Sons da Escrita 139

2 de Novembro de 2007

Segundo programa do ciclo José Luís Peixoto

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Luís Peixoto

Fingir que está tudo bem (José Luís Peixoto)

Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas;
Fingir que está tudo bem!
olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite.
As pessoas não imaginam. São tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis…
As pessoas falam e não imaginam… nós olhamo-nos.
Fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir
Será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer?
Olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte
Fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.


Join me in death (H.I.M.) 

We are so young.
Our lives have just begun,
But already we are considering,
Escape from this world.

And we've waited for so long,
For this moment to come.
Were so anxious to be together,
Together in Death.

Won't you Die tonight for Love?
Baby, join me in Death.
Won't you Die?
Baby, join me in Death.
Won't you Die tonight for Love?
Baby, join me in Death.

This world is a Cruel place,
And we're here only to lose.
So before life tears us apart let,
Death bless me with you.

This life it ain't worth living.
Join me
This life ain't worth living.

Won't you Die tonight for Love?
Baby, join me in Death.
So will you die?
Baby, join me in Death
Won't you Die tonight for Love?
Baby, join me in Death.

Baby, join me in Death.


José Luís Peixoto

Hoje o tempo não me enganou (José Luís Peixoto)

Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar.
Há-de ser um instante em que não se veja um pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos. Chegará.


Same mistakes (Unbelievable Truth)

A source of anger.
A source of need.
A kind of raging.
Sudden I cant see.
He walks on past me.
I follow close and let
the fear inside him flow.
A sense of reason,
a sense of aim created this.
Created the pain.
Put down his payment
to run away,
the truth and honor combine to make
The same mistakes.
I make the same mistakes again.
Leave it on the table.
Leave it up to him.
Leave it on the table.
Leave it up to him.
A sense of reason,
a sense of aim created this.
Created the pain.
Put down his payment
to run away.
Truth and honor combine to make
the same mistakes again.
You make the same mistakes again.
You make the same mistakes again.

José Luís Peixoto

Pai! A tarde dissolve-se sobre a terra (José Luís Peixoto)

Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.


The writing on my father's hand (Dead Can Dance)

(instrumental)


Tem de se ser verdadeiro na escrita, porque os leitores sentem. A mentira é impossível na boa literatura. E o que procuro, mais do que a beleza ou qualquer outra coisa, é a verdade, livro após livro, tentando desvendar um pouco mais de mim e esperando que essa possa ser uma forma de desvendar alguma coisa dos outros e que eles também se vejam reflectidos nessa procura que faço.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Paddy McAloon, Davy Spillane, Ryuchi Sakamoto

Ligações
H.I.M., Unbelievable Truth, Dead Can Dance

Textos:
José Luís Peixoto

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012