Sons da Escrita 080

15 de Setembro de 2006

Segundo programa do ciclo José Martins Garcia

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

José Martins Garcia

O telefone e o televisor (José Martins Garcia)

O telefone é uma ousadia, talvez mesmo uma temeridade.
O telefone emite espinhos a alta velocidade.
É preciso ter cuidado com o telefone: o telefone é um abuso.

Quando o telefone comunica mensagens de além, o melhor é ligá-lo a cadeado, proferir uma fórmula fortemente mágica e proclamar bem alto a inocência.
O telefone é uma armadilha. O telefone é uma esparrela. O telefone é malvado, maligno, viscoso, adiposo, incomensuravelmente danoso. O telefone é um mito e como tal pode fornecer ectoplasma.
Desta última particularidade lhe advém uma altíssima temperatura capaz de incinerar a mão e a orelha incauta.
É preciso ter cuidado com o telefone: o telefone é um crime.

Para combater os malefícios do telefone o melhor argumento é o televisor. Se o telefone personifica o mal, o televisor personifica o bem. Na constituicão do televisor são utilizados o alecrirn, a manjerona, o manjerico, a alfazema, a rosa, o perfume, o éter, o espaço depurado, a clarividência, a clarabóia, a goiabada, a cauboiada, a marmelada, a saudade e outros ingredientes igualmente tranquilizadores.
O televisor é o maior amigo do homem. Otelevisor é a juncão da benignidade com a digestão fácil As pessoas de bem amam o televisor, as feras adormecem com a musicalidade que emana do televisor.
O televisor nunca sai sem autorização dos seus superiores e em dias solenes só se embebeda com laranjada.


T.V. Ceaser (Procol Harum) 

T.V. Ceasar Mighty Mouse
Holds his court in every house
Spied in every crack and corner
Watch you eat your TV dinner
Creeping in through eyes and ears
Finding out your secret fears
T.V. Ceasar Mighty Mouse
Shares the bed in every house

T.V. Ceasar Mighty Mouse
Gets the news in every house
Who's been doing what with who
How they do it when they do
Every saint and every sinner
Every fact and every figure
T.V. Ceasar Mighty Mouse
Fights the flab in every house

T.V. Ceasar Mighty Mouse
Shares the bed in every house

T.V. Ceasar Mighty Mouse
Tops the pops in every house
Sandwiched in between the ads
Something for the mums and dads
Great to have you on the show
Sorry that you've go to go
T.V. Ceasar Mighty Mouse
Gets the vote in every house
T.V. Ceasar Mighty Mouse
Shares the bed in every house
T.V. Ceasar Mighty Mouse
Fights the flab in every house
T.V. Ceasar Mighty Mouse
Gets the vote in every house


José Martins Garcia

O sal e o azar (José Martins Garcia)

Sal à porta sempre foi mensagem de azar! Evite-se olhá-lo, evite-se pisá-lo, evite-se aspirá-lo, evite-se sabê-lo. Passe-
-se ao lado. Espere-se uma boa chuvada da providência. Incendeie-se um círio a S. Cirilo. Esmole-se a quem for esmoler. Processione-se em passo de procissão. Ergam-se todas as posses num processo de exorcismar possessos. Talvez que assim a providência venha banhar com sua água de perdão o sal que à porta representa o pior dos malefícios.

Mas se tu, meu irmão, tiveres tido o azar de nascer banhado em sal, só te resta esperares um mundo melhor depois da morte.
Nasceste banhado no sal do azar e por isso a tua mãe te chorou, te chora, te chorará.
Para ti, predestinado, não importa que pises ou que evites, que arredes ou que engulas, que excluas ou que incluas o sal do azar. Ele é a tua condição, o teu jugo, a tua improdutividade, o teu ódio, o teu cretinismo, a tua submissão, o teu escondido ranger de dentes, a tua ridícula lágrima, o teu destino, a tua burrice, irmão. Como as linhas traçadas na palma da mão, irmão. Como o mar salgado que te procria para além do tempo, irmão-mar. Como o teu marulhar de animal sem cérebro, o teu pobre respirar no espaço que te consentem, teu focinho a rojar-se perante a luz dum fósforo que metamorfosearam maleficamente diante de teus olhos bêbedos em anúncio benéfico do paraíso, a tua única consolação.
Maleficamente, por sal e azar.

