Sons da Escrita 222

25 de Abril de 2009

Segundo programa do ciclo Manuel Alegre

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Manuel Alegre

Praça da canção (Manuel Alegre)

Cantar não é talvez suficiente.
Não porque não acendam de repente as noites
Tuas palavras irmãs do fogo
Mas porque palavras são
Apenas chama e vento.

Eu venho incomodar.
Trago palavras como bofetadas
E é inútil mandarem-me calar
Porque a minha canção não fica no papel.
Eu venho tocar os sinos.
Planto espadas e transformo destinos.
Os homens ouvem-me cantar
E a pele
dos homens fica arrepiada.
E depois é madrugada
Dentro dos homens onde ponho
Uma espingarda e um sonho.

E é inútil mandarem-me calar.
De certo modo sou um guerrilheiro
Que traz a tiracolo
Uma espingarda carregada de poemas
Ou se preferem sou um marinheiro
Que traz o mar ao colo
E meteu o Navio pela terra dentro
E pendurou depois no vento
Uma canção.

Já disse: planto espadas
E transformo destinos.
E para isso basta-me tocar os sinos
Que cada homem tem no coração.


Canção com lágrimas (Adriano Correia de Oliveira)

Eu canto para ti o mês das giestas
mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti o mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera me Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem em dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol, Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...


Manuel Alegre

Canção tão simples (Manuel Alegre)

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva a dor que passas?

Quem poderá prender os dedos
farpas que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas que são precisas?


Canção tão simples (Adriano Correia de Oliveira)

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva a dor que passas?

Quem poderá prender os dedos
farpas que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas que são precisas?


Manuel Alegre

Exílio (Manuel Alegre)

Venho dizer-vos que não tenho medo
A verdade é mais forte que as algemas
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas.

Em qualquer parte eu estou presente
Tomo o navio da canção
E vou direito ao coração de toda a gente.

Venho dizer-vos que não tenho medo.


Eu tinha grandes coisas para vos dizer.
Porém não tenho tempo. Vou-me embora. Deixo-vos
com a vossa tristeza
mergulhada no vinho quieta envilecida.
Minha tristeza é mais pura
não se esconde no vinho não se esconde.
Precisa
de grandes rios ao ar livre. De
partir à pedrada o corpo
onde a vossa tristeza apodrece.
Precisa de correr. Apertar muitas mãos
encher as ruas de muita gente.
Precisa de batalhas.
Precisa de cantar.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Natalie MacCaster, Kirsty Hawkshaw, Mark Knopfler

Ligações
Adriano Correia de Oliveira

Textos:
Manuel Alegre

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012