Sons da Escrita 219

10 de Abril de 2009

Terceiro programa do ciclo Manuel Bandeira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Manuel Bandeira

Plenitude (Manuel Bandeira)

Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra.
O ar é como de forja. A força nova e pura
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto, fibra a fibra,
Avassalar-me o ser a vontade da cura. 

A energia vital que no ventre profundo
Da Terra estuante ofega e penetra as raízes,
Sobe no caule, faz todo galho fecundo
E estala na amplidão das ramadas felizes, 

Entra-me como um vinho acre pelas narinas...
Arde-me na garganta... E nas artérias sinto
O bálsamo aromado e quente das resinas
Que vem na exalação de cada terebinto. 

O furor de criação dionisíaco estua
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas,
E eu absorvo-o nos sons, na glória da luz crua
E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas 

Tenho êxtase de santo... Ânsias para a virtude...
Canta em minhalma absorta um mundo de harmonias.
Vêm-me audácias de herói... Sonho o que jamais pude
- Belo como Davi, forte como Golias... 

E neste curto instante em que todo me exalto
De tudo o que não sou, gozo tudo o que invejo,
E nunca o sonho humano assim subiu tão alto
Nem flamejou mais bela a chama do desejo. 

E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza!
Vós que cicatrizais minha velha ferida...
Vós que me dais o grande exemplo de beleza
E me dais o divino apetite da vida!


The land of plenty (Leonard Cohen)

Don’t really know who sent me
To raise my voice and say:
May the lights in The Land of Plenty
Shine on the truth some day.

I don’t know why I come here, / Knowing as I do,
What you really think of me, / What I really think of you.

For the millions in a prison,
That wealth has set apart –
For the Christ who has not risen,
From the caverns of the heart –

For the innermost decision,
That we cannot but obey -
For what’s left of our religion,
I lift my voice and pray:
May the lights in The Land of Plenty
Shine on the truth some day.

I know I said I’d meet you,
I’d meet you at the store,
But I can’t buy it, baby.
I can’t buy it anymore.

And I don’t really know who sent me,
To raise my voice and say:
May the lights in The Land of Plenty
Shine on the truth some day.

I don’t know why I come here, / knowing as I do,
what you really think of me, / what I really think of you.

For the innermost decision
That we cannot but obey
For what’s left of our religion
I lift my voice and pray:
May the lights in The Land of Plenty
Shine on the truth some day.


Manuel Bandeira

A morte absoluta (Manuel Bandeira)

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão
felizes!
num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.


No face, no name, no number (Traffic)

I'm looking for a girl who has no face
She has no name, or number
And so I search within his lonely place
Knowing that I won't find her
Well, I can't stop this feeling deep in inside me
Ruling my mind

I feel no sound
Don't know where I'm bound

The scenery is all the same to me
Nothing has changed or faded
I'm a part of it, some part of me
Painted cool green, and shaded
So, try to find myself must be the only way
To feel free


Manuel Bandeira

Epígrafe (Manuel Bandeira)

Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis. 

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugia e como um furacão, 

Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó -
Ah, que dor!
Magoado e só,
- Só! - meu coração ardeu: 

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
- Esta pouca cinza fria.


I burn for you (Sting & Police)

Now that I have found you
And the cool warmth of your evening smile
will shade like a parasol
And your love flows through me
Though I drink at your pool
I burn for you, I burn for
You and I are lovers
When night time folds around our bed
In peace we sleep entwined
And your love flows through me
Though an ocean soothes my head
I burn for you, I burn for
Stars will fall from dark skies
As ancient rocks are turning
Quiet fills the room
And your love flows through me
Though our lie here so still
I burn for you, I burn for you
I burn...

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
John Blackinsell, Simon Wynberg, Andreas Vollenweider

Ligações
Leonard Cohen, Traffic, Sting & Police

Textos:
Manuel Bandeira

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012