Sons da Escrita 224

8 de Maio de 2009

Quarto programa do ciclo Manuel Alegre

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Manuel Alegre

O armário (Manuel Alegre)

Quando abrires o armário tem cuidado
mais que versos falhados cartões melancolia
pode sair de repnte o que não esperas
aquela cujo sol de um outro tempo
quando olha para ti ainda te mata.

Por isso tem cuidado: não abras as gavetas
talvez Deus esteja escondido
ao lado do retrato da primeira comunhão.
Não abras: pode soltar-se
o espírito
podem sair os mortos todos
as bruxas o diabo as cartas o destino
e aquela parte da tua vida que não cabe
não cabe em nenhum verso.

E se o bafo soprar?
Não abras
não abras as gavetas.


My God (Jethro Tull)

People -- what have you done --
locked Him in His golden cage.
Made Him bend to your religion --
Him resurrected from the grave.
He is the god of nothing --
if that's all that you can see.
You are the god of everything --
He's inside you and me.
So lean upon Him gently
and don't call on Him to save you
from your social graces
and the sins you used to waive.
The bloody Church of England --
in chains of history --
requests your earthly presence at
the vicarage for tea.
And the graven image you-know-who --
with His plastic crucifix --
he's got him fixed --
confuses me as to who and where and why --
as to how he gets his kicks.
Confessing to the endless sin --
the endless whining sounds.
You'll be praying till next Thursday to
all the gods that you can count.


Manuel Alegre

Onda a onda (Manuel Alegre)

Onda a onda o desejo no
teu rosto de mágoas e de torres
levemente descaídas para
onde não sei se nasces ou se morres
quando os meus dedos cítara a cítara
tocam a música do teu corpo nu
lá onde os teus mistérios serão meus
e chegarei às margens onde tu
talvez então me digas quem é Deus


Secret God (Neil Finn)

Lets go climb up on the roof
In the twilight 360 degree view
As we lie down
Watch the fading light turn into stars
There you are
Secret god
Breathe my name
Secret god stir up the dust
Whisper my name
This reminds me of another place
Lonesome wolf comes down from the hills
And hes walking in circles howling at the moon
In another life he will be enchanted by a woman Secret god stir up the dust
Breathe my name
Secret god stir up the dust
Whisper my name
I see a man collapse
In the doorway of a restaurant
And Im holding my hand out
The first one there to help him up
Secret god stir up the dust
Whisper my name
Secret god stir up the dust
Breathe my name
Time at hand stir up the dust
Breathe my name
Secret god whisper my name


Manuel Alegre

Falésias praias areais ardentes (Manuel Alegre)

Para deixar-vos tenho o meu orgulho
que para vos deixar não tenho nada
ensinei-vos o mar o verão o julho
o alvoroço da pesca e da alvorada
os pássaros a caça o doce arrulho
do instante que passa e é tudo e nada.

Para deixar-vos tenho a liberdade
um astro a lucilar dentro do não
o riso e seu esplendor a intensidade
da vida que se dança um só verão
o fulgor dessa breve eternidade
o azul o vento o espaço a solidão.

Para deixar-vos nada que deixar
só um país e as ilhas adjacentes
um rectângulo inteiro e ainda o mar
as montanhas os rios e afluentes
as índias que ficaram por achar
falésias praias areais ardentes.

Para deixar-vos tenho o que não tenho
que para vos deixar não tenho mais
do que a escrita da vida e o eco estranho
de ritmos sons e signos e sinais
metáforas que têm o tamanho
do mundo que vos deixo. E nada mais.


Nothing is good enough (Aimee Mann)

Once upon a time is how it always goes
but I'll make it brief
what was started out with such excitement
now I'd gladly end end with relief
in what now has become a familiar motif:
That nothing is good enough
for people like you
who have to have someone take the fall
and something to sabotage--
determined to lose it all
Critics at their worst could never criticize
the way that you do
no, there's no one else, I find,
to undermine or dash a hope
quite like you
and you do it so casually, too
Cause nothing is good enough
for people like you
who have to have someone take the fall
and something to sabotage--
determined to lose it all
Ladies and gentlemen--
here's exhibit A
didn't I try again?
And did the effort pay?
Wouldn't a smarter man
simply walk away?
It doesn't really help that you can never say
what you're looking for
but you'll know it when you hear it,
know it when you see it walk through the door
So you say--
so you've said many times before
But nothing is good enough
for people like you
who have to have someone take the fall
and something to sabotage--
determined to lose it all


Partiremos para Innisfree
não propriamente na Irlanda mas aqui
um lugar mágico algures dentro de ti
ou talvez debaixo da ameixieira no jardim
ou na parte de ti que está em mim
ou junto ao buxo onde disseste sim.
Partiremos para Innisfree
além da noite além de nós além do fim.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dead Can Dance, Oystein Sevåg & Lakki Patey, Budi Siebert

Ligações
Jethro Tull, Neil Finn, Aimee Mann

Textos:
Manuel Alegre

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012