Sons da Escrita 220

17 de Abril de 2009

Quarto programa do ciclo Manuel Bandeira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Manuel Bandeira

Testamento (Manuel Bandeira)

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!


Le testament (Léo Ferré)

Avant de passer l'arme à gauche
Avant que la faux ne me fauche
Tel jour, telle heure, en telle année
Sans fric, sans papier, sans notaire
Je te laisse ici l'inventaire
De ce que j'ai mis de côté :

La serviette en papier où tu laissas ta bouche
Ma mèche de cheveux quand ils n'étaient pas gris
Mon foulard, quelques plumes, et cette chanson louche
Avec autant de mots que nous avions de nuits
L'oreille de Van Gogh, la pipe de Balzac
Cette armée d'anarchie et ces fanfares blêmes
Le cheval qui travaille avec son petit sac
Où dorment des prairies d'avoine et de carême
Et de carême

L'Enfer de Monsieur Dante où je descends ce soir
Un paquet vide de Celtiques sur la table
Quelques stylos à bille au roulement d'espoir
Avec dans leur roulis des chansons formidables
Le pick-up du tonnerre et les gants de la pluie
La voix d'André Breton, l'absinthe de Verlaine
Les âmes de nos chiens en bouquet réunies
Et leurs paroles dans la nuit comme une traîne
Comme une traîne

Le zinc de ce bistrot où nous perdions nos gueules
Cette affiche où nos yeux écoutaient des bravos
Cette page d'annonces où s'ennuie toute seule
Notre maison avec mes rêves en in-quarto

Avant de passer l'arme à gauche…

Mais je te laisse ça comme une chanson tendre
Avec ta fantaisie qui fera beaucoup mieux
Et puis ma voix perdue que tu pourras entendre
En laissant retomber le rideau si tu veux
Si tu veux


Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada (Manuel Bandeira)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
 
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
 
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.


Going nowhere (Oasis)

Hate the way that you've taken back
Eveything you've given to me
And the way that you'd always say
'It's nothing to do with me'
Different versions of many men
Come before you came
All their questions were similar
The answers just the same 

I'm gonna get me a motor car
Maybe a Jaguar
Maybe a plane or day of fame
I'm gonna be a millionaire
So can you take me there?
Wanna be wilde 'cos my life's so tame 

Here am I, going nowhere on a train
Here am I, growing older in the rain
Hey 'ey 

Hate the way that you've taken back
Eveything you've given to me
And the way that you always say
'It's nothing to do with me' 

Different versions of many men
Come before you came
All their questions were similar
The answers just the same 

I'm gonna get me a motor car…

Here am I, going nowhere on a train
Here am I, growing older in the rain
Here am I, going nowhere on a train
Here am I, getting lost and lonely
Sad and lonly, why sometimes does my life feel so tame?
Hey 'ey


Manuel Bandeira

O último poema (Manuel Bandeira)

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Famous last words (Tears for fears)

After the wash
Before the fire
I will decay
Melt in your arms
As the day hits the night
We will sit by candlelight
We will laugh
We will sing
When the saints go marching in

A for a heart
B for a brain
Insects and grass
Are all that remain
When the light from above
Burns a hole straight through our love
We will laugh
We will sing
When the saints go marching in
And we will carry war no more

All our love and all our of pain
Will be but a tune
The Sun and the Moon
The wind and the rain
Hand in hand we'll do and die
Listening to the band that made us cry
We'll have nothing to lose
We'll have nothing to gain
Just to stay this real life situation
For one last refrain

As the day hits the night
We will sit by candlelight
We will laugh
We will sing
When the saints go marching in
And we will carry war no more


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três...trinta e três...Trinta e três...
– Respire.
– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Oystein Sevåg & Lakki Patey, Nightnoise, George Harrison

Ligações
Léo Ferré, Oasis, Tears for Fears

Textos:
Manuel Bandeira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012