Sons da Escrita 102

2 de Março de 2007

Segundo programa do ciclo José Gomes Ferreira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Gomes Ferreira

Que me importa que chova e arrefeça (José Gomes Ferreira)

Que me importa que chova e arrefeça à minha passagem
se trago na cabeça a ideia e o luar
que estendo na paisagem quando a noite chegar?
(E não há luar mais belo
do que esta música de concebê-lo.)

E a morte? Que me importa a morte, a morte funda de morrer
— abismo de silêncio apenas sem uma estrela que vele ou uma águia a sacudir as penas
— se sinto na pele a aquecer-me do frio este vento norte da podridão
de parecer eterno, para aqui a viver em vão num mundo vazio em que nem sequer há morte?

E o amor? Que me importa o amor, o ódio, a noite, o atropelo dos rumos
e os punhais de sangue cravados no chão, na lua e no poente das rosas sem jardim
— se trago no coração esta imaginação de amar toda a gente (menos a mim)?

Não! Não me digam que os meus olhos não ajudam a arder estrelas, só de vê-las!

Nem uma lágrima nos olhos nem um bater de coração.

Só este silêncio que nos impele para o abismo de solidão que temos na pele.


Still rain (Chris Cornell) 

And so we start another day together
You and I and a million miles between us
I train my moods to bloom like flowers unfolding
Instead of fluttering around
And slowly drowning in the
Steel rain, it's taking over

The sky is open and the drones are pouring out
The day inhales in a contagious yawn
And there you smile as though the sun
Were bouncing in the
Steel rain, it's taking over

Here in our little world, the tiny world spins for me
All's well in the titled world, but there's something
Falling down in the
Steel rain, it's taking over


José Gomes Ferreira

Vai-te, poesia (José Gomes Ferreira)

Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!


Crying (Don McLean)

I was all right for a while
I could smile for a while
But when I saw you last night
You held my hand so tight
When you stopped to say hello
And though you wished me well
You couldn't tell
That I'd been crying over you, crying over you
Then you said so long
and left me standing all alone
Alone and crying, crying, crying, crying
It's hard to understand
That the touch of your hand
Can start me crying 

I thought that I was over you
But it's true, so true
I love you even more than I did before
But darling, what can I do?
You don't love me
And I'll always be crying over you, crying over you
Yes, now you're gone
And from this moment on
I'll be crying, crying, crying, crying
I'm crying, crying over you


José Gomes Ferreira

O amor que sinto (José Gomes Ferreira)

O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.



So much in love (Art Garfunkel)

As we stroll along together
Holding hands, walking all alone
So in love are we two
That we don't know what to do
So in love
In a world of our own

As we stroll by the sea together
Under stars twinkling high above
So in love are we two
No one else but me and you
So in love
So much in love
So in love
So much in love

We stroll along together
I tell you I need you oh so much
I love, love you my darling
Can you tell it in my touch

When we walk down the aisle together
We will vow to be together 'til we die
So much love have we two
Just can't wait to say "I do"
So in love
Are you and I
So in love
Are you and I


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andy Summers

Ligações
Chris Cornell, Don McLean, Art Garfunkel

Textos:
José Gomes Ferreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012