Sons da Escrita 272

3 de Abril de 2010

Segundo programa do ciclo José Ribeiro Marto

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

José Ribeiro Marto

Deixo que imaginem o meu país ainda só um barco (José Ribeiro Marto)

quando zumbe pela manhã o vento nas portadas,
e a rua acende um brilho de plásticos,
eu calado vejo o sol impertinente, árvores paradas,
os néons perdidos da noite, são só gráficos.

ouço um cão pendurado na janela e fico surdo,
outros lhe responderão, outros perderão seu latido aflito,
no som das gaivotas de levadas, voos de antenas.

uma cidade grande flutua, ganha ardil na rua, franqueia os olhos,
passe a pressa, desloque-se a vida prática por um soluço,
partirei com um sopro de ensinamentos e a minha música de palavras. 

estarei perdulário de silêncios.

sei que língua me exprimirá o prosaico,
o osso da conclusão, a queda a pique de um gráfico,
sei que língua me trará um verso,
uma só gota de chuva na asa de um pássaro,
que se debruça sob o ramo da tipuana rente ao vidro.

hoje, 

falarei do quotidiano sobressaltado de regras mínimas,
estarei na minha língua de janelas abertas,
andarei nas asas do primeiro pássaro da manhã,
como um barco aportarei à fala,
sou de chão e de sonho,
deixo que imaginem o meu país ainda só um barco.


Strange boat (Waterboys)

We're sailing in a strange boat
heading for a strange shore
We're sailing in a strange boat
heading for a strange shore
Carrying the strangest cargo
that was ever hauled aboard

We're sailing on a strange sea
blown by a strange wind
We're sailing on a strange sea
blown by a strange wind
Carrying the strangest crew
that ever sinned

We're riding in a strange car
we're followin' a strange star
We're climbing on the strangest ladder
that was ever there to climb

We're living in a strange time
working for a strange goal
We're living in a strange time
working for a strange goal
We're turning flesh and body
into soul


José Ribeiro Marto

O mover das horas (José Ribeiro Marto)

na minha rua os prédios altos luzem de vidraça e flores quentes,
as casas abertas, rendidas ou fechadas movem a cidade,
só as janelas cegas se abrem de bocejo aos gatos,
a vida pensada a retalho serve o tempo dedilhado por inteiro, 

as televisões ardem de notícias o mundo ao meio dia,
na solidão de esperas a espaços abreviam-se as demoras,
as mãos são botões de mudança do olho grado, oblíquo,
por inteiro se conjuga o dia em horas,

um bocejo negro lembra um retrato no brilho do televisor,
expande-se na rua é um coração pregueado,
cobra o ruído a quem passa,
eu passo com os olhos incertos
no descaso com tempo,

só o louco se dá ao rumor vago da rua,
vem aperta-me a mão com um penso cheio no pulso,
quando num dia útil quis morrer,
vendo assim o seu sangue correr como um rio perdido,
agora já sem mácula pobre e enxuto
— disse-me


Only time (Enya)

Only Time lyrics
Who can say
where the road goes
where the day flows
only time
And who can say
if your love grows
as your heart chose
only time
Who can say
why your heart sighs
as your love flies
only time
And who can say
why your heart cries
when your love lies
only time

Who can say
when the roads meet
that love might be
in your heart
And who can say
when the day sleeps
if the night keeps
all your heart

Night keeps all your heart

Who can say
if your love grows
as your heart chose
only time
And who can say
where the road goes
where the day flows
only time

Who knows - only time
Who knows - only time


José Ribeiro Marto

Eu quis dizer mundo (José Ribeiro Marto)

eu quis dizer mundo,
e uma folha de papel sujo,
trouxe-me um soluço;

o papel fugia no ar e levava,
com ele pássaros voados,
luzes foscas tremiam nas casas,
eu estava mudo
num brilho do sol refractado

eu quis dizer mundo,
as árvores caíam,
as pessoas anoiteciam, e
sós no silêncio se viam,
quando quis dizer mundo

soletrei, escrevi mundo
no mar, na terra,
nestes lugares
só vi peixes adormecer,
insectos aflitos derreter

quando as flores anoiteceram,
sob o sol que não havia,
eu disse mundo

eu queria só dizer mundo,
mas eterna cidade era suja,
o automóvel era voado;
gente cómoda,
a nódoa de pele,
o olhar minguado 

eu quis dizer mundo,
e a minha voz só podia,
dizer imundo,

sei que estou mudo,
meus os olhos no vento têm tudo


The End Of The World (Vonda Shepard)

(Written by Arthur Keat, Sylvia Dee)
Why does the sun go on shining?
Why does the sea rush to shore?
Don't they know it's the end of the world
'Cause you don't love me anymore?
Why do the birds go on singing?
Why do the stars glow above?
Don't they know it's the end of the world
It ended when I lost your love.
I wake up in the morning and I wonder
Why ev'rything's the same as it was.
I can't understand, no I can't understand
How life goes on the way it does
Why does my heart go on beating?
Why do these eyes of mine cry?
Don't they know know it's the end of the world?
It ended when you said goodbye
Don't they know know it's the end of the world?
It ended when you said goodbye.


Ouço
Num arco de fogo a manhã
Escrevo e medito :
a rosa no lume
as mãos dolentes
o mar lavrado de lonjura
grita fundo na tábua e no fumo


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Musicbank

Ligações
Waterboys, Enya, Vonda Shepard

Textos:
José Ribeiro Marto

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012