Sons da Escrita 161

14 de Março de 2008

Segundo programa do ciclo Maria Manuel

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Maria Manuel

Era uma casa de silêncio (Maria Manuel)

era uma casa de silêncio.

desafio contido nas gargantas mudas.
levitação sob o tecto de cimento, árido ritual.

as crianças jogavam no interior dos dedos
as fantasias tímidas de água derramada
de rodas redondas de bicicleta encalhadas
nos declives naturais das ruas estreitas
vozes explodem à luz do sol ridente.

depois as mãos. as mãos nas bonecas
de olhos azuis, tristes. 

de noite as borboletas eram imensas
na inteireza dos prados prenhes de sílabas.


This house (Alison Moyet)

Whose sticky hands are these?
And what is this empty place
I could be happily lost but for your face
Here stands an empty house
That used to be full of life
Now it's home for no one and his wife
It's a hovel and
Who can take your place?
I can't face another day
And who will shelter me?
It's cold in here
Cover me

Under these fingertips a strange body rolls and dips
I close my eyes and you're here again
Later as day descends
I'll shout from my window
To anyone listening. "I'm losing"

Who can take your place?
I can't face another day
And who will shelter me?
It's cold in here
Cover me

Oh in a plague of hateful questioning
Tap dancing every syllable from ear to ear
I hear the din of lovers jousting
When I'm hiding with my head to the wall

Who will shelter me?
It's cold in here


Maria Manuel

Nasceste na seiva (Maria Manuel)

nasceste na seiva dessa casa crepuscular.
eras o frasco de mel em estado de bolor se visto
a um microscópio intransigente,
a tua boca não se tingiu da cor dos lagartos
na fuga do quintal.

galgaste depois atrás dos lagartos trepadores
nas arestas da casa
em tardes de folhas secas.
eles escapuliam no mesmo espaço
apertadíssimo
entre os teus dedos,
cavavam rápidas as sepulturas na terra ou
nas tábuas do soalho.
levaste anos a ensaiar corridas estratégicas
das fábulas que amargaste na infância,

cego afugentaste todos os teus outonos últimos
redutos inteiros acima da terra.


Air born (Camel)

High flying glider, spread your wings
Flying high on a cloud
Born on the air, spiral around
So busy making circles
You never touch the ground


You see the sea, feel the sky
Don't know where you go when you die
Don't know the answers
To what's in my mind
Riding on the wind and turning with the tide


life takes you up, it brings you down
Changes the pain that remains
Keep moving fast, though the wind and the rain
And if the world keeps spinning round
You'll be back again


Maria Manuel

Não saber o que sinto (Maria Manuel)

não saber o que sinto, turva
ventania. onde os sentidos esmorecem
e o sangue deriva à porta fechada.

como uma paisagem desconstruída na tela
onde os rios riem das searas desgrenhadas
e os abutres caminham pausados os vales
despidos da madrugada nas casas altas.

a pele parece rasgada. inacabada.
pedaços de sombra sem seguro de vida
no labirinto que sustém as horas.


Do ya? (Nick Mason)

I try
God knows I try
It seems very clear to me, that I try
But it's not clear to you, that I do
You don't know what I mean, do ya?
You don't know what I mean 

I mean
I mean I try
God knows that I mean to try
I mean it seems so very clear to me, that I'm
Trying
But it's not clear to you, what I'm trying to do
You don't know what I mean, do ya?
You don't know what I mean 

You're not trying
God knows you probably mean to try
I mean sometimes it even seems clear to me
I mean sometimes it even seems clear to me that
You're trying to try
Is that clear? Do you know what I mean, what
I'm trying to say
You don't know what I mean, do ya?
You don't know what I mean 

God knows I try


O céu de Magritte (Maria Manuel)

Ele aguardava ser chamado pelo director que o convocara. Tão raro era! Devia ser especial a novidade. Fixava a parede branca, escrutinava-a com o olhar, procurava uma infracção, uma pequena fractura, uma minúscula mancha, uma gota de humidade, algum bichinho assustado. Nada! A parede permanecia imaculadamente branca. O que não entendia, não podia mesmo ser. Por um momento, acreditou que também os seus olhos se haviam tornado brancos.
Entrou. O vigilante ficou à porta. Parecia inquieto, o que também era raro. À saída, foi conduzido de novo à cela. Ficava nas águas-furtadas da casa grande. As cores do arco-íris reluziam nas gotículas que ainda escorriam os vidros da clarabóia. Sete as cores do arco-íris. Sete anos a repetir meta-se na sua vida! porque a minha é mágica.... Silêncio esquadrinhado no tecto espelhado da mansarda que guardava todos os segredos, instantes onde arranhava os limites do visível, memória das horas indizíveis… e o céu é o mar do meu poema…
Desceu o olhar ao jardim, onde o vigilante de bata branca fitava o banco vazio em frente. E recordou as palavras do director: “ Tem estado calmo, melhor, e o seu médico deu-lhe alta. Já não constitui perigo para a sociedade nem para si mesmo. Além disso, o vigilante está em idade de reforma, vai-se aposentar.” Olhou de novo o homem de bata branca… meta-se na sua vida! porque a minha é mágica... O vigilante reapareceu. Era a hora do passeio no jardim. “Hora de passeio no jardim” disse ele com secura. Em todo o caso, ainda os pássaros...Todo o canto era deles.
Os dias passaram iguais, perfilados em sentido. No dia da saída, os dois homens permaneceram, por alguns minutos, parados em frente ao portão, na mesma hesitação muda.
- Vou estranhar a nova casa
disse o ex-vigilante.
- Vou estranhar o novo céu
respondeu o ex-paciente
neste, tudo era possível.


Rene and Georgette Magritte with their dog after the war (Paul Simon)

Rene and Georgette Magritte with their dog after the war
Returned to their hotel suite
And they unlocked the door
Easily losing their evening clothes
They danced by the light of the moon
To the Penguins, the Moonglows
The Orioles, and The Five Satins
The deep forbidden music
They'd been longing for
Rene and Georgette Magritte
With their dog after the war

Rene and Georgette Magritte with their dog after the war
Were strolling down Christopher Street
When they stopped in a men's store
With all of the mannequins dressed in the style
That brought tears to their immigrant eyes
Just like The Penguins, the Moonglows
The Orioles, and The Five Satins
The easy stream of laughter
Flowing through the air
Rene and