Sons da Escrita 225

15 de Maio de 2009

Quinto programa do ciclo Manuel Alegre

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Manuel Alegre

O décimo soneto do português errante (Manuel Alegre)

Contra a usura e o juro contra a renda
contra um tempo de ter mais do que ser
contra a ordem fundada em compra e venda
contra a vida que mói até doer

contra a força que oprime — aí eu canto.
E onde amor se procura e não se encontra
onde a vida se mede a tanto e tanto
onde a mentira impera — aí sou contra.

E por isso incomodo e sou mal visto.
Que se o tempo é de grades eu resisto
e quando alguns se calam não me calo.

Eu sou o renitente o inconformado.
Por isso me deitaram mau olhado
e por isso persisto e canto e falo.


Era uma vez um cantor maldito (Fausto)

(texto não disponível)


Manuel Alegre

A segunda canção com lágrimas (Manuel Alegre)

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.
E de repente
quebraram-se nas veias os relógios onde
os ponteiros marcavam vinte e cinco anos.

Vinte e cinco navios vinte e cinco mapas
vinte e cinco viagens para sempre adiadas.
Meu amigo quebrou-se como se fosse de vidro.
Ficaram vinte e cinco pedaços de um homem.


A segunda canção com lágrimas (Carlos Mendes)

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.
E de repente
quebraram-se nas veias os relógios onde
os ponteiros marcavam vinte e cinco anos.

Vinte e cinco navios vinte e cinco mapas
vinte e cinco viagens para sempre adiadas.
Meu amigo quebrou-se como se fosse de vidro.
Ficaram vinte e cinco pedaços de um homem


Manuel Alegre

Post-scriptum (Manuel Alegre)

Sobre esta página escrevo o teu nome
que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome
de muitos nomes feito
água e fogo, lenha, vento
Primavera, pátria, exílio.

Teu nome onde exilado habito e canto
mais do que nome, navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.

Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo
este nome rosa e cardo
por quem livre sou cativo.

Sobre esta página escrevo o teu nome
LIBERDADE!


Liberdade (Sérgio Godinho)

Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir.


Solidão é companheira
e de senhor são seus modos.
Rei do céu de todos
e de chão nenhum.

À sombra de uma azinheira
há sempre sombra para mais um.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andy Summers, Eric Clapton, Máire Breatnach

Ligações
Fausto, Carlos Mendes, Sérgio Godinho

Textos:
Manuel Alegre

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012