Sons da Escrita 024

26 de Agosto de 2005

Terceiro programa do ciclo Júlio Pomar

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Júlio Pomar

Da cegueira dos pintores — 7 (Júlio Pomar)

O écran de cinema: lugar por excelência do tudo para ver, como do nada para ver. Lugar, por excelência da não-opção, da escolha condicionada, onde a imagem se vinga da sua sujeição ancestral à palavra. O voltear das imagens é mais ligeiro que o mais subtil dos pensamentos.
Impondo o seu caudal de imagens, o écran de cinema vai ao encontro da nossa preguiça, isto é, da nossa recusa de ver (como todos os exercícios) impõe um esforço. O cinema satisfaz o nosso desejo absoluto e recalcado de não actuar. Antegosto da aproximação do sono ou da morte ou retorno ao estado de bebé: o cinema nada nos pede, salvo a imobilidade, com o nosso olhar suspenso na obscuridade da teta imensa que nos mete pela boca abaixo a sua luz leitosa.


The actor (Moody Blues)

The curtain rises on the scene
With someone shouting to be free
The play unfolds before my eyes
There stands the actor who is me

The sleeping hours takes us far
From traffic, telephones and fear
Put out your problems with the cat
Escape until a bell you hear

Our reasons are the same
But there's no-one we can blame
For there's nowhere we need go
And the only truth we know comes so easily

The sound I have heard in your hello
Oh, oh, darling, you're almost part of me
Oh, oh, darling, you're all I'll ever see
Ah, ah, ah

It's such a rainy afternoon
No point in going anywhere
The sounds just drift across my room
I wish this feeling I could share

It's such a rainy afternoon
She sits and gazes from her window
Her mind tries to recall his face
The feeling deep inside her grows

Our reasons are the same
But there's no-one we can blame
For there's nowhere we need go
And the only truth we know comes so easily


Júlio Pomar

Da cegueira dos pintores — 8 (Júlio Pomar)

A visão do fotógrafo não consiste em ver, mas em estar ali.
A fotografia não tem memória, antes oferece um corte do tempo. Não há fotografia sem o acontecimento por ela registado. O acontecimento é rei: a ousadia do fotógrafo que o domestica não faz mais do que veicular essa soberania. Quanto ao pintor, não dispõe de um utensílio de debitar a duração, para a oferecer como um chouriço cortado às rodelas. Não usa o seu instrumento à tiracolo. O olhar do pintor não é uma prótese destacável do seu corpo ou do seu cérebro.
A fotografia entrega a coisa vista ou encontrada ali, a pintura entrega-se, enquanto coisa. Se há coisa vista na situação pintura ou no objecto quadro (e há sempre), não é, contudo, essa coisa que faz a pintura. A coisa vista está lá, quase como coordenada geográfica ou informação meteorológica relativa a um certo lugar.
A visão do pintor é a assunção da presença, dado que aquilo que se produz além do que ele próprio produz na tela escapa à sua intenção ou ultrapassa a sua vontade. É um ver no presente, um vivido do presente e do presente com todo o seu vivido. E o que ele vê ou o que ele dá a ver é ainda aumentado pela duplicação do visto que, de tanto ser visto, já não é vivido enquanto visto.


Kodachrome (Paul Simon)

When I think back
On all the crap I learned in high school
It's a wonder
I can think at all
And though my lack of edu---cation
Hasn't hurt me none
I can read the writing on the wall

Kodachrome
They give us those nice bright colors
They give us the greens of summers
Makes you think all the world's a sunny day, Oh yeah
I got a Nikon camera
I love to take a photograph
So mama don't take my Kodachrome away

If you took all the girls I knew
When I was single
And brought them all together for one night
I know they'd never match
my sweet imagination
everything looks worse in black and white

Kodachrome
They give us those nice bright colors
They give us the greens of summers
Makes you think all the world's a sunny day, Oh yeah
I got a Nikon camera
I love to take a photograph
So mama don't take my Kodachrome away


Júlio Pomar

Da cegueira dos pintores — 9 (Júlio Pomar)

Quando se falha um traço, usa-se o esfuminho ou o polegar ou a palma da mão e um cinza generalizado cobre a página branca. Assim fazia Matisse. E recomeçava para tornar a apagar e apagar outra vez até que uma síntese fulgurante viesse poisar no labirinto dos percursos, cujos sinais se conservavam na folha de papel.
Mas são diferentes os poderes da imagem, que sofre a condição de se oferecer de uma só vez a quem a vê, e os da escrita, que nada na ruminação do tempo.


Vincent (Don McLean)

Starry, starry night
Paint your palette blue and gray
Look out on a summer's day
With eyes that know the darkness in my soul
Shadows on the hills
Sketch the trees and the daffodils
Catch the breeze and the winter chills
In colors on the snowy linen land

Now I understand
What you tried to say to me
How you suffered for your sanity
How you tried to set them free
They would not listen they did not know how
Perhaps they'll listen now

Starry, starry night
Flaming flowers that brightly blaze
Swirling clouds in violet haze
Reflect in Vincent's eyes of china blue
Colors changing hue
Morning fields of amber grain
Weathered faces lined in pain
Are soothed beneath the artist's loving hand

Now I understand
What you tried to say to me
How you suffered for your sanity
How you tried to set them free
They would not listen they did not know how
Perhaps they'll listen now

For they could not love you
But still your love was true
And when no hope was left inside
On that starry, starry night
You took your life as lovers often do
But I could have told you Vincent
This world was never meant for one as
beautiful as you

Starry, starry night
Portraits hung in empty halls
Frameless heads on nameless walls
With eyes that watch the world and can't forget
Like the strangers that you've met
The ragged men in ragged clothes
The silver thorn of bloody rose
Lie crushed and broken on the virgin snow

Now I think I know
What you tried to say to me
How you suffered for your sanity
How you tried to set them free
They would not listen they're not listening still
Perhaps they never will


Surpreendi-o vivo
num cemitério de esperas. Bebia
o sangue das horas

enquanto a memória desenhava
ventos passeando
pelos cantos da boca.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Eric Tingstad, Nancy Rumbel

Ligações
Moody Blues, Paul Simon, Don McLean

Textos:
Júlio Tomar

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012