Sons da Escrita 215

13 de Março de 2009

Segundo programa do ciclo José Saramago

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Saramago

Do como e do quando (José Saramago)

E quando não se calam os protestos
Do sangue comprimido nas artérias?
E quando sobre a mesa ficam restos,
Dentaduras postiças e misérias?

E quando os animais tremem de frio,
Olhando a sombra nova de castrados?
E quando num deserto de arrepio
Jogamos contra nós cartas e dados?

E quando nos cansamos de perguntas,
E respostas não temos, nem gritando?
E quando às esperanças aqui juntas
Não sabemos dizer como nem quando?


How? (John Lennon)

How can I go forward when I don't know which way I'm facing?
How can I go forward when I don't know which way to turn?
How can I go forward into something I'm not sure of?
Oh no, oh no 

How can I have feeling when I don't know if it's a feeling?
How can I feel something if I just don't know how to feel?
How can I have feelings when my feelings have always been denied?
Oh no, oh no 

You know life can be long
And you got to be so strong
And the world is so tough
Sometimes I feel I've had enough 

How can I give love when I don't know what it is I'm giving?
How can I give love when I just don't know how to give?
How can I give love when love is something I ain't never had?
Oh no, oh no 

You know life can be long
You've got to be so strong
And the world she is tough
Sometimes I feel I've had enough 

How can we go forward when we don't know which way we're facing?
How can we go forward when we don't know which way to turn?
How can we go forward into something we're not sure of?
Oh no, oh no


José Saramago

Ouvindo Beethoven (José Saramago)

Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem outra arte
Que a prosa de registo, o verso data.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões de fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.


Ouvindo Beethoven (Manuel Freire)

Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça em nós o juiz até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem outra arte
Que a prosa de registo, o verso data.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões de fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.


José Saramago

Fala do velho do Restelo ao astronauta (José Saramago)

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.


Mr. Spaceman (Byrds)

Woke up this morning with light in my eyes
And then realized it was still dark outside
It was a light coming down from the sky
I don't know who or why

Must be those strangers that come every night
Those saucer shaped lights put people uptight
Leave blue green footprints that glow in the dark
I hope they get home all right

Hey, Mr. Spaceman
Won't you please take me along
I won't do anything wrong
Hey, Mr. Spaceman
Won't you please take me along for a ride

Woke up this morning, I was feeling quite wierd
Had flies in my beard, my toothpaste was smeared
Over my window, they'd written my name
Said, So long, we'll see you again

Hey, Mr. Spaceman
Won't you please take me along
I won't do anything wrong
Hey, Mr. Spaceman
Won't you please take me along for a ride

Hey, Mr. Spaceman
Won't you please take me along
I won't do anything wrong
Hey, Mr. Spaceman
Won't you please take me along for a ride


Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.

Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é deste caminhada que me morro.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dead Can Dance, Jami Sieber, Jamie Lizmore

Ligações
John Lennon, Manuel Freire, Byrds

Textos:
José Saramago

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012