Sons da Escrita 239

21 de Agosto de 2009

Quarto programa do ciclo Manuel António Pina

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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ManuelAntonioPina

O nome do cão (Manuel António Pina)

O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,

mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.

Olhava-nos com uns olhos que havia
nos seus olhos
mas não se via o que ele via,

nem se nos via e nos reconhecia
de algum modo essencial
que nos escapava

ou se via o que de nós passava
e não o que permanecia,
o mistério que nos esclarecia.

Onde nós não alcançávamos
dentro de nós
o cão ia.

E aí adormecia
dum sono sem remorsos
e sem melancolia.

Então sonhava
o sonho sólido em que existia.
E não compreendia.

Um dia chamámos pelo cão e ele não estava
onde sempre estivera:
na sua exclusiva vida.

Alguém o chamara por outro nome,
um absoluto nome,
de muito longe.

E o cão partira
ao encontro desse nome
como chegara: só.

E a mãe enterrou-o
sob a buganvília
dizendo: "É a vida..."


Me and you and a dog named Boo (Lobo)

I remember to this day the bright red Georgia clay
And how it stuck to the tires after the summer rain
Will power made that old car go my roamin' mind told me that's so
How I wish that we were back on the road again
Me and you and a dog named Boo travelin' and a livin' off the land
Me and you and a dog named Boo how I love being a free man

I can still recall the wheatfields near St Paul
And in the mornin' we got caught robbin' from an old hen
Old MacDonald he made us work but then he paid us for what it was worth
Another tank of gas and back on the road again
Me and you and a dog named Boo...

I'll never forget that day we motored stately into big LA
The lights of the city put the settlin' down into my brain
It's only been a month or so that old car's a buggin' us to go
We gotta get away and get back on the road again
Me and you and a dog named Boo...


ManuelAntonioPina

O lado de fora (Manuel António Pina)

Eu não procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.


Outside of this (inside of that) (Jon Anderson & Vangelis)

Outside of this inside of that, the memory lingers so right
Completely as that
We've loved a long time, be my friend, I need you

Inside of this and outside of that, there's so much more to finding out
How we forever simply feel
the way the wayward-winds that hide the storms at night
Like the winter came, it changed our lives
We were very merry to be there
Our love, get used to being this way our love,
once again a story really true creates a sound so good-That it's true

Outside of this inside of that
There are words that come with time
Like love songs they seem self written
So true, they seem so true
I work a moments time and feel this is one of lifes mysteries
Bringing a smile, 'cos I know wot it does to you
So I'm trying to pass it thru, trying for you

Countless variations of the memory the state
The mere emotion of getting round
Crazy understandings of the way we tilt the light
But it shines when we make the sound
Don't live by mistakes
We can dance to your tune
But there's this whole understanding
And it's coming I guess-I know-
I hope that you can get into this
To this
I was there and then and then
You were there and then and then
We were there the beginning of time

I was there and then and then
You were there and then and then
We were there the beginning of time


ManuelAntonioPina

Completas (Manuel António Pina)

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


Seven deadly sins (Bryan Ferry)

You've seen it all before you
You know the truth can be unkind
You fear the worst is hiding
It's when you lose your mind
All I hear is chimes at midnight
Only seven deadly sins
You hear the words denying
You can't believe but you try
When you long for what you don't have
It's why you live and die
You say your love is endless
But jealousy is blind
As we speak I rage and tremble
I must be sure you're mine


Calo-me quando escrevo
assim as palavras falam mais alto e mais baixo.
Nada no poema é impossível e tudo é possível
Mas não arranjo maneira de entrar no poema
e de sair de mim e por isso a minha voz é profunda e rouca
e por isso me calo (e como me calarei?)
No entanto ninguém é tão falador como eu
Nem há palavras que cheguem para não dizer nada.

E vós também: não me faleis de nada ou falai-me.
Porque não sabeis o que dizeis.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
George George Davidson, Secret Garden, Peter Seiler

Ligações
Lobo, Jon Anderson & Vangelis Papathanasious, Bryan Ferry

Textos:
Manuel António Pina

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012