Sons da Escrita 022

12 de Agosto de 2005

Primeiro programa do ciclo Júlio Pomar

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Júlio Pomar

Da cegueira dos pintores — 1 (Júlio Pomar)

Cá estou de regresso a Paris, depois de me ter sacrificado ao culto das férias — essas migrações cegas em que toda a gente se lança, em datas fixas, por razões todas confessadas, salvo uma: o horror de não “alinhar”. Se ainda não suspeitaste que as ditas férias são, na liturgia de hoje, tal como as farsas eleitorais, o que ontem eram peregrinações e carnavais, tenho muito prazer em sugerir-to.
Antes da minha partida, tinha arrumado o atelier, para, no regresso, não voltar a encontrar os salvados do trabalho interrompido a contragosto. Mas o que aqui vejo agora apenas me produz um efeito estranho, como o contacto com os alimentos retirados do congelador, inodoros e duros.
Dou comigo, é certo, numa aparência de ordem, no meio das minhas queridas armas e bagagens. A minha toca dá-me os mimos do seu silêncio, da quase-nudez das suas paredes, da ordem viva dos utensílios, da profusão das telas brancas ou só começadas, nesse percurso que, às vezes, só vai desembocar num impossível: o de fixar uma aparência ou então mudá-la.
Falta-me sempre o ar, no ferro-velho habitual dos ateliers de artistas: a sobrecarga de objectos heteróclitos dá-lhes muitas vezes um aspecto de refugo ou até de lixeira pública. Deixei em casa apenas um estudo por cavalete e o vazio em torno destas armações transforma-as em forcas, onde facilmente os quadros fazem o papel de enforcados. Ao olhar para eles, neste momento, não penso no traseiro poeirento das telas, que Duchamp ridicularizou, mas em faces macilentas: o atelier soa a oco e o encontro falha. Veja-se o Triunfo da Morte de Brueghel: parece-me que se pode encontrar lá o que eu sinto — só que o flamengo não puxava ao sentimento.
Na cruz que segura a grade em que a tela está esticada, vejo um expositor: se, na imaginária religiosa, a cruz é o sinal da paixão, a verdade é que serve, também, de expositor do Cristo.
Na cruz da minha grade desenrola-se outra espécie de paixão.


Painter's waltz (Eliza Gilkyson/Andreas Volenweider)

There was a garden, where my fortunes were planted
Roses of white round my head were entwined
The hand of the wind moved the wheel of my seasons

Love in the cup of my life
There was love in the cup of my life

I painted live waters, lightning my lovers
Made birds out of lapis, snakes molded in gold
A god of creation, for the price of my soul
Rain in the cup of my life
Drops of rain in the cup of my life

The wind took my footprints
A poet took my heart
One look of a child burned my paintings
Sorrow felled my gods

Rain in the cup of my life
Pouring rain in the cup of my life

Hearts stands still — soul breathing
Lo’ how the red rose carries my name
The hand of the wind moves the wheel of my seasons

Love in the cup of my life — again
There is love in the cup of my life


Júlio Pomar

Da cegueira dos pintores — 2 (Júlio Pomar)

