Sons da Escrita 240

28 de Agosto de 2009

Quinto programa do ciclo Manuel António Pina

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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ManuelAntonioPina

Estarei ainda muito perto da luz? (Manuel António Pina)

Estarei ainda muito perto da luz?
Poderei esquecer
estes rostos, estas vozes,
e ficar diante do meu rosto?
Às vezes, como num sonho,
vejo formas como um rosto
e pergunto: "De quem é este rosto?"
E ainda: "Quem pergunta isto?"
E: "E com quem fala?"
Estarei ainda longe de Ti,
quem quer que sejas ou eu seja?
Cresce a noite à minha volta,
terei palavras para falar-Te?
E compreenderás Tu este,
não sei qual de nós, que procura
a Tua face entre as sombras?
Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta.


Prayer for the dying (Seal)

Fearless people, careless needle.
Harsh words spoken and lives are broken.
Forceful ageing, help me I'm fading.
Heaven's waiting, it's time to move on.
Crossing that bridge, with lessons I've learned.
Playing with fire and not getting burned.
I may not know what you're going through.
But time is the space between me and you.
Life carries on... it goes on.

Just say die and that would be pessimistic.
In your mind, we can walk across the water.
Please don't cry, it's just a prayer for the dying.
I just don't know what's got into me.

Been crossin' that bridge with lessons I've learned. ...learned
Playing with fire and not getting burned.
...burned burned...
I may not know what you're going through,
But time is the space bBetween me and you.
There is a light through that window
...light through that window...
Hold on say yes, while people say no
Life carries on... on on on...
Ohh! It goes on...

I'm crossing that bridge, with lessons I've learned...
I'm playing with fire, nnd not getting burned...
I may not know what you're going through.
But time is the space between me and you.
There is a light through that window.
Hold on say yes, while people say no

'Cause life carries on...
It goes on... it goes on.
Whoah. Life carries on.
When nothing else matters.
When nothing else matters.
I just don't know what's got into me.
It's just a prayer for the dying... dying dying dying dying...
For the dying.


ManuelAntonioPina

It’s all right, ma… (Manuel António Pina)

Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.

Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.

Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.

Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.

Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.

Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.

Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.


Waiting in vain (Annie Lennox)

From the very first time I rest my eyes on you, boy
My heart said follow through.
But I know now that I'm way down on your line
But the waiting feeling's fine

So don't treat me like a puppet on a string
'Cause I know how to do my thing
Don't talk to me as if you think I'm dumb
I wanna know when you're gonna come

See- I don't wanna wait in vain for your love
I don't wanna wait in vain for your love
I don't wanna wait in vain for your love
'Cause summer is here and I'm still waiting there
Winter is here I'm still waiting there

Like I said- It's been three years since I'm knocking on your door
And I still can knock some more
Ooh, boy, ooh, boy, is it crazy? Look, I wanna know now
For I to knock some more

You see- In life I know that there is lots of grief
But your love is my relief
Tears in my eyes burn while I'm waitin'
While I'm waitin' for my day

Like I said- I don't wanna, I don't wanna
I don't wanna wait in vain
I don't wanna, I don't wanna
I don't wanna wait in vain
It's been three years since I'm knocking on your door
And I still can knock some more
Ooh, boy, ooh, boy, is it crazy? Look, I wanna know now
Like I said- Tears in my eyes burn
Tears in my eyes burn while I'm waiting
While I'm waiting for my day

You see- Ooh, boy, ooh, boy, is it crazy? Look, I wanna know now
For I to knock some more
In life I know there is lots of grief
But your love is my relief

ManuelAntonioPina

Separação do corpo (Manuel António Pina)

O corpo tem abóbadas onde soam os
sentidos, se tocados de leve, ecoando longamente
como memórias de outra vida
em frios desertos ou praias de lama.
O passado não está ainda preparado para nós,
para não falar do futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, cabelo,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.
Lemos demais e escrevemos demais,
e afastámo-nos de mais
pois o preço era
muito alto para o que podíamos pagar

da alegria das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto; e quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o melhor que conseguimos.
A beleza do corpo amado é
(agora sabêmo-lo) lixo orgânico.
O mármore que pudemos foi o das casas de banho
e o dos balcões dos bancos,
e grandes gestos nem nos romances,
quanto mais nos versos! E do amor
melhor é nem falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.
Corpo, corpo, porque me abandonaste?
“Tomai, comei”, pois sim, mas quando
a química não chega para adormecermos,
a que divindades havemos de nos acolher
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta investigação histórica,
tanta psicologia e tanta antropologia?
A memória, sem o corpo, não é ascensão nem recomeço,
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos calar-nos
sem temer o silêncio nem a culpa
porque já não há tais palavras.


Goodbye cruel world (Pink Floyd)

Goodbye cruel world, I'm leaving you today.
Goodbye, Goodbye, Goodbye.

Goodbye, all you people, there's nothing you can say
To make me change my mind. Goodbye.


Don't say goodbye (Crosby, Stills, Nash & Young)

Never leave me alone (don't say goodbye)
I don't wanna face my world without you.
Never leave me alone (don't say goodbye)
I don't wanna lose your lasting love.
Never tell me goodbye,
I don't wanna live my life without you.
Never tell me goodbye,
I don't wanna see you walk away from me.

If I open up my heart
I can always find you there
So I'll never be apart from you
My heart is on my sleeve
And even though you started to
I hope you never leave,
Never leave, me alone.

If I open up my heart
I can always find you there
So I'll never be apart from you
In you I still believe
And even though you started to
I hope you never leave,
Never leave, me alone.

Never leave me alone (don't say goodbye)
I don't wanna live my life without you.


… … …
Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito: a mais e a menos.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Jami Sieber, Mike Oldfield, Cheat Atkins & Mark Knopfler

Ligações
Seal, Annie Lennox, Pink Floyd, Crosby, Stills, Nash & Young

Textos:
Manuel António Pina

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012