Sons da Escrita 331

19 de Março de 2011

Primeiro programa do ciclo Luís Vaz de Camões

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Luís Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver (Luís de Camões)

Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
 
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
 
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
 
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Private fires (Andreas Vollenweider & Carly Simon)

We were happy here
Even in the cold spells
Even in the roads
Like a frozen river
We would keep each other warm 

And we were happy here
With the soup on the fire
And the wind in the chimney
And the floors too cold for bare feet 

And we were happy here
Even when the rains came
And the storms broke the sea
With a whistle and drum
And the moon ran for cover
And the house shook all over
And the cats would hide under the bed 

But we were happy here
With our simple life
It was our whole life
And we were happy here
Before the news came
That the world was small
And the roar was loud
And not quite so distant after all
I remember how it felt before the fall
I remember the day when we heard the call
And the walls came down
And our perfect dream was gone 

But we were happy here
When the cries of our babies
Were the only cries
And our bad moods
The only bad moods
Which we coaxed and stroked
Just like our own private fires 

But we were happy here before


Luís Vaz de Camões

Enquanto quis fortuna que tivesse (Luís de Camões)

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
 
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Pera que seus enganos não dissesse.
 
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
 
Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.


Lucky man (Emmerson, Lake & Palmer)

He had white Horses
And ladies by the score
All dressed in satin
And waiting by the door

Ooooh, what a lucky man he was
Ooooh, what a lucky man he was

White lace and feathers
They made up his bed
A gold covered mattress
On which he was led

Ooooh, what a lucky man he was
Ooooh, what a lucky man he was

He went to fight wars
For his country and his king
Of his honor and his glory
The people would sing

Ooooh, what a lucky man he was
Ooooh, what a lucky man he was

A bullet had found him
His blood ran as he cried
No money could save him
So he laid down and he died

Ooooh, what a lucky man he was
Ooooh, what a lucky man he was


Luís Vaz de Camões

Alma minha gentil, que te partiste (Luís de Camões)

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
 
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
 
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
 
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Soul searcher (Clannad)

I can quote a lot of lines
That’s pertinent to you and me
Life and all it’s many choices
Are so funny and so mean
Deep thoughts in one’s convictions
Can be someones discontent
Just what it seems isn’t
If must needs the devil drives 

Soul searcher what are you looking for
Soul giver what will you settle for 

Back to the very beginning
Back to the future I don’t mind
As long as philosophical people
Keep their minds alive
Could we use the back pages
Of a bible of ages
If you could write it now
Well if needs must the devil drives 

Soul searcher what are you looking for
Soul giver what will you settle for 

Soul searcher what are you looking for
Soul giver what will you settle for 

Alone searcher is owed a lot of love
Soul searcher what will you settle for


Eu já cantei, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
Parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.

… … …

Cantava, mas já era ao som dos ferros.
De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças,
onde a fortuna injusta é mais que os erros?


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Lanz, Calverley, Mike Oldfield

Ligações
Andreas Vollenweider, Emmerson, Lake & Palmer, Clannad

Textos:
Luís Filipe Castro Mendes

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012