Sons da Escrita 273

10 de Abril de 2010

Terceiro programa do ciclo José Ribeiro Marto

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Ribeiro Marto

A águia derramando asas sobre a terra (José Ribeiro Marto)

1
a águia fere de voo o ar
está cativa no Inverno

a águia ferra o ar
anda ferida a planar

a águia expulsa o sol
anda voando no desterro

a águia no brilho do sol
baila suspensa 

a águia traz luto no voo
não anda perdida acena 

2
o sol é errante e esculpe esferas
traz desalinho ao voo

a águia de fuzil nos olhos
ergue-se a planar o mundo
ninguém está só

os destroços vão caindo
o mundo espera
a águia derramada sobre a terra

eu sei
não são as florescentes pombas
são bombas

chora uma criança entre o fumo
pede água
plana a águia derramando asas sobre a terra


The Eagle Will Rise Again (Alan Parsons Project)

And I could easily fall from grace
Then another would take my place
For the chance to behold your face

As the days of my life are but grains of sand
As they fall from your open hand
At the call of the wind's command

Many words are spoken when there's nothing to say
The fall upon the ears of those who don't know the way
To read between the lines, that lead between the lines, that lead me to you

All that I ask you
Is, show me how to follow you and I'll obey
Teach me how to reach you I can't find my own way
Let me see the light, let me be the light

As the sun turns slowly around the sky
Till the shadow of night is high
The eagle will learn to fly

As the days of his life are but grains of sand
As they fall from your open hand
And vanish upon the land

Many words are spoken when there's nothing to say
The fall upon the ears of those who don't know the way
To read between the lines, that lead between the lines, that lead me to you
Show me how to follow you and I'll obey
Teach me how to reach you I can't find my own way
Let me see the light, let me be the light
And so, with no warning, no last goodbye
In the dawn of the morning sky
The eagle will rise again


José Ribeiro Marto

Sem costuras a paisagem (José Ribeiro Marto)

a usura dos campos a usura daquele campo de tantos campos
um soluço de sangue na paisagem

paro escuto nas paredes brancas as hastes dos lutos dos arbustos
derramados sobre os muros
fujo e que adianta
já cantou uma avezita assanhamento
na lonjura do carro

tudo perdido e a rebater-se nos ouvidos
tudo tanto e menos quem fala aqui
estou só no lés a rés
o trilho velho do pastor da cabra só réstea de tanto sol
o cão vermelho assinalava parando a espaços um latido muito aquém dos nómadas
só sombra
um rapaz trouxe inocência na abertura do postigo da porta
mostrou uma faca nas mãos nuas desafiando dedos
e veio um grito fundo de dentro: 

brinca com a caixa azul
a faca brinda-me os calos
brinca com a caixa

respira o búzio repousa no silêncio dos dias

há o mar 

lembrava que havia o mar gritava
o grito não podia matar a surdez daquele casulo de mundo
sempre intenso cá fora na corrida do cão adiante da cabra e do velho
o velho parado a cabra andando farta de caminho
o velho de amplo assobio duas chamadas mansas tudo parado
dava voltas de pau inusitado aos arames presos no pneu
no baixio do descampado
depois seguia
seguia um trilho passado e via passado
aquém-nómada aquém-mar aquém-terra
além duas arvores rugindo no esplendor do vento
nas asas dos pardais sobressaltados de retorno e migrações de horas
retorno à noitinha vindo dormir o sono dos trigais
à criança doía-lhe a casa como esconderijo dos dias do tempo
e preso à faca e à caixa do búzio ia a um mar perto ao som longínquo
nas mãos da avó as fotografias comidas pela madeira
a postura de parede os encaixes na moldura
O povoamento do tempo
e a criança tinha os olhos comidos pelos dias feitos noites e crescia na faca uma impressão também de noite muito rente a muita morte a porta fechada e
à loucura da passagem do homem e da cabra
veio um sobressalto e abriu o postigo
sem que a avó lhe gritasse é do tempo
é da mentira do tempo tão conjunta à verdade que se vai unir ao mar
escuta o búzio e distrai-te


Beyond The Sea (Robbie Williams)

Somewhere beyond the sea,
Somewhere waiting for me,
My lover stands on golden sands
And watches the ships that go sailing.

Somewhere beyond the sea
She's there watching for me.
If I could fly like birds on high
Then straight to her arms I'd go sailing

It's far beyond the star,
It's near beyond the moon.
I know beyond a doubt
My heart will lead me there soon

We'll meet beyond the shore
We'll kiss just like before
And happy we'll be beyond the sea
And never again I'll go sailing

I know beyond a doubt
My heart will lead me there soon
We'll meet, I know, we'll meet beyond the shore
We'll kiss just like before
And happy we will be beyond the sea
And never again I'll go sailing

No more sailing
So long, sailing, sailing, no more sailing

Good-bye, farewell my friend, no more sailing

So long sailing, no more sailing

No more, farewell...

No more sailing



José Ribeiro Marto

Instantes (José Ribeiro Marto)

Que o instante seja água,
gota de sol declinada nas mãos.

Que o brilho se desfaça em nó solto
num castelo de frutos, no longe sôfrego.

Todas as árvores são a minha solidão,
O meu duelo de passeios,
A grande sombra de um céu quebrado a meio,

Eu passo pelo sonho no declive,
pelos pássaros perdidos augurando água,
todos vêm aos meus ombros pousar, são de vento,
Desfazem-se das ramadas,
colhem a finitude do tempo. 

Eu sonho muito além, onde o sangue pulsa ainda o coração do sol
E as minhas mãos de solidão defesa, estão lavadas


Remember These Moments (D'Sound)

I remember that crooked smile
I remember that glow in your eyes
I remember these moments baby with you

Kind of beauty you've fallen to
Kind of thought makes it painfully true
I remember these moments baby with you

Do you still see me reach for you
The way you used to care
Do you still think I should be baby with you

I remember the warning signs
I remember I paid them no mind
Coz I wanted these moments baby with you

When it rained thought I didn’t cry
When I left without saying goodbye
I remember these moments baby with you

Do you still see me reach for you
The way you used to care
Do you still think I should be baby with you

reach for you
missing you
secretly recalling what has been
I don’t want to remember

do you still see me reach for you
the way you used to care
Do you still think I should be baby with you


Estive voltado para um relógio
indiferente a quem vinha pela estrada 

Escrevi caminhos
por entre palavras e pássaros


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Devakant

Ligações
Alan Parsons Project, Robbie Williams, D’Sound

Textos:
José Ribeiro Marto

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012