Sons da Escrita 355

13 de Agosto de 2011

Segundo programa do ciclo José Carlos Soares

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Carlos Soares

À porta batem cães

À porta batem cães, fantasmas
segredos no mais forte
dos olhos. Vê

por onde deixo
o meu destino, como se rasga
a pele e a impossível
perfeição regressa. Quem da alma

espalha seus insectos, no azul
silente desampara
a desvendada sombra. Quem

por minha perda
permanece, resume a litoral
magia dos sentidos.


The dogs of war (Pink Floyd)

Dogs of war and men of hate
With no cause, we don't discriminate
Discovery is to be disowned
Our currency is flesh and bone
Hell opened up and put on sale
Gather 'round and haggle
For hard cash, we will lie and deceive
Even our masters don't know the webs we weave

One world, it's a battleground
One world, and we will smash it down
One world ... One world

Invisible transfers, long distance calls,
Hollow laughter in marble halls
Steps have been taken, a silent uproar
Has unleashed the dogs of war
You can't stop what has begun
Signed, sealed, they deliver oblivion
We all have a dark side, to say the least
And dealing in death is the nature of the beast

One world, it's a battleground
One world, and we will smash it down
One world ... One world

The dogs of war don't negotiate
The dogs of war won't capitulate,
They will take and you will give,
And you must die so that they may live
You can knock at any door,
But wherever you go, you know they've been there before
Well winners can lose and things can get strained
But whatever you change, you know the dogs remain.

One world, it's a battleground
One world, and we will smash it down
One world ... One world
One world ... One world


José Carlos Soares

É uma arte

É uma arte
estranha, resplandece apenas
quando vai. Submete

o corpo a trinados
rentes, adormece
a dúvida de quem mordendo

sonha. Move-se
no mato, agride as aparências
com seu cuspo de anjo.


Lâmpada nenhuma

Lâmpada nenhuma
revela a face
do pequeno príncipe
enforcado. Nem o cavalo

interior estima
aquele que da alma
apenas aproveita
escuridão. Parte-se do fim

para uma breve
prece. Guarda-se
o dardo. Escolha deus
o resto.


God (Jack’s Mannequin)

God is a concept
By which we measure
Our pain
I'll say it again
God is a concept
By which we measure
Our pain 

I don't believe in magic
I don't believe in I-ching
I don't believe in Bible
I don't believe in tarot
I don't believe in Hitler
I don't believe in Jesus
I don't believe in Kennedy
I don't believe in Buddha
I don't believe in Mantra
I don't believe in Gita
I don't believe in Yoga
I don't believe in kings
I don't believe in Elvis
I don't believe in Zimmerman
I don't believe in Beatles
I just believe in me
Yoko and me
And that's reality 

The dream is over
What can I say?
The dream is over
Yesterday
I was the Dreamweaver
But now I'm reborn
I was the Walrus
But now I'm John
And so dear friends
You'll just have to carry on
The dream is over


José Carlos Soares

A tarde é como um prego

A tarde é como um prego
espetado no joelho e eu
alheio

à tua aparição. Descalça
saltas
para a brincadeira, um gato
um primo, a tua morte
à beira.


Anoitece

Anoitece
e sob o céu a tua casa

espera por ruínas. Se morrer
a fina areia
vem tomar a cor
do leito e um verbo

apodrece a jeito
de te ler.


Não venhas devagar

Não venhas devagar
com tanta pressa. Deixa
que derrame a fome
nos quintais e a maldição

suspeite do suave
aroma do delírio. Envia
o que te sobra
ou rouba

o mais pequeno passo
por um fio.


Não te aproximes tanto

Não te aproximes tanto
de uma alma em cinzas. Apenas
arde

ou dá-me
do sol estrelas, escuros
fragmentos da mansidão. So tired

of dying
digo, baixinho, amo-te. Digo-o
pela tua boca.


Hoje não me apetece

Hoje não me apetece
nadar, escrever versos, tirar

partido de uma cama
boa. Vou citar Camões
e mais dois sonhos, ver

um pouco o pouco
que levanta a morte. Sem laços
de semântica, apenas pedaços
da tua alma quântica.


Closer to your heart (Clannad)

It's the same old story
When someone astounds you
The harder they come
Yes the harder they fall
Takin' it easy
No matter what people say
And time will heal all your troubles away

I've got a notion
I might as well be closer to your heart
It's out in the open
I might as well be closer to your heart

Tossing and turning
And burning dreams across the night
(forever searching)
Silently waiting for such a long time
But will I know tomorrow
If you will be mine?

So it's the same old story
When someone astounds you
That the harder they come
Yes the harder they fall
Like takin' it easy
No matter what people say
And time will heal all your troubles away


Nada nada nada

Nada nada nada
na noite nas estrelas
nada

e o vidente
que não é Deus
nem a Palavra

movendo-se no mato, arrastando
o hálito consentido
dos vocábulos. Eis

que me toma o verso a solidão:
nem já no bolso resta
a própria mão.


Era um dia

Era um dia
de pequenas mortes
silenciosas. Uma borboleta

beijava devagar as asas pretas
da antecipação. No pequeno pátio

o coveiro arrefecia.


Estavam junto

Estavam junto
dor e homem, a conversa
embrulhada na manhã. Um pequeno riso

escapava aos rigores da evidência
e na pedra o sol errava
o bicho friíssimo

que passava.


Chorava

Chorava sobre
a luz perdida. Náufrago

andava pelas ruas, a névoa
absorvendo
a própria pele. Tão longo

dia de tão curta
vida, tão leve
a mão

na despedida.


Crying (Don McLean)

I was all right for a while
I could smile for a while
But when I saw you last night
You held my hand so tight
When you stopped to say hello
And though you wished me well
You couldn't tell
That I'd been crying over you, crying over you
Then you said so long
and left me standing all alone
Alone and crying, crying, crying, crying
It's hard to understand
That the touch of your hand
Can start me crying 

I thought that I was over you
But it's true, so true
I love you even more than I did before
But darling, what can I do?
You don't love me
And I'll always be crying over you, crying over you
Yes, now you're gone
And from this moment on
I'll be crying, crying, crying, crying
I'm crying, crying over you


Demora-te
nos livros. Compreende

como asfixia o corpo
a interrogação
e se desfaz

a pedra, como guarda
a língua seus arames.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Air, Nancy Rumbel

Ligações
Pink Floyd, Jack’s Mannequin, Clannad, Don McLean

Textos:
José Carlos Soares

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012