Sons da Escrita 223

1 de Maio de 2009

Terceiro programa do ciclo Manuel Alegre

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Manuel Alegre

Um perfume de nardo (Manuel Alegre)

Em verdade te digo: Não
espero a eternidade. E sei
que nenhum verso vence a morte.

Procuro apenas um sinal
um ritmo que me restitua
a imperceptível respiração da terra.

Talvez os cabelos de Maria
irmã de Marta
a enxugar-me os pés.

Porque todos os poemas são mortais
e o que fica é talvez
um perfume de nardo. E nada mais.


Eternity road (Moody Blues)

Hark listen here he comes
Hark listen here he comes
Turning, spinning, catherine wheeling
For ever changing
There's no beginning
Speeding through a charcoal sky
Observe the truth we cannot lie

Travelling eternity road
What will you find there?
Carrying your heavy load
Searching to find a peace of mind.

You'll see us all around
You'll see us all around
Turning, spinning, catherine wheeling
For ever changing
There's no beginning
You're so very far from home
And so very much alone

Travelling eternity road
What will you find there?
Carrying your heavy load
Searching to find a peace of mind.

Travelling eternity road
What will you find there?
Carrying your heavy load
Searching to find a peace of mind.


Manuel Alegre

Melancolia (Manuel Alegre)

Olhando distraído o armário eu vi
o sol que nele se reflectia.
E comecei: “um quadrado de luz
num rectângulo de sombra.
Ou talvez um quadro
uma equação
um exercício de pura geometria.”
Mas enquanto fzia isto que faço
já o sol no ocidente se escondia
deixando no armário um breve traço
de profunda profunda melancolia.


Melancholy man (Moody Blues)

I'm a melancholy man, that's what I am,
All the world surrounds me, and my feet are on the ground.
I'm a very lonely man, doing what I can,
All the world astounds me and I think I understand
That we're going to keep growing, wait and see.

When all the stars are falling down
Into the sea and on the ground,
And angry voices carry on the wind,
A beam of light will fill your head
And you'll remember what's been said
By all the good men this world's ever known.
Another man is what you'll see,
Who looks like you and looks like me,
And yet somehow he will not feel the same,
His life caught up in misery, he doesn't think like you and me,
'Cause he can't see what you and I can see.


Manuel Alegre

O beijo de Judas (Manuel Alegre)

Aquele que escreve será traído
um dia algum leitor apontará
a palavra interdita
e o sentido escondido no sentido.
O beijo de Judas está dentro da própria escrita
e aquele que escreve está
perdido. De nada serve
dizer este é o meu vinho este é o meu pão.
O beijo de Judas vai ser dado. Quem escreve
tem uma lança apontada ao coração.

Não se perdoa a dádiva de si
a canção que se canta ou a breve tão breve
alegria de partilhar o corpo e a palavra.
Quem reparou em Getsemani
naquele que não se ria nem se dava?
Já outra vez se levantou e se deteve
alguém vai ser traído agora aqui
seu olhar te designa: Tu és aquele que escreve
e a tua própria mão aponta para ti.


My song (Moody Blues)

I'm going to sing my song
And sing it all day long
A song that never ends
How can I tell you, all the things inside my head.

The change in these past years
Has made me see our world
In many different ways
How can I tell you, love can change our destiny.

Love can change the world
Love can change your life
Do what makes you happy
Do what you know is right
And love with all your might
Before it's too late

Where did I find all these words
Something inside of me is burning
There's life in other worlds
Maybe they'll come to earth
Helping man to find a way

One day I hope we'll be in perfect harmony
A planet with one mind
Then I could tell you
All the things inside my head

I'm going to sing my song
And sing it all day long
A song that never ends
How can I tell you, all the things inside my head.

I'm going to sing my song
A song that never ends

O mistério cintila no mistério.
Dizer e não dizer.
Procurarei o oculto
o meu reino não é para se ver


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Spirare, Amoeba, David Van Tiegham

Ligações
Moody Blues

Textos:
Manuel Alegre

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012