Sons da Escrita 339

22 de Abril 2011

Terceiro programa do ciclo José Tolentino Mendonça

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José Tolentino Mendonça

O poema

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que,na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.


Words unspoken (Supertramp)

Why sing a lonely song
The whole world knows that love goes wrong
Why browse a heart that isn't broken
It isn't broken, it can be broken

Life's just a show for free
Come along and watch with me
The only sins are words unspoken
Words unspoken, never spoken

Sweet things come and go
Give me shame I'll give you ?woo?
To live for love isn't so easy
It isn't easy, it won't be easy

How all good men try
Look around and wonder why
Can they ?shave/shape? this world to please me?
Can they please me, should they please me?

And follow and maybe you'll correct me
I wish you never met me
For I am no gentleman
And follow and while you watch and wonder
I'll pull the world a sunder
And show you who I am

Send me a gentle dream
of love so strange it's never seemed
Prove how such a love can happen
It can happen, make it happen

Find things, don't abound
Fade away without a sound
But hope must never end or slacker
Never slacker, never slacker

And follow and maybe you'll correct me
I wish you never met me
For I am no gentleman
And follow and while you watch and wonder
I'll pull the world a sunder
And show you who I am


José Tolentino Mendonça

Uma taça ática

Aos heróis pertenciam formas de veneração
talvez o aspecto do mundo antigo mais renegado
pelo nosso século extinto

Não seriam diferentes de nós:
temiam as estações severas
idioma da névoa
instante de vidro
onde a respiração se quebra

Mas a vida era para eles um sopro
que levavam sempre consigo
aurora incólume em expansão

Quando Orfeu cantou diante do Hades
as filhas de Danao interromperam a tarefa
Tântalo esqueceu fome e sede
Sísifo sentou-se sobre a pedra
e diz-se que até Caronte
por momentos abandonou
a nave onde nos leva


Heroes (Camel)

Image of mine are you just a myth?
Aiming for the stars and a need to exist
Singing your life to its final bar,
Staging all the scenes to avoid who you are.

Idol of mine will you lead me on?
Build for me the dreams that I'm longing to own.
Make me secure - be my fallacy.
You are all my world if for only today.

And live for evermore...

Heroes I call for you!
Legend to feed my heart and soul.
Heroes I cry for you!
Legend will bleed your heart of soul.


José Tolentino Mendonça

Travessia

Os nossos dedos são cândidos
com brilhos impressos
e um tempo absorvido dos dois lados
Nos sinos, nos guizos, nas harpas
procuramos sem nenhuma restrição
o fogo e o gelo
a iluminação de um ramo dourado

Há um instante em que as nossas vozes
se fundem e destacam
reluzentes sobre a vida perpétua

Atravessamos a noite com uma vontade irreprimível de cantar


Many rivers to cross (John Lennon)

Many rivers to cross
But I cant seem to find my way over
Wandering I am lost
As I travel along the white cliffs of dover.
Yes Ive got many rivers to cross
And it's only my will that keeps me alive
Cause Ive been licked, washed up for years
And I merely survive because of my pride. 

And this lonliness wont leave me alone
It's such a drag to be on your own
Cuz my man left me and he didnt say why
So I guess I'll have to cry. 

Ive got many rivers to cross
But just where to begin, I'm playing for time
Cuz thereve been times I find myself
Thinking of committing, a dreadful crime. 

And this lonliness wont leave me alone
It's such a drag to be on your own
My man left me and he didnt say why
So I guess I'll have to cry. 

I've got many rivers to cross
But just where to begin, I'm playing for time
But Ive been licked, and washed up for years
And I merely survive because of my pride
(Many rivers to) Oh cross


Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda

Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Devakant

Ligações
Supertramp, Camel, John Lennon

Textos:
José Tolentino Mendonça

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012