Sons da Escrita 257

25 de Dezembro de 2009

Quarto programa do ciclo Luís Filipe Castro Mendes

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Os amantes obscuros (Luís Filipe Castro Mendes) 

Nossos sentidos juntos fazem chama:
e as fantasias nossas vão soltar
os desejos desertos de quem ama
e em verso ou coração se quis tornar. 

Nossos sentidos são matéria prima
de um canto que é mais leve do que o ar;
o mundo todo não nos adivinha:
somos sombra sem luz, sequer luar. 

Que o corpo quebre a noite desolada,
que o corvo ceda a voz à escuridão:
mil luzes são o nome da amada;
quem se perdeu no verso é sem perdão.


(Forgive me) my little flower princess (John Lennon)

Forgive me my little flower princess
For crushing your delicateness
Forgive me, if you could forgive me 

Forgive me my little flower princess
For selfishness
Forgive me, forgive me 

Well I know there is no way to repay you
Whatever it takes I will try to
The rest of my life I will thank you (thank you, thank you)
My little...
If you'll forgive me my little flower princess
Never too late unless you can't forgive... 

Time is on our side
Let's not waste another minute
'Cause I love you my little friend
I really love you 

Give me just one more chance
And I'll show you -- take up the dance
Where we left off
The rest of our life is the...my little
(I'm home)


O último amor (Luís Filipe Castro Mendes)

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão. 

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão? 

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas. 

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.


As tears go by (Rolling Stones)

It is the evening of the day
I sit and watch the children play
Smiling faces I can see
But not for me
I sit and watch
As tears go by 

My riches can't buy everything
I want to hear the children sing
All I hear is the sound
Of rain falling on the ground
I sit and watch
As tears go by 

It is the evening of the day
I sit and watch the children play
Doin' things I used to do
They think are new
I sit and watch
As tears go by


Como um adeus português (Luís Filipe Castro Mendes)

Meu amor, desaparecido no sono como sonho de outro sonho,
meu amor, perdido na música dos versos que faço e recomeço,
meu amor por fim perdido. 

Nenhuma lâmpada se acende na câmara escura do esquecimento,
onde revelo em banho de prata as imagens que guardo de ti,
imagens que se desfiam na memória de haver corpos,
na memória da alegria que sempre guardamos para dar a alguém,
tremendo de medo, tropeçando de angústia,
enternecidos,
entontecidos,
como aves canoras soltas nos vendavais. 

Perdi-te no momento certo de perder-te.
Aqui estão os augúrios, além o discernimento.
O amor em surdina desfez-se no seu dizer,
entre versos pobres, um corpo cansado,
e a doença sem fim do desejo mortal. 

Apagaram-se as luzes. Nunca o vento da indiferença
me abrirá as mãos.
Nunca abdicarei deste quinhão de luz, o meu amor.
E agora vejo bem como as palavras caem,
não valem,
se desfolham e são pisadas por qualquer afirmação da vida,
da vida que não era para nós.


Is this love (Thomas Anders)

I should have known better
Than to let you go alone,
It's times like these
I can't make it on my own
Wasted days, and sleepless nights
And I can't wait to see you again 

I find I spend my time
Waiting on your call,
How can I tell you, baby
My back's against the wall
I need you by my side
To tell me it's alright,
'Cos I don't think I can take anymore 

Is this love that I'm feeling,
Is this the love, that I've been searching for
Is this love or am I dreaming,
This must be love,
'Cos it's really got a hold on me,
A hold on me... 

I can't stop the feeling
I've been this way before
But, with you I've found the key
To open any door
I can feel my love for you
Growing stronger day by day,
An' I can't wait to see you again
So I can hold you in my arms


Erraste pois o curso dos teus anos
e a solidão te espera, mas já volta
o sabor desses dias tão amargos
de que se fez o mel da alegria.
Se ouvires devagar à beira de água
o tempo que deixaste por viver,
verás num só olhar quem procuravas
e saberás que é tarde para morrer.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Oystein Sevåg

Ligações
John Lennon, Rolling Stones, Thomas Anders

Textos:
Luís Filipe Castro Mendes

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012