Sons da Escrita 140

9 de Novembro de 2007

Terceiro programa do ciclo José Luís Peixoto

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Luís Peixoto

O voto secreto (José Luís Peixoto)

Acordou cedo e ligeiramente indisposto. Não se lembrava com nitidez dos sonhos que tinha tido, mas sabia que tinha passado a noite a ter sonhos maus. Sentia ainda o peso negro dessa noite a apertar-lhe o peito. Em cuecas e camisola de alças, agarrou as costas de uma cadeira com as duas mãos e, em silêncio, pousou-a em frente à janela do quarto. Sentou-se e ficou durante minutos a pensar, a sentir e a analisar esse desconforto vago. Lentamente, despertava e encontrava as diferenças entre a manhã real e aquilo que apenas sentia. Lentamente, a neblina de incómodo que aquela noite lhe tinha deixado dissipava-se na luz que entrava pela janela. Levantou-se num impulso. Entrou na casa de banho. Despiu a camisola de alças, deixou que as cuecas lhe deslizassem pelas pernas e olhou-se no espelho. O cabelo moldado pela almofada, a pele vincada pelos lençóis e o corpo magro, desajeitado, ridículo. Entrou desencantado na banheira. Levantou a cara na direcção do chuveiro e ficou a sentir a água morna que lhe escorria por toda a superfície da pele.

Enrolado na toalha, entrou de novo no quarto. Viu o telemóvel em cima da cómoda e decidiu não o ligar ainda. Desligado, era inofensivo. Tinha escolhido na véspera a roupa que iria usar. Estava pousada sobre o cadeirão da escrivaninha. Engomada e perfumada. Depois de acertar o nó da gravata, desceu as escadas e encontrou o pequeno almoço pronto sobre a mesa da sala de jantar. Pousou o guardanapo sobre o colo e disse as primeiras palavras do dia à empregada que entrava e saía com tabuleiros de biscoitos, sumo de laranja e leite morno. Fingiu que comia, mas estava enjoado. Não tinha apetite. Limpou a boca com o guardanapo e levantou-se. Procurou o motorista por várias divisões e encontrou-o muito direito, com o boné apertado entre o braço e o peito no corredor, junto à porta da rua. Fez-lhe sinal e saíram juntos. O ar fresco da manhã. Os sons calmos da cidade numa manhã de domingo. Foi já no carro que ligou o telemóvel. Ainda o segurava na palma da mão quando começou a tocar. Não atendeu. Ao longo do caminho, passava por cartazes com a sua cara. Naquela manhã, pareciam sozinhos e tristes. Faltavam alguns metros para chegar à escola secundária onde, havia tantos anos, tinha sido aluno. Os fotógrafos e os jornalistas rodearam o carro. Quando saiu, usou o sorriso que era um movimento automático dos músculos do rosto. Conhecia bem esse sorriso. O som dos disparos das máquinas fotográficas. Muitas vozes ao mesmo tempo. Acenou com o braço como se esse fosse um gesto que o protegia. Entrou pelos corredores da escola a falar com toda a gente e a sorrir. Sempre a sorrir, mostrou o cartão de eleitor e recebeu o boletim de voto. Entrou para a cabine e o mundo parou. Encontrou a caneta no bolso. Olhou para o papel. As palavras, os símbolos. Olhou para o nome do seu partido como se olhasse para o seu próprio nome e, devagar, fez uma cruz noutro quadradinho. Saiu a sorrir e, com o braço parado sobre a urna de voto, a segurar o papel dobrado, ficou suspenso durante um momento longo, a sorrir para as fotografias que o cobriam.


