Sons da Escrita 101

23 de Fevereiro de 2007

Primeiro programa do ciclo José Gomes Ferreira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Gomes Ferreira

Idílio de recomeço (José Gomes Ferreira)

Não, não deixes apagar o destino
que ajudaste a acender
nos nossos corações
atravessados pelo mesmo rio.

Dá-lhe o sopro do sonho,
a lenha dos dedos,
o pólen dos lábios,
as abelhas devoradas pelo mel.

Dá-lhe as chamas que fazem ninho por dentro dos frutos,
a cal das unhas cândidas que despem os mortos,
os seios suados da treva,
os dentes de rasgar árvores.

Dá-lhe o mundo oco de caveira,
os tambores da fome,
as carícias de seda inquieta,
o frio arrancado dos punhais,
a morte — jeito de mais luz.

Dá-lhe o terror, o corpo de veneno à cabeceira,
o hálito dos abismos,
os túmulos arranhados, as mãos de vidro na testa,
os lábios que sabem ao suicídio dos anjos.

Dá-lhe tudo, tudo, tudo…

… à bela fogueira do destino
onde te lançaste viva
e eu continuo a arder em labaredas de cinzas. 


Burning bridges (Garth Brooks) 

Yesterday she thanked me
For oilin' that front door
This morning when she wakes
She won't be thankful anymore
She'll never know how much I cared
Just that I couldn't stay
And I'll never know the reason
Why I always run away. 

Burning bridges one by one
What I'm doin' can't be undone
And I'm always hoping someday
I'm gonna stop this runnin' around
But every time the chance comes up
Another bridge goes down. 

Last night we talked of old times
Families and home towns
Whe wondered if we'd both agree
On where we'd settle down
And I told her that we'd cross that bridge
Whenever it arrived
Now through the flames I see her
Standin' on the other side 

Like ashes on the water
I drift away in sorrow
Knowing that the day
My lesson's finally learned
I'll be standing at a river
Staring out across tomorrow
And the bridge I need to get there
Will be a bridge that I have burned.


José Gomes Ferreira

Chove (José Gomes Ferreira)

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


Rainy day (America)

Whenever it's a rainy day
I pack my troubles up in my room
I chase all the clouds away
I get myself back to the womb 

But I know that you're gonna cry
Tears are runnin' from your eyes
The piece of my life you take
Is one that so often breaks 

Whenever you are miles away
I think of you the way you are
Your shining lips, your auburn hair
And then it don't seem quite so far 

Well I know that you're gonna cry
Tears are runnin' from your eyes
The piece of my life you take
Is one that so often breaks 

Well I know that you're gonna cry
Tears are runnin' from your eyes
The piece of my life you take
Is one that so often breaks


José Gomes Ferreira

A minha solidão não é uma invenção (José Gomes Ferreira)

A minha solidão não é uma invenção para enfeitar noites estreladas...

...Mas este querer arrancar a própria sombra do chão e ir com ela pelas ruas de mãos dadas.

...Mas este sufocar entre coisas mortas e pedras de frio
onde nem sequer há portas para o Calafrio.

...Mas este rir-me de repente no poço das noites amarelas...
— única chama consciente com boca nas estrelas.

...Mas este eterno Só-Um (mesmo quando me queima a pele o teu suor)
—  sem carne em comum com o mundo em redor.

...Mas este haver entre mim e a vida sempre uma sombra que me impede
de gozar na boca ressequida o sabor da própria sede.

...Mas este sonho indeciso de querer salvar o mundo
—  e descobrir afinal que não piso o mesmo chão do pobre e do vagabundo.

...Mas este saber que tudo me repele no vento vestido de areia...
E até, quando a toco, a própria pele me parece alheia.

Não. A minha solidão não é uma invenção para enfeitar o céu estrelado...

...mas este deitar-me de súbito a chorar no chão
e agarrar a terra para sentir um Corpo Vivo a meu lado.


No more lonely nights (Paul McCartney)

I Can Wait Another Day Until I Call You
You've Only Got My Heart On A String And Everything A Flutter
But Another Lonely Night (And Another, And Another)
Might Take Forever(And Another, And Another)
We've Only Got Each Other To Blame
It's All The Same To Me Love
'Cause I Know What I Feel To Be Right
No More Lonely Nights
No More Lonely Nights
You're My Guiding Light
Day Or Night I'm Always There

May I Never Miss The Thrill Of Being Near You
And If It Takes A Couple Of Years
To Turn Your Tears To Laughter
I Will Do What I Feel To Be Right

No More Lonely Nights
Never Be Another
No More Lonely Nights
You're My Guiding Light
Day Or Night I'm Always There
And I Won't Go Away Until You Tell Me So
No I'll Never Go Away

Yes I Know What I Feel To Be Right
No More Lonely Nights
Never Be Another
No More Lonely Nights
You're My Guiding Light
Day Or Night I'm Always There
And I Won't Go Away Until You Tell Me So
No I'll Never Go Away
I Won't Go Away Until You Tell Me So
No I'll Never Go Away
No more lonely nights, no no.


Para quê sofrer ou gozar?
Para quê ouvir ao luar
o canto do sapo imundo
ou a voz dos rouxinóis?
Para quê?
Se não há outro mundo
para me lembrar depois…


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Arkenstone

Ligações
Garth Brooks, America, Paul McCartney

Textos:
José Gomes Ferreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012