Sons da Escrita 255

11 de Dezembro de 2009

Segundo programa do ciclo Luís Filipe Castro Mendes

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Seis elegias. 1 (Luís Filipe Castro Mendes) 

Eu digo do amor não mais que a sombra.
Agora o quarto oferece toda a inclinação da luz
aos dedos que tremem só de aflorar
o que da carne é já incorruptível saber
e crispação sem causa natural.
São nossas inimigas as cortinas
amplas do verão, os fumos e vapores
que esta terra nos devolve, a fria
repercussão do espírito que treme
sobre um tão ausente e despossuído mundo.
Disse-te que voltasses devagar os teus olhos
para o mecanismo simples da erosão.
Eu parti há muito e neste quarto
apenas aguardo o relâmpago surdo do teu corpo,
a contenção muda e não menos esplendorosa
da carne recordada e pressentida.
No entanto, deixámos escurecer
excessivamente o mundo. Ele acolhe-se
a nós, com terror e evidência,
e nós, em verdade, que podemos dizer?
Eu digo do amor não mais que a sombra,
mas o teu rosto e a luz naa pode conter.


Shadow of a lonely man (Alan Parsons Project/John Miles)

Look at me now, a shadow of the man I used to be
Look through my eyes and through the years of lonliness you'll see

To the times in my life when I could not stand to lose, a simple game
And the least of it all was the fortune and the fame
But the dream seemed to end just as soon as it had begun, was I to know?
For the least thing of all that was on my mind, was the close at the
end of the show
The shadow of a lonely man, feels nobody else
In the shadow of a lonely, lonely man
I can see myself

(Looking out of nowhere, looking out of nowhere)

But the sounds of the crowds when they come to see me now, is not the same
And the jest of it all is I can't recall my name
But I'll cling to a hope till I can't hold on anymore, anymore
And for all the acclaim I am all alone and I see as I look through the door

The shadow of a lonely man, there's nobody else
In the shadow of a lonely, lonely man
I can see myself

Look at me now, a shadow of the man I used to be


Seis elegias. 3 (Luís Filipe Castro Mendes)

Porque é tão ansiosamente que espero por ti?
Sabias ocultar entre os teus menores movimentos
a lembrança de um corpo e de um ardor sem música
nem esquecimento possível. Quantas cidades
atravessámos, quantos “grandes são os desertos e tudo é deserto”,
quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os
consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias
a música, regressa ao lugar donde partiste. Peço-te,
regressa. Nós nunca acordamos conformes,
nenhuma cifra nos devolverá o número mágico,
vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas
fórmulas antigas. Da nossa idade
guardámos alguns emblemas, alguns maneirismos.
Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos
à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos
um inquietante rosnido entre as frestas do muro.
Regressemos, não há Ítaca possível, os corpos desfizemo-los
na mesma erosão do seu mágico movimento.
Porque é tão ansiosamente que espero por ti
se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?


Tired of waiting for you (Kinks)

I'm so tired
Tired of waiting
Tired of waiting for you 

I was a lonely soul
I had nobody till I met you
But you keep-a me waiting
All of the time
What can I do? 

It's your life
And you can do what you want
Do what you like
But please don't keep-a me waiting
Please don't keep-a me waiting 

'Cause I'm so tired
Tired of waiting
Tired of waiting for you


Seis elegias. 6 (Luís Filipe Castro Mendes)

Nenhuma coisa, digo eu, pode ser mais vulnerável
à noite a às lágrimas. Sou vulnerável a ti
como o cervo antes da caça, como a persistência
das colheitas sob o sol. Onde ardem
as mudanças das estações, onde germina o lume,
aí me disponho às estrelas, aí recolho os tributos.
Que demorado luto rege agora os nossos protocolos!
Tivemos que nos acomodar a ritos e fórmulas
despidos de qualquer consagração.
Eu recordo as cerimónias breves do verão,
o adensar do outono, a prossecução da primavera.
Quem, digo eu, pode ser mais vulnerável a ti
do que um corpo que ainda treme do esquecimento de si?


Haunted (Deep Purple)

I hear the beating of your wings
As if you're playing on my strings
In mysterious ways
You draw me in
To a love
Beyond all understanding

Beyond my reach
So far away
But it seems
Like only yesterday

I'm Haunted
Haunted
Is that what you wanted

All that's left
Is the ghost of your smile
It stays awhile
Then fades away

I hear your footsteps on the ground
Tempting me to turn around
It's just the echo
Of a disenchanted lover
Shuffling aimlessly
Homeward bound

To empty rooms
And picture frames
And Friends
Who can't recall our names

I'm Haunted
Haunted
Is that what you wanted

All that's left
Is the ghost of your smile
It stays awhile
Then fades away


Desapareceu o livro que então líamos
até não podermos mais continuar.
Como retrato a crescer dentro do tempo
dura o esplendor do corpo sobre a relva.
O ar de tanta névoa emudecido
ganha a solenidade do silêncio.
E já com as palavras secas de te olhar
sou esta vaga sombra entre os dizeres.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Arkenstone

Ligações
Alan Parsons Project, Kinks, Deep Purple

Textos:
Luís Filipe Castro Mendes

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012