Passado o impulso inicial, muitas vezes, simto-me desarmado diante da tela já não virgem e que patinha nos pântanos do meio do caminho, sem saber para onde hei-de orientá-la. Quando penso nos bons trinta anos passados neste ofício, com os seus hábitos e os seus sobressaltos, o único benefício que creio poder ter retirado deles é efectivamente o de já não sofrer angústias semelhantes à que nos provoca um teatro sem saídas. Ousaria até acrescentar: oxalá continue assim.
Muitas vezes marquei encontro comigo próprio no ponto zero. E lá me encontrei: a situação sem conforto, de que há que partir. Claro que isto vale para a pintura e para o resto.
Assim, amanhamos coragem para nos convencermos de que agarraremos um dia o que temos a impressão de ter perdido. É falso. O que perdemos está perdido, e aí ficamos. Do que foi perdido, desperdiçado, destruído, já não há nada a esperar. De acordo com a moral das famílias, foi aliás exactamente para isso que se destruíu, se desperdiçou, se perdeu. Para que não volte mais?
O traço que apagamos armazena-se nesse entreposto que é a memória. De lá irá sair, talvez um dia, se um acontecimento imprevisto, mas concreto, da ordem do pouco que o acaso traz consigo, o empurrar para a frente. Eu disse talvez: nada nos garante, nada nos segura contra o fracasso ou a perda. É um quadro nada tranquilo esta clara imagem que fazemos da arte, prática obscura.
Pisar o mesmo caminho. Em todo o caso, este intervalo, mesmo que acabe de repente ou sirva de escala para outras “desmarcações” é um dos hábitos do pintor. Mas não deve ser confundido com o artifício que está na origem de um certo estilo “artista”, de salão, quando os falsos repentirs simulam os achados: ser hábil na inabilidade, alegria de circo.


Your painted smile (Bryan Ferry)

Too fast to live
Too young to die
One stolen kiss babe
A certain smile

We never close babe
We dance all night
I’m lost inside babe
Your painted smile

The name of the place
The name of the place

You’ll never know babe
The state I’m in
It’s a plastic world babe
No tiger skin

Don’t talk to me
Your perfume sighs
I’m lost inside babe
Your painted smile


Júlio Pomar

Da cegueira dos pintores — 3 (Júlio Pomar)

No atelier faço e refaço — por vezes sem sequer me dar ao trabalho de desfazer. Não só para fazer melhor, mas também por necessidade de destruir, de remastigar uma dada experiência que não me matou a fome. Para investir, agredir, questionar, estar dentro do jogo, para encontrar a minha imagem na verónica que o instante, como um toureiro colhe. Não para viver em memória, mas para, fazendo, aguentar o presente.
Estaria eu a estender a minha pintura de uma ponta à outra da tela sem me interrogar?
O meu trabalho não consiste em acrescentar, dia após dia. Não segue um esquema pré-
-estabelecido, como o que serve para a construção de uma casa: as paredes depois das fundações, o tecto depois das paredes. O meu trabalho alimenta-se daquilo que despedaça. Depois de ter engolido os filhos, Saturno rói as unhas e depois o coto.
Procedo por destruições sucessivas. Rasuro. E estou em crer que a rasura dá o (não) sentido à frase, dá o nervo à forma, dá a vertigem ao espaço.


Drawing crazy paterns (Texas)

It's like he's sleeping now
He got married in a rush
Eight months on and summer's gone
He finds it hard to adjust

He's feeling younger now
Younger than he was before
He wishes he could change his mind
Yeah old mistakes they seem so small

And if he had to be you
Then he'd get out and do the things he's always wanted

Standing outside
Like a joker on a hill
He's drawing crazy patterns
With his shoes

Some people push by
And everyone is cursing them
But he doesn't raise his hand
He broke his dreams and lost a friend

He's asking questions now
Caught in his confusion
He shakes his head and looks at me
Then he shouts out loud

If you had to be me
Would you get out and do the things you've always wanted

Standing outside
Like a joker on a hill
He's drawing crazy patterns
With his shoes

Standing outside
Like a joker on a hill
He's drawing crazy patterns
With his shoes

It's like he's sleeping now
When you're gazing at the floor
And on this late night
It's getting harder now harder now

Standing outside
Like a joker on a hill
He's drawing crazy patterns
With his shoes

Standing outside
Like a joker on a hill

He's drawing crazy patterns
With his shoes
He's drawing crazy patterns
With his shoes

He's drawing crazy patterns
With his shoes


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
William Elwood

Ligações
Eliza Gilkyson e Andreas Vollenweider, Bryan Ferry, Texas

Textos:
Júlio Tomar

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012