Sons da Escrita 023

19 de Agosto de 2005

Segundo programa do ciclo Júlio Pomar

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Júlio Pomar

Da cegueira dos pintores — 4 (Júlio Pomar)

E que pensa você de si mesmo? — pergunta de uso nas entrevistas de género. Porque há um jornalismo de género, como houve uma pintura de género. E já que ninguém, até agora, me colocou a questão, não deverei perguntar a mim próprio porque razão estas palavras me soam zombeteiramente aos ouvidos? Será sinal de má consciência? Ou será o remorso de me ter deixado cair no molde destes palavreados que, interessando apenas a pessoas bem próximas (e que, portanto é suposto aceitarem-me), mal escondem o gosto (ou o perfume) desses prazeres solitários, tão especiais que só em sociedade se podem praticar?
Oração, ou prática masturbatória pela qual posso exibir-me no acto de afagar o corpo da ideia que teimo em fundamentar em mim próprio: uma ejaculação principesca deveria, então, coroar o aparecimento, a uma luz que bem gostaria que fosse cómica, do bravo perfil do vosso devotado servidor.
E esta fénix renasceria, não das suas cinzas, mas da mastigação canibalesca das suas incombustíveis entranhas, apresentadas para o acto numa bandeja cujo aço, sabiamente polido, devolveria a imagem do auditório, que, nesse instante, gratificaria o encenador com aplausos conclusivos.
Fénix, não — mas abutre caseiro, ou honesta galinha, prometaicamente narcísica: representação consoladora das veleidades que podemos ter de seguir em liberdade, aquilo a que chamamos o nosso caminho. Aliás, um caminho da cruz, ou, antes, um problema de palavras cruzados, onde o acaso se casa com o trabalho dos dias.
À questão assim enunciada deveria eu responder: falo demais.


Painter's waltz (Eliza Gilkyson/Andreas Volenweider)

I'm back on dry land once again
Opportunity awaits me like a rat in the drain
We're all hunting honey with money to burn
Just a short time to show you the tricks that we've learned

If the boys all behave themselves here
Well there's pretty young ladies and beer in the rear
You won't need a gutter to sleep in tonight
Oh the prices I charge here will see you alright

So she lays down beside me again
My sweet painted lady, the one with no name
Many have used her and many still do
There's a place in the world for a woman like you

Oh sweet painted lady
Seems it's always been the same
Getting paid for being laid
Guess that's the name of the game

Forget us we'll have gone very soon
Just forget we ever slept in your rooms
And we'll leave the smell of the sea in your beds
Where love's just a job and nothing is said


Júlio Pomar

Da cegueira dos pintores — 5 (Júlio Pomar)

O meu mutismo é conhecido: a minha regra é o silêncio nos diálogos em que pobremente me esforço por participar.
Quando penso nas palavras que se soltam de mim, vejo-as irem para continentes que me escapam para sempre, como os cometas que não voltam mais. A palavra que se deixa cair não é uma palavra perdida, no sentido em que não a vemos cair, como uma pedra num poço. A maioria das conversas são palavreado. E, no entanto, desejaria a minha palavra com a clareza de uma página em branco.
Clareza perturbadora. Olhá-la, ouvi-la: trabalho de um arquitecto que nunca conseguisse fazer construir e, portanto, ver o que os seus desenhos minuciosos teriam estabelecido. O mínimo traço, o mínimo som, a mínima palavra: traiçoeiros abismos que nos atraem de armadilha em armadilha.
É impossível parar quando o sentido começa a trabalhar.


Painted desert serenade (Joshua Kadison)

Too fast to live
Too young to die
One stolen kiss babe
A certain smile

We never close babe
We dance all night
I’m lost inside babe
Your painted smile

The name of the place
The name of the place

You’ll never know babe
The state I’m in
It’s a plastic world babe
No tiger skin

Don’t talk to me
Your perfume sighs
I’m lost inside babe
Your painted smile


Júlio Pomar

Da cegueira dos pintores — 6 (Júlio Pomar)

Pintor que sou, as minhas manchas são lagos em que mergulho e que me oferecem a dissolução do meu corpo previsível: a minha linha é o rio que me leva a oceanos que ignoro, onde se celebram reencontros ou bodas (mas quem serão os noivos?). Ou, então, a linha que traço torna-se uma fronteira — nos países que atravessei, aquilo que assim se chama é um lugar que desilude devido à ausência de diferenças nítidas, apesar da polícia e da alfândega.
Quando olho, vejo muitas vezes a imagem dissolver-se. O meu quadro, esse tu que se torna ele, é efectivamente outro.
E, para compreender como as palavras desposam os conceitos, comparêmo-las com panelas esburacadas: a sopa que nelas se cozinha escoa-se, enquanto a panela se enche de novo, mas agora de vapores, cuja origem bem difícil seria definir.
Nós somos peixes solúveis (obrigadinho, ó tio Breton!). Os dicionários só nos dão resumos operacionais. Dir-se-ia que estão a denegrir as palavras, quando não assino (senão) as cartas de amor.
Perplexidade do aprendiz de feiticeiro, que se dá conta de que a feitiçaria não é um domínio exclusivo e de que a sua aprendizagem não passa da prefiguração ingénua de uma descida aos infernos.
(Querer) falar claro é tornar-se odiado — e enganar toda a gente, a começar pelo próprio. A clareza não passa pela palavra. Poderíamos até dizer, numa caricatura lacaniana, que a clareza é o engodo da palavra. Se, para se tornar mais exacta, a palavra se desloca, atraída como é pelo desejo, há que concordar que o sentido é o engodo que faz o que quer neste campo desocupado. E o objecto da palavra? Seduzir o desejo. Por seu lado, o desejo deixa-
-se seduzir por objectos. É a palavra do vazio, cujo tema é a ausência.
A assunção da ausência é mais uma fórmula a incorporar devagarinho e a polir no guisado das palavras. Guisado que se cozinha para encher bem a pança a esses comediantes que não sabem que o são: nós, os utentes das palavras.
Quem devolve a bola a quem? Sedentos de certezas em cada esquina, os cegos enganam-se. Os seus ouvidos ágeis tornam-se pálpebras e fremem à aproximação da luz ou do sono.


Painted smile (Moody Blues)

I can sing
I can dance
Just give me a chance
To do my turn for you
There's a change I'll slip
But with stiff upper lip
I'll sing a song for you
Laughter is free
But it's so hard to be a jester
All the time
And no one's believing
I'm the same when I'm bleeding
And I hurt all the time deep inside

I've shed a tear for the lying
While everyday trying to
Paint this smile for you
Backflips, cartwheelings,
Somersault feelings
What is there left to do
Laughter is free
But it's so hard for me,
A jester all the time
No one's believing
I'm the same when I'm bleeding
And I hurt all the time deep inside

Roll up, roll up
Enjoy the show
Pick me up, wind me up, put me down
You'll see me go
And this painted smile
May miss for a while
Then come back and steal your show

I sing, I dance
Give me a change to do my turn for you
With backflips, cartwheelings,
Somersault feelings
What's there left to do
Laughter is free
But it's so hard to be a jester
All the time
No one's believing
I'm the same when I'm bleeding
And I hurt all the time deep inside

Laughter is free
But it's so hard to be a jester
All the time
No one's believing
I'm the same when I'm bleeding
And I hurt all the time deep inside


Surpreendi-o vivo
num cemitério de esperas. Bebia
o sangue das horas

enquanto a memória desenhava
ventos passeando
pelos cantos da boca.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Garrido

Ligações
Elton John, Joshua Kadison, Moody Blues

Textos:
Júlio Tomar

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012