Sons da Escrita 271

27 de Março de 2010

Primeiro programa do ciclo José Ribeiro Marto

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Ribeiro Marto

Fui guardador de rebanhos (José Ribeiro Marto)

Fui guardador de rebanhos sem flauta, sem outeiro
com páginas colhidas nos livros a eito, em linhas altas lidas
quando descansava o rebanho e a paisagem tinha escritas
árvores ao sol, frutos ardidos, poeira de brisa, manga curta, camisa desfraldada
eu, na sombra recolhido.
Fui pastor de quase nada
no canto dos pardais às revoadas, bicando o ar de linhas
curvas
nas largadas de pombos ao fim da tarde
ou das rolas sobrelançadas, furando o céu, na declinada
água ferida de redes, esvoaçando penas picavam linhas cinzentas, mosquiteiras
sob o atarantado das borboletas vermelhas, verdes, azuis na presa dos rendilhados,
desembaraçavam-se das grilhetas fechadas a puxão de espera, magra caça.
Fui companheiro dos bichos que encontrava desirmanados em fugas desajeitadas,
do lagarto escamado a verde e azul,
da cobra serpentina preta num ápice engolida pelo feno,
da lebre fugitiva e astuta à noite sob o trilo dos grilos
ou da batuta da campainha das ovelhas.
Fui guardador do mundo do chão das ovelhas
presas por linhas que nos meus livros deixaram às vezes espaços de página em página,
onde eu me lia e guardava um mundo lido alto; de tempos a tempos
a passagem dos comboios, lentos, de horários certos, horas secretas
do calor dos dias, na convocatória das madrugadas,
de quando um rio horas a fio as alinhava,
as abria por dentro filtradas a sol alto, baixo ou à ferida dos ventos,
da capa que me protegia da água dos dias raros em que chovia.
Guardei ovelhas,
guardei as revoadas dos pombos no meu coração.
Fiz as minhas viagens directas abandonando o meu fôlego de bicicletas, ardendo por dentro dos livros, 

(onde recompunha escombros,
unindo amiúde as quebras do mundo.
Guardei ovelhas não guardei cabras,
como meu irmão já muito mais velho Miguel Hernández
que fez tantas descobertas em horas tão incertas,
numa Espanha de tempos muito antes dos meus.
Hernández morreu no cárcere sem ceder um traço na rebeldia dos versos
de puxar as palavras do avesso
de se afastar do terço
de se irmanar com as cabras que pastava em Orihuela.
Guardei ainda mais rebanhos,
guardei ainda mais ovelhas sendo outras ou as mesmas,
quando os pastores fugiam em debandada de noite
por sangrarem neles solidões
nos longes dias, nas longas horas que havia no pastorear do gado manso,
na rebeldia dos ocasos em que o sol menos aquecia,
o gado aproveitava e comia,
o tempo em que andava parado e comia.
Os pastores fugiam, como se de prisões do guardar do gado
levavam a flauta de Marília ou de Elisa
voltavam em manga branca de camisa
festejando aparecimento, fazendo promessas:
juravam a água, o sol, os frutos,
juravam afeiçoamento às crias, pertencer à família
queriam-se nos rituais do gado,
na separação, no aprisco
nos canjeirões de leite
no fazer do queijo, um fruto nascido por suas interpostas mãos, liso, aceso,
milagre do coalho ardido nas palmas árduas, nuas
juravam por fim as geadas aos espelhos,
saudavam, cumprimentavam de quem viesse a sua vaia mão apertar.
Mas fugiam às solidões dos dias,
ao fumo das neblinas das manhãs,
ou à intrépida chuva,
ao calor que a noite amealhava,
ao pastoreio úbere logo no Outono.
Corriam as estradas com assombro,
iam às casas longínquas pedir água,
ver o seio insinuado das raparigas, pedir-lhes compromisso de guerra,
dos dias curtos de que estavam à espera,
estudavam-lhes o cabelo,
viam-lhes o menear das ancas,
a escultura da perna.
bebiam água pelo púcaro, enchiam o cantil,
enquanto outros dobravam assobios também á espera de uma madrinha mulher
uma fada de dias ilesos
que presos hoje ou presos depois
se queixassem da condição escondida das mais altas solidões.
Eu fui pastor pequeno que levava recados maravilhados
e trazia água, água
a água dos Invernos ou dos Verões que eles bebiam serenos.


Count Your Blessings Instead Of Sheep (Diana Krall)

When I'm worried and I can't sleep
I count my blessing instead of sheep
And I fall asleep, counting my blessings

When my bankroll is gettin' small
I think of when I had none at all
And I fall asleep, counting my blessings

I think about a nursery
And I picture curly heads
And one by one I count them
As they slumber in their beds

If you're worried and you can't sleep
Just count your blessings instead of sheep
And you'll fall asleep counting your blessings.

So if you're worried and you can't sleep
Just count your blessings instead of sheep
And you'll fall asleep counting your blessings.


José Ribeiro Marto

Naquelas horas (José Ribeiro Marto)

Naquelas horas sem batida de relógio o coração a pulso,
eu compreendia aquele mister,
aquelas guardas de horas, como se o cavalo do tempo ficasse suspenso nos ares
e a ele viessem pousar no dorso uma chuva de borboletas.
Li-lhes as minhas letras de livros,
alguns deles ouviam comovidos com os cajados fincados no chão,
como se suspensa ficassem a página,
as surpresas, as desfeitas do formigar do amor, a incompreensão dos dias.


Magic hour (Cast)

Take a good look
In your own time
See the world laugh
Through a child's eyes

(Chorus)
Sunshine, shine until you're mine
It's just a magic hour
Just a magic hour
Such a magic hour

Now I know we can drift away now
If only we find a way out
Now I know we can drift away now
If only to find a way out, out, out

Take a good look
In your own time
See the world turn
Through your own eyes

(Repeat Chorus)

Now I know we can drift away now
If only we find a way out
Now I know we can drift away now
If only we find a way out, out, out

(Repeat Chorus)

Now I know we can drift away now
If only we find a way out
Now I know we can drift away now
If only to find a way out

Now I know we can drift away now
If only we find a way out
Now I know we can drift away now
If only we find a way out, out, out
Out, out, out


José Ribeiro Marto

Vinhas (José Ribeiro Marto)

Trazias nas mãos o essencial: a flor do lume a pedra rubra
o canto outonal na folha verde no provável fruto
o vento ligeiro zoava na brisa um véu de chuva
ainda entretinhas as palavras com a música do verão

Era outono o fruto rente à haste
colhido numa sílaba de água a dizer boca

A festa de um dia cheio do marulhar dos pinheiros
as casas dispersas no longe fugiam soltas


No One Else Comes Close (Backstreet Boys)

When we turn out the lights
The two of us alone together
Something's just not right
But girl you know that I would never
Ever let another's touch, come between the two of us

Cuz no one else will ever take your place

No one else comes close to you
No one makes me feel the way you do
You're so special girl to me
And you'll always be eternally
Every time I hold you near
You always say the words I love to hear
Girl with just a touch you can do so much
No one else comes close

And when I wake up to
The touch of your head on my shoulder
You're my dream come true, oh yeah
Girl you know I'll always treasure
Every kiss and everyday I'll love you girl in every way
And I always will, cuz in my eyes


Fui guardador de rebanhos
e interroguei as coisas simples:
a ordem dos dias suspensos,
o labor dos pássaros,
as asas das borboletas,
bebi do leite a mojo úbere
a regalo dos pastores.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dan Gibson

Ligações
Diana Krall, Cast, Backstreet Boys

Textos:
José Ribeiro Marto

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012