Sons da Escrita 100

31 de Dezembro de 2006

Tanto e tão pouco para dizer

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

José-António Moreira

Tantos caminhos, tantas veredas… (José-António Moreira)

Andamos uma vida inteira à procura de um momento capital de que possamos fazer um marco, um ponto de partida. Sabemos bem o que isto significa e, por mim, não tenho pensado noutra coisa — obsessão forte, nem me apercebi de alguns pontos de que seria possível partir. Continuo a olhar os barcos e as núvens.
Desgraçadamente, temos quase tudo para esquecer e, apenas, uma ou duas coisas para lembrar.
É entre o esquecer e o lembrar que nos encontramos, nesse território da memória irremediável, causa perdida, afinal.
Ainda assim, continuarei a reivindicar, com Arrabal, a memória; afinal, recordo, mas não compreendo! Por isso me espantam as cicatrizes da memória, de uma memória convalescente, que se revela no húmido desespero dos meus olhos.
Figura fora da história, vocábulo de uma aflição não-dita, enfrento a solidão que me persegue e que sigo por entre o fantástico e a tremura do amor — um dia, outro dia, um outro dia ainda e, no final, uma vida. E tudo isto entre o que podia ter sido quase tudo e o que é já quase nada!


50 ways to leave your lover (Paul Simon)

"The problem is all inside your head", she said to me
The answer is easy if you take it logically
I'd like to help you in your struggle to be free
There must be fifty ways to leave your lover

She said it's really not my habit to intrude
Furthermore, I hope my meaning won't be lost or misconstrued
But I'll repeat myself at the risk of being crude
There must be fifty ways to leave your lover
Fifty ways to leave your lover

You just slip out the back, Jack
Make a new plan, Stan
You don't need to be coy, Roy
Just get yourself free
Hop on the bus, Gus
You don't need to discuss much
Just drop off the key, Lee
And get yourself free

She said it grieves me so to see you in such pain
I wish there was something I could do to make you smile again
I said I appreciate that and would you please explain
About the fifty ways

She said why don't we both just sleep on it tonight
And I believe in the morning you'll begin to see the light
And then she kissed me and I realized she probably was right
There must be fifty ways to leave your lover
Fifty ways to leave your lover


José-António Moreira

Aceno comprometido (José-António Moreira)

Retenho e observo, magoadamente, os que passam à margem de mim. Releio, nas páginas de tantas viagens, a crueldade de olhares-promessa que aceitei com empenho igual à tremura de um amor.
Se afirmo a paixão, é contra o jogo, contra a promessa que pretende comprometer o olhar que acaricia, para logo matar com o olhar que fere.
Entre a espada e a parede, não escolho. Entre o sim e o não, escolho a indecisão.
Aceitar entrar no jogo da moeda ao ar, na expectativa do sim ou não, é aceitar o destino, a opressão do inevitável. Então, que me resta senão discutir com Aristóteles o princípio do terceiro excluído, construir uma outra alternativa e prolongar o tempo?
Enquanto se atira a moeda ao ar, podemos entreter-nos na enumeração de todas as possibilidades.
Possibilidade primeira
caras. Sim! Tudo se resolveria de repente, podíamos recusar o passado através de um hiato que fizesse esquecer o tempo perdido.

Possibilidade segunda
coroa. Não! Ruína de toda a esperança. Como Buñuel, se amo, toda a esperança; se não, esperança nenhuma.

Possibilidade terceira
a moeda equilibra-se sobre o estreito cilindro que une cara e coroa. Sim e não! O tempo que prolongo assim é o do equilibrista. Um sopro de vento, um bater de asas é suficiente para atraiçoar tão precário equilíbrio.

Possibilidade quarta
o arremesso da moeda foi muito violento, tão forte que não posso determinar onde caíu. Procuro a moeda, mas não a consigo encontrar. Sim ou não?! Sei que aqui ou além está determinada a minha sorte, mas não saberei exactamente qual. Se calhar, foi sim (e é pena!); se calhar, foi não (e ainda bem!).

