Sons da Escrita 190

19 de Setembro de 2008

Terceiro programa do ciclo Luís Filipe Nava

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Paixão (Luís Miguel Nava)

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase
podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho até à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.


Talk about the passion (R.E.M.)

Empty prayer, empty mouths, combien reaction
Empty prayer, empty mouths, talk about the passion
Not everyone can carry the weight of the world
Not everyone can carry the weight of the world

Talk about the passion
Talk about the passion

Empty prayer, empty mouths, combien reaction
Empty prayer, empty mouths, talk about the passion
Combien, combien, combien de temps?

Not everyone can carry the weight of the world
Not everyone can carry the weight of the world
Combien, combien, combien de temps?


A pouco e pouco (Luís Miguel Nava)

Há entre o coração e a pele cumplicidades para cujo entendimento apenas corpos como o dele às vezes contribuem.
Olhando-o nos olhos não é fácil destrinçar do alcantilado coração a cama onde dormíamos, ao mais pequeno sopro o sol parece evaporar-se.
Por esse coração, ainda que escarpado, era, no entanto, fácil alcançar a pele, o mar à força de bater na rocha ia ficando a pouco e pouco em carne viva.


Perfect skin (Lloyd Cole)

i choose my friends only far too well
i'm up on the pavement, they're all down in the cellar
with their government grants and my i.q.
they brought me down to size, academia blues
louise is a girl, i know her well
she's up on the pavement, yes she's a weather girl
and i'm staying up here so i may be undone
she's inappropriate, but then she's much more fun and
when she smiles my way
my eyes go out in vain
she's got perfect skin
shame on you, you've got no sense of grace, shame on me
ah just in case i might come to a conclusion
other than that which is absolutely necessary
and that's perfect skin
louise is the girl with the perfect skin
she says turn on the light, otherwise it can't be seen
she's got cheekbones like geometry and eyes like sin
and she's sexually enlightened by cosmopolitan and
when she smiles my way
my eyes go out in vain
for her perfect skin
yeah that's perfect skin
she takes me down to the basement to look at her slides
of her family life, pretty weird at times
at the age of ten she looked like greta garbo
and i loved her then, but how was she to know that
when she smiles my way
my eyes go out in vain
she's got perfect skin
up eight flights of stairs to her basement flat
pretty confused huh, being shipped around like that
seems we climbed so high now we're down so low
strikes me the moral of this song must be there never has been one


Paisagem citadina (Luís Miguel Nava)

A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.

Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos

por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraços.

A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.


Pictures of a city (King Crimson)

Concrete cold face cased in steel
Stark sharp glass-eyed crack and peel
Bright light scream beam brake and squeal
Red white green white neon wheel.

Dream flesh love chase perfumed skin
Greased hand teeth hide tinseled sin
Spice ice dance chance sickly grin
Pasteboard time slot sweat and spin.

Blind stick blind drunk cannot see
Mouth dry tongue tied cannot speak
Concrete dream flesh broken shell
Lost soul lost trace lost in hell.


Levado e revolvido pelas vagas
do real, estou como uma mesa posto até aos ossos,
empresto à página os meus ossos e ao escrever
é como se tivesse a mão dentro dum espelho.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
New American Orchestra

Ligações
R.E.M., Lloyd Cole & The Commotions, King Crimson

Textos:
Luís Filipe Castro Mendes

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012