrespeito e o desamor, o desespero. O que é que resta para lembrar, então, Tamina?
Tenho receio que os teus cadernos não te devolvam nada do que esperas e espero bem que possas manter essa serenidade de que, às vezes, tenho alguma inveja, confesso!
— Então, e os teus cadernos? — estarás tu a perguntar.
Pois!… Já procurei neles as entrelinhas que me levassem à verdade, mas, agora, já não me ocupo disso, já não confio neles! Mesmo querendo acreditar na minha bondade, duvido da minha imparcialidade — afinal, não foram os acontecimentos que se inscreveram ali; foi a minha mão, muitas vezes trémula, que lá os escreveu.
Confio mais na minha memória… enquanto durar.


Bored by dreams (Marianne Faithfull)

Things are never what they seem
Play a part most of the time.
What is yours cannot be mine
And I'm bored by dreams.
Bored by dreams.

I can't say the words I mean
Make myself go through the line.
Does the payment fit the crime
If I'm bored by dreams?

Take me through the steps my love,
Shall we dance again?
I was older then,
Now we are the same.
Lasse des rêves.

Rêve qui brille dans le noir
Brillera bien, tu peux le croire.
Toujours dire la vérité
Quand je suis lasse des rêves.

Take me through the steps, my love,
Shall we dance again?
Things were always brighter then,
Hear me call your name.

After a certain age
Every artist
Works with injury.

Take me through the steps my love,
Shall we dance again?
I was always older then,
Now we are the same.


José-António Moreira

Uma carta para Tamina — 8 (José-António Moreira)

Vai uma criança sentada à minha frente. É um menino… não mais de cinco anos! Ocupa-se a olhar através da janela com os olhos de quem quer reter a paisagem que se renova a cada instante. De vez em quando, olha para mim muito sério, como se me perguntasse a razão pela qual não olho, também, pela janela, em vez de estar para aqui a escrever! Só depois de passarmos um longo túnel é que sorriu para mim — imagino que tenha pensado que deve ser difícil escrever no escuro…
Agora que ele olha, outra vez, lá para fora, reparo na cicatriz no joelho direito…
É isso, Tamina! A Memória… se as cicatrizes do nosso corpo podem ser os testemunhos do que vivemos, não quero, nada mais que não seja uma imensa cicatriz instalada na minha memória, sobre tudo o que tive e sobre tudo o que mais desejei.
Começou, agora, a chover! e eu tomei uma decisão!


As tears go by (Marianne Faithfull)

It is the evening of the day,
I sit and watch the children play.
Smiling faces I can see
But not for me,
I sit and watch as tears go by.

My riches can't buy everything,
I want to hear the children sing.
All I hear is the sound
Of rain falling on the ground,
I sit and watch as tears go by.

It is the evening of the day,
I sit and watch the children play.
Doing things I used to do
They think are new,
I sit and watch as tears go by.


José-António Moreira

Uma carta para Tamina — 9 (José-António Moreira)

Como é que poderia explicar que não estranhei a tua carta, que chegou durante o tempo que estive fora? Tudo tão certo, tão certo, tão previsível e eu tão desatento.
Claro que não me satisfez a curta explicação da viagem para longe, muito longe — os amigos não dizem adeus…
Telefonei ao Hugo, vezes sem conta, mas ninguém atendia! Depois, o telefone deixou de dar sinal de chamada! Consegui falar, finalmente, com uma tal Joujou, que me confirmou que tanto tu como o Hugo tinham ido embora!
Cheguei a pensar que tivessem ido juntos, cheguei mesmo a desejar que tivesse sido assim.
Mas não!, ela explicou-me que o Hugo voltou para a Boémia e que não sabia para onde é que tu tinhas ido. Para a América, talvez, disse ela!
Olhei para o embrulho com os teus cadernos e aquela ideia de que tinha qualquer coisa para fazer começou a tomar uma forma cada vez mais nítida.
Não foi fácil, não foi nada fácil Mas, agora já está! E, sabes?, sinto uma doce calma, uma inexperimentada serenidade, tão diferente da que antecede os vendavais!

Queimei os teus cadernos! Sim! Queimei os teus cadernos e queimei os meus, também!
A sala está quente. As cinzas ainda estão no fogão de sala! Vou embrulhá-las, vou vestir a gabardina e vou lançá-las ao rio.
Nessa altura, amiga, talvez ouça a tua voz dizer, uma vez mais:
— Tu não és um insecto!


Sorry angel (Serge Gainsbourg)

Sorry angel Sorry so
Sorry angel Sorry so
C'est moi qui t'ai suicidée
Mon amour
Je n'en valais pas la peine
Tu sais
Sans moi tu as décidé
Un beau jour
Décidé qu tu t'en allais
Le compte avait commencé
A rebours
Etait-ce vertige déveine
Qui sait
Un voyage un seul aller
Au long court
D'oú l'on ne revient jamais
Moi j'aurai tout essayé
Mon amour
C'etait vraiment pas la peine
Je sais
Que c'etait foutu d'avance
Mon amour
Je n'ai ni remord ni regret
C'est moi qui t'ai suicidée
Mon amour
Moi qui t'ai ouvert les veines
Je sais
Maintenant tu es avec les anges
Pour toujours
Pour toujours et à jamais
C'est moi qui t'ai suicidée
Mon amour
Moi qui t'ai ouvert les veines
Je sais
Maintenant tu es avec les anges
Pour toujours
Pour toujours et à jamais


Estamos juntos (Cristovam Pavia)

Estamos juntos, quando a poesia nos toca
e entramos como reis no Reino do Silêncio…
Quando sentimos que tempo e risos e lágrimas e tudo
em nós madurece…

Estamo juntos, quando a noite é fria ou o calor custa a suportar,
quando a solidão é mais solidão
e vemos a palavra Amor na boca de tantos ser profanada…
Oh! Ainda que nos separem Oceanos,
estamos juntos, bem juntos, bem o sabes, numa profunda companhia!


Epilogue (William Shakespeare/Marianne Faithfull)

Our revels now are ended,
These are actors, as I foretold you,
Were all spirits, and are melted into air,
Into thin air.

And like the baseless fabric of this vision,
The cloud capp'd towers, the gorgeous palaces,
The solemn temples, the great globe itself.

Yea, all which it inherit shall dissolve,
And like this insubstantial pageant faded,
Leave not a rack behind.

We are such stuff as dreams are made of
And our little life is rounded
With a sleep.


O tempo de cada qual é o justo para si. Não é dada a ninguém a ocasião da polícia do tempo de outrem. De modo que à porta da nossa intimidade havemos de pôr a admiração por aquele que vai entrar, tanto em quanto diverge como em quanto coincide connosco. Por outras palavras: não vale mais o nosso mistério do que o de outro qualquer. Só o mistério chega inteiro ao fim.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Scopece, Jerry Goodman, Djivan Gasparyan

Ligações
Serge Gainsbourg, Marianne Faithfull e Angelo Badalamenti

Textos:
José-António Moreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012