One (hu)man, one vote (Johnny Clegg & Savuka) 

Bayeza abafana bancane wema
Bayeza abafana bancane wema
Baphethe iqwasha, baphethe ibazooka
Bathi "Sangena savuma thina,
Lapha abazange bengena abazali bethu
Nabadala, bayasikhalela thina ngoba asina voti."
(The young boys are coming,
the young boys are coming.
They carry homemade weapons and a bazooka.
They say "We have agreed to enter a place
that has never been entered before
by our parents or our ancestors
and they cry for us, for we do not have the right to vote.)
Hayiyaah!
The west is sleeping in a fragile freedom
Forgotten is the price that was paid
Ten thousand years of marching through a veil of tears
To break a few links in these chains
These things come to us by way of much pain
Don't let us slip back into the dark
On a visible but distant shore -- a new image of man
The shape of his own future, now in his own hands -- he says:
Chorus:
One 'man, one vote -- step into the future
One 'man, one vote -- in a unitary state
One 'man, one vote -- tell them when you see them
One 'man, one vote -- it's the only way
Bayeza abafana abancane
(The young boys are coming)
Hayiyaah!
In the east a giant is awakening
And in the south we feel the rising tide
The soul inside the spark that gives breath to your life
Can no longer be made to hide
These things come to us by way of much pain
Don't let us slip back into the dark
On a visible but distant shore -- a new image of man
The shape of his own future, now in his own hands -- he says:
Chorus


José Luís Peixoto

O tempo, subitamente solto (José Luís Peixoto)

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


Time (Pink Floyd)

Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun

And you run and you run to catch up with the sun, but it's sinking
Racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time has gone, the song is over, thought I'd something more to say

Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It’s good to warm my bones beside the fire
Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spells.

José Luís Peixoto

Não te pergunto de onde chegas (José Luís Peixoto)

não te pergunto de onde chegas?,
porque sei para onde vais.
hoje é a hora exacta em que até o vento
até os pássaros desistem.
e a noite a teus pés é um instante
e um destino.

não te pergunto onde está o teu rosto,
tantas vezes ocluso e pisado sobre os ramos,
onde está o teu rosto?
nem te peço que incendeies o teu nome
numa nuvem nocturna,
nem te procuro.

és tu que me encontras.
ficas no rio que passa,
nada de um tempo que não existe,
nem correntes, nem pedra, nem musgo,
nem silêncio.


Question (Moody Blues)

Why do we never get an answer / When we're knocking at the door?
With a thousand million questions / About hate and death and war.

It's where we stop and look around us / There is nothing that we need.
In a world of persecution / That is burning in it's greed.

Why do we never get an answer / When we're knocking at the door?
Because the truth is hard to swallow / That's what the wall of love is for.

It's not the way that you say it / When you do those things to me.
It's more the way that you mean it / When you tell me what will be.

And when you stop and think about it / You won't believe it's true.
That all the love you've been giving / Has all been meant for you.

I'm looking for someone to change my life. / I'm looking for a miracle in my life.
And if you could see what it's done to me / To lose the the love I knew
Could safely lead me through.

Between the silence of the mountains / And the crashing of the sea
There lies a land I once lived in / And she's waiting there for me.

But in the grey of the morning / My mind becomes confused
Between the dead and the sleeping / And the road that I must choose.

I'm looking for someone to change my life. / I'm looking for a miracle in my life.
And if you could see what it's done to me / To lose the the love I knew
Could safely lead me to / The land that I once knew.
To learn as we grow old / The secrets of our souls.

It's not the way that you say it / When you do those things to me.
It's more the way you really mean it / When you tell me what will be.

Why do we never get an answer / When we're knocking at the door?
With a thousand million questions / About hate and death and war.

It's where we stop and look around us / There is nothing that we need.
In a world of persecution / That is burning in it's greed.

Why do we never get an answer / When we're knocking at the door?


Penso que o amor é muito difícil. Existem muitos obstáculos a que possa ser o absoluto que é. A palavra amor é uma palavra muito gasta, muito usada, e muitas vezes mal usada, e eu quando falo de amor faço-o no sentido absoluto... há uma série de outros sentimentos aos quais também se chama amor e que não o são. No amor é preciso que duas pessoas sejam uma e isso não é fácil de encontrar. E, uma vez encontrado, não é fácil de fazer permanecer.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Lanz & Paul Speer, Oysten Sevåg & Lakki Patey

Ligações
Johnny Clegg & Savuka, Pink Floyd, Moody Blues

Textos:
José Luís Peixoto

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012