Possibilidade quinta
no momento em que a moeda vai iniciar a descida, que conduziria a uma das quatro possibilidades anteriores, um pássaro passou e apanhou-a no bico, transportando-a para o beiral onde construíu o ninho (enfim, os pássaros têm destas coisas!). E agora?!
Bom, virei aqui todos os dias para ver se a moeda, por acaso, caíu. Então, saberei a minha sorte. Mas se demorar muito tempo a moeda ganhará verdete e poderá oxidar de tal forma que não seja possível verificar qual a cara, qual a coroa, se sim, se não.

Por agora, aceno, comprometida e amigavelmente, ao pássaro no beiral.


Bird on a wire (Jennifer Warnes)

Like a bird on the wire,
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.
Like a worm on a hook,
Like a knight from some old fashioned book
I have saved all my ribbons for thee.
If I, if I have been unkind,
I hope that you can just let it go by.
If I, if I have been untrue
it's just that I thought a lover had to be some kind of liar too.

Like a baby, stillborn,
Like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me.
But I swear by this song
And by all that I have done wrong
I will make it all up to thee.

Don't cry, don't cry, don't cry no more.
It's over now, it's over babe, don't cry no more.
I say don't cry, don't cry, don't cry anymore.
It's over.
It's finished.
It's completed.
It has been paid for.

Oh like a bird on the wire,
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.


José-António Moreira

A moeda caíu (José-António Moreira)

Recuo! Viajo pelas margens da memória persistente como um apátrida, sem passaporte.
Na fronteira comunicam-me que sou ‘persona non grata’!
Compreendo! Finjo que compreendo!
A moeda caíu.

Entretenho-me a traduzir Li-Po, através de J.C. Cooper.

Agarro uma garrafa de vinho e vou bebê-la num campo de flores!
Somos sempre três… contando a minha sombra e a minha amiga lua cintilante.
Felizmente, a lua não se interessa por bebidas e a minha sombra nunca tem sede.
Quando eu canto, a lua escuta-me em silêncio; quando danço, também dança a minha sombra.

No fim de todas as festas, os convidados têm que partir, mas eu não conheço esta tristeza — quando vou para casa, a lua vai comigo e a minha sombra segue-me.


The little fete (Vangelis Papathanasious)

"I take a bottle of wine and I go drink it among the flowers.
We are allways three ... counting my shadow and my friend the shimmering moon
Happily the moon knows nothing of drinking, and my shadow is never thirsty
When I sing, the moon listens to me in silence. When I dance, my shadow dances too.
After all festivities the guests must depart. This sadness I do not know.
When I go home, the moon goes with me and my shadow follows me"


Old and wise (Camel)

As far as my eyes can see
There are shadows approaching me
And to those I left behind
I wanted you to know
You've always shared my deepest thoughts
You follow where I go

And oh when I'm old and wise
Bitter words mean little to me
Autumn winds will blow right through me
And someday in the mist of time
When they ask me if I knew you
I'd smile and say you were a friend of mine
And the sadness would be lifted from my eyes
Oh when I'm old and wise

As far as my eyes can see
There are shadows surrounding me
And to those I leave behind
I want you all to know
You've always shared my darkest hours
I'll miss you when I go

And oh when I'm old and wise
Heavy words that tossed and blew me
Like autumn winds will blow right through me
And someday in the mist of time
When they ask you if you knew me
Remember that you were a friend of mine
As the final curtain falls before my eyes
Oh when I'm old and wise

As far as my eyes can see


A despedida deve ser breve.
Do tempo apressado que por nós passa, pouco resta para o adeus, nada fica para a saudade.
Assim, se me permitido for pedir alguma coisa, peço o esquecimento — a melhor forma de ser lembrado, sinal que os erros cometidos estão perdoados e que não serei utilizado como exemplo!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Djivan Gasparyan, Lito Vitale, Dan Gibson

Ligações – Paul Simon, Jennifer Warnes, Vangelis Papathanasious, Camel

Textos:
José-António Moreira

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012