É assim o azar, condição de sal.
Quando o azar bate à porta dum parto, nasce um ser como tu.
E os sinos repicam, e os pastores de almas baptizam-te em água e sal, e as carpideiras começam a rejubilar ao pressentirem o gáudio geral dos abutres, e a estatística afia a pena para registar mais um morto no campo do dever e da honra, e o sacristão sonha colocar uma lápide na choupana da recente parturiente, e o jornalzinho da vila já espera o teu honrado nome para umas linhas carregadas de luto.
E até o mar salgado começa a cuspir na costa rolos turvos de indagação, pressuroso, ofegante, bélico...
... na sua infinita beleza, no seu infinito sal, no seu infindo mito, no seu infame despudor de redactor eficiente de mais um episódio duma marinha história trágico-ridícula.


Born under a bad sign (Cream)

Born under a bad sign.
I've been down since I began to crawl.
If it wasn't for bad luck,
I wouldn't have no luck at all.

Bad luck and trouble's my only friend.
I've been down ever since I was ten.

You know, wine and women is all I crave.
A big bad woman's gonna carry me to my grave.

Born under a bad sign.
I've been down since I began to crawl.
If it wasn't for bad luck,
I wouldn't have no luck.
If it wasn't for real bad luck,
I wouldn't have no luck at all.

Born under a bad sign.
Born under a bad sign.


José Martins Garcia

Gato eleitor (José Martins Garcia)

O gato vai votar
hoje o gato é cidadão
e lá vai ele a coxear
com a lista na mão

hoje o gato vai votar
vai votar pela justiça
vai deitar a opinião
na liça

lá vai ele a coxear
cheio de justa opinião
lá vai ele a arrastar
com a cauda pelo chão

de repente ouve ladrar
e retrocede apressado sumindo a lista no chão
e retrocede apressado pelo sim pelo não
que isto não há que fiar em assembleias de cão

mal refeito do susto vai compondo esta canção

era uma vez um gato português não dizia sim, nem não nem talvez
era uma vez um gato português, bebia cerveja, jogava xadrez
era uma vez um gato português, bebia por dois, dormia por três
era uma vez um gato português, nem soube o porquê, nem soube o que fez
era uma vez um gato português, viveu de silêncio, morreu de mudez
era uma vez um gato português, não dizia sim, nem não nem talvez


One (hu)man, one vote (Johnny Clegg & Savuka)

Bayeza abafana bancane wema
Baphethe iqwasha, baphethe ibazooka
Bathi "Sangena savuma thina,
Lapha abazange bengena abazali bethu
Nabadala, bayasikhalela thina ngoba asina voti."

(The young boys are coming,
the young boys are coming.
They carry homemade weapons and a bazooka.
They say "We have agreed to enter a place
that has never been entered before
by our parents or our ancestors
and they cry for us, for we do not have the right to vote.)

The west is sleeping in a fragile freedom
Forgotten is the price that was paid
Ten thousand years of marching through a veil of tears
To break a few links in these chains
These things come to us by way of much pain
Don't let us slip back into the dark
On a visible but distant shore -- a new image of man
The shape of his own future, now in his own hands -- he says:

One 'man, one vote -- step into the future
One 'man, one vote -- in a unitary state
One 'man, one vote -- tell them when you see them
One 'man, one vote -- it's the only way

Bayeza abafana abancane
(The young boys are coming)

In the east a giant is awakening
And in the south we feel the rising tide
The soul inside the spark that gives breath to your life
Can no longer be made to hide
These things come to us by way of much pain
Don't let us slip back into the dark
On a visible but distant shore -- a new image of man
The shape of his own future, now in his own hands -- he says:

One 'man, one vote -- step into the future


Se falo para os mortos, eles, segundo os sábios, são irrecuperáveis.
Se falo para os vivos, eles segundo os vivos, têm mais que aprender.
Talvez que aos moribundos, afinal, se dirija este fel, filho duma herança de silêncio.
Enfim os mortos. Enfim os vivos. Enfim. Em fim.
Viva o estado de coma!, a quem dedico estes mimos do idioma.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Air

Ligações
Procol Harum, Cream, Johnny Clegg & Savuka

Textos:
José Martins Garcia

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012