Sons da Escrita 342

14 de Maio de 2011

Terceiro programa do ciclo José Manuel

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

José Manuel

Para uma carta

aqui nesta praia do norte sinto os pelos eriçados e a pele seca como papel caro amigo quando voltares traz abafos e o teu calor teremos que nos encontrar nas horas da noite tu e eu iremos juntos caminhar pelos serros que aqui se acabam qual moleiro e seu companheiro pelas aldeias recolhendo grãos de vida traz abafos e o teu calor que estas gentes se perderam há muito tempo quando lhes disseram que a vida era deles e acreditaram que a vida era deles como se nós fossemos uns estranhos ao coração dos bichos e os bichos deixassem de ter coração e nós morrêssemos definhados nesta praia do norte amigo o frio é intenso traz lã e amor


Letters from the Wasteland (Wallflowers)

Now coming down
Out of this swan dive to your arms
But I make no sounds
When I move through your reservoir
But I wake up quick
And I wake up sick
As you abandon me
Into these fields of rank and file
Through this cloud I hear you breathing
Through these bars I watch them bring more in

Now I send back letters from the wasteland home
Where I slow dance to this romance on my own
It may be two to tango, but boy it's one to let go
It's just one to let go

Now boy keep still
Now don't spread yourself around
Get back in line
Eat your bread
And just work the plough

'Cause you're not through
They're not done with with you
Did you think you were
The only one that's been let down
So sleep tight little boys of the new damned
Another drop in the tidal wave of quicksand

Now I send back letters from the wasteland home
Where I slow dance to this romance on my own
May take two to tango, but boy it's one to let go

Now another bad idea gets through
Down the assembly line to you
You're every bridge I should have burned
Every lesson I've unlearned
In this smoke-filled waiting room
With incarcerated lovesick fools
I will wait for you to cut me loose
But until then

I send back letters from the wasteland home
Where I slow dance to this romance on my own
Now I send back letters from the wasteland home
From where I slow dance to this romance on my own


José Manuel

Visões

sentado no meio do bulício citadino deparei-me como de costume com imagens aldeãs o macho puxando a carroça a caminho do poisio a porca encaminhada por uma vara de marmeleiro a caminho da cobrição as galinhas picando o chão no meio do caminho na cidade estas imagens têm paralelos intensos de realidades tangíveis a olho nu quando vemos o progenitor empurrando o carrinho de bebé com uma ou duas crianças a caminho do poisio da vida a mulher nos vintes com um vestido de algodão curto que lhe acompanha o corpo na alegria e na procura do desejo e os outros muitos deambulando pelas ruas vasculhando o lixo das esquinas e dos contentores sentado no meio do bulício citadino vejo-me pequeno como um pardal de telhado


Visions (Eagles)

Visions, that you stir in my soul
Visions, that will never grow old
Sweet baby, I had some visions of you
If I can't have it all, just a taste will do 

Go ahead and live all your fantasies
(Don't you ever think about the other side?)
Helps you get from where you are
To where you want to be
(You and me oughta be taking a ride)
You do the best you can
And you make your mistakes
(If you don't like it, you can say that you tried)
'Cause all I have to give is whatever it takes 

Play on, El Chingadero, play on
Play on, El Chingadero 

Dance, angel, dance 'til you wear out your blues
(Only thing that's gonna save you now)
Take another chance, you got nothing to lose
(The boy didn't love you anyhow)
Girl, you drive me wild when you do what you do
(Something makes me want to take you down)
If I can't have it all, just a taste will do
Just a taste of you


José Manuel

Apontamento

o tempo ignora. o movimento uniforme da sua passagem não obedece a uma ordem singular. o tempo não volta para trás. o tempo anda para a frente como se fosse essa a única direcção a tomar. o tempo ignora. o tempo nunca soube. aquela mulher. sim, aquela mulher, ela sabe e não esquece e vê o tempo. em ignorância. esquece-a. sentado, num mocho com as pernas cortadas, o homem vagueia o olhar pela rua e sente na sola dos pés o tempo a passar. os joelhos fracos. a insegurança de não saber se poderá caminhar da próxima vez que se levantar. o tempo ignora. se chover talvez haja esperança de um tempo mais solidário e amigo e justo. arde o tempo. na rua de baixo, às portas da praça, os cães e as cadelas arrefecem à sombra. quando passa um desconhecido fingem dormir sob o jugo do calor do alcatrão em volta. o tempo ignora. os cães e as cadelas não. sentem e relembram a cada cheiro a sua vida. as festas e os pontapés que receberam. a cada cheiro. o tempo ignora. os animais lembram. e a lembrança fá-los velhos. aos poucos, enquanto o tempo passa.


Appunti e note (Eros Ramazzotti)

Prendo appunti e note
Più o meno dolenti
Spunti di ogni genere
Dipende dai momenti
Briciole di vita che raccolgo ogni giorno
Cose che per caso mi succedono intorno.

Metto lì da parte ogni straccio d’emozione
Che finisco poi per buttare in una canzone.
Sempre questa folla di pensieri nella mente
Và rumoreggiando come pioggia battente.
Sempre questo giro di musica e parole
Che se parte bene poi arriva dritto al cuore.
Prendo appunti e note,
Io lo faccio per mestiere
E mi piace molto come puoi vedere.

Io sono sempre qua
Con questo spirito che ho
Tutto l’amore che ho dentro,
Più qualche cosa che spiegar non so.
Io sono sempre qua
Che spingo il giorno un po’ più in là,
Rubando cielo al tramonto
Ci guadagnerò un bel po’ di luce in più…in più.
Chi lo sa cos’è che continuo a cercare
Dentro certi viaggi dalla terra alla luna.

Chi lo sa perchè non mi posso mai fermare
Neanche dopo tanti atterraggi di fortuna,
Forse perché in fondo a ogni storia nuova
Manca quella frase che non ho scritto ancora.
Io sono sempre qua
Con questo spirito che ho,
Gambe che inseguono il vento
E mani pronte ad afferrarne un po’.
Io sono sempre qua
Che spingo il giorno un po’ più in là,
Rubando cielo al tramonto
Ci guadagnerò un bel po’ di luce in più.

Finchè vivo, finchè potrò,
Quel che ho io do.
Io sono sempre qua
Con questo spirito che ho,
Tutto l’amore che ho dentro,
Più qualche cosa che spiegar non so.
Io sono sempre qua
Che spingo il giorno un po’ più in là,
Rubando cielo al tramonto
E se ho fatto bene il mio conto
Ci gadagnerò un bel po’ di luce in più..in più…si.


estamos a construir um futuro silêncio marcado pela surdez dos que vivem agora o prazer do ruído e da destruição da matéria sonora. em breve, a angústia de uns será a paz dos que ainda terão a capacidade de ouvir o silêncio entremeado por recortes sonoros.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Nightnoise

Ligações
Wallflowers, Eagles, Eros Ramazzotti

Textos:
José Manuel

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012