Sons da Escrita 341

7 de Maio de 2011

Segundo programa do ciclo José Manuel

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Manuel

Routines of a scavenger

se me reflectires o desejo do passado e do futuro que nunca esqueço tu és o que nunca foste nem serás num presente imundo de barro e água meu amor minha amora silvestre encantada em bagos baguinhos de ácido e cor

trejeitos dos lábios quando estalas a língua no palato e sentes viva ainda a larva de inúteis sons palavras a sair da tua cabeça pesada leve leve pesada quando se repetem qual martelo martelando um prego de 20 centímetros em madeira velha amarga

quão triste o presente esse imaginado mundo em que almejamos mas não alcançamos empurramos a dor para a frente sem que se separe de nós corpos almas espíritos convencidos de qualquer desgraça e graça rimos ao espelho em convenção de saliva acumulada e branca às vezes amarela qual transparecer de raiva ineficaz mordemo-nos a nós mesmos para sacrificar o mundo de micróbios que transportamos por essas ruas e transportes públicos somos em nós doença e salvação públicas

[...]

quando dançares lembra-te dos pés dos levantares dos trazeres até mim depois vamos deitarmo-nos num abraço de paixão


Hold me, thrill me, kiss me, kill me (U2)

You don't know how you took it
You just know what you got
Oh lawdy, you been stealing from the thieves
And you got caught
In the headlights of a stretch car,
You're a star.

Dressing like your sister
Living like a tart
If they don't know what you're doin'
Babe it must be art,
You're a headache, in a suitcase
You're a star.

Oh, no, don't be shy
You don't have to go blind,
Hold me
Thrill me
Kiss me
Kill me.

You don't know how you got here
You just know you want out
Believing in yourself almost as much as you doubt,
You're a big smash
You wear it like a rash
Star.

Oh no, don't be shy
You need a crowd to cry,
Hold me
Thrill me
Kiss me
Kill me.

They want you to be Jesus
They'll got down on one knee
But they'll want their money back
If you're alive at thirty-three,
And you're turning tricks
With your crucifix.
You're a star, oh child

Of course you're not shy
You don't have to deny love,
Hold me
Thrill me
Kiss me
Kill me.


José Manuel

Thoughts for a scavenger

não me explicas a existência? o sentir das almas num repositório animado pelos olhos e lágrimas dos vivos? a existência que deixaste para trás ou lá para frente, se a morte for tão só um retroceder ao ponto de partida.

não me dizes do ar que se respira, húmido e fresco, por entre o verde e o azul e as pedras velhas, sobreviventes da história e à história que tantos contam? já mortos tantas vezes, com gemidos insistentes nas dobradiças de portas de madeira centenária.

passa por essa estrada. agora. neste momento como se fosse o nunca. e este é o nunca nos conhecermos e, afinal, é uma mentira toda esta coisa que se escreve e confunde com o sangue que corre nos corpos animais.

[...]

se dançares fecha os olhos, esse crisântemo é a imagem do coração adormecendo.


I’m only sleeping (Beatles)

When I wake up early in the morning

Lift my head, I'm still yawning
When I'm in the middle of a dream
Stay in bed, float up stream (float up stream)

Please, don't wake me, no, don't shake me
Leave me where I am - I'm only sleeping

Everybody seems to think I'm lazy
I don't mind, I think they're crazy
Running everywhere at such a speed
Till they find there's no need (there's no need)

Please, don't spoil my day, I'm miles away
And after all I'm only sleeping

Keeping an eye on the world going by my window
Taking my time

Lying there and staring at the ceiling
Waiting for a sleepy feeling...

Please, don't spoil my day, I'm miles away
And after all I'm only sleeping

Keeping an eye on the world going by my window
Taking my time

When I wake up early in the morning
Lift my head, I'm still yawning
When I'm in the middle of a dream
Stay in bed, float up stream (float up stream)

Please, don't wake me, no, don't shake me
Leave me where I am - I'm only sleeping


José Manuel

Scavenger’s hunger

um passo entre a luz e a sombra prefiro a sombra porque intui a luz e ainda assim se mantém escura um passo entre a luz e a sombra onde o corpo fecunda polinizando ou é fecundado por pólen

o corpo esquece-se em qualquer lado como uma pedra igual a outra excepto se for uma pedra azul se for uma pedra azul vai para o bolso ou para um recanto protegido do caminho ponho-a lá de propósito sim posso fazer dela uma sopa azul enquanto imagino a sombra no corpo ou a cópula orgânica da sombra com a luz

sei que assim a luz ganha mais poder mas tantas vezes precisamos saber o que os olhos falam choram gritam esmiúçam ao pormenor a dor que lhes vai por dentro

não não me esqueci da pedra azul só não tenho nada a dizer sobre a pedra azul posso adiantar talvez que o que interessa não é precisamente o azul mas sim a cor qualquer cor que se distinga da generalidade cinzenta das pedras com que as nossas plantas dos pés interagem pisando tropeçando

no corpo regista-se o tempo com rugas portanto na pele o cheiro na memória que sim que é menos digna de registo porque se pode apagar involuntariamente num clique horrível eu lembro-me que me lembrava mas agora já não

[...]

dançaste então! com os mortos em redor.


I’d rather dance with you (Kings of Convenience)

I'd rather dance with you than talk with you
So why don't we just move into the other room
There's space for us to shake, and hey, I like this tune 

Even if I could hear what you said
I doubt my reply would be interesting for you to hear
Because I haven't read a single book all year
And the only film I saw, I didn't like it at all 

I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you 

The music's too loud and the noise from the crowd
Increases the chance of misinterpretation
So let your hips do the talking
I'll make you laugh by acting like the guy who sings
And you'll make me smile by really getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing... 

(Getting to the swing...)
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance with you
I'd rather dance with you
I'd rather dance with you


o mais doce dos recados vem do céu a caminho do inferno.
quantos silêncios entre as vozes que se apaixonarão no fim da estação? o inferno.
os diálogos confundem-se com palavras soltas de harmonia e êxtase. o céu.
compreendo.
tento.
e o vento?
quando chegar aí saberás.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
U2, Beatles, Kings of Convenience

Textos:
José Manuel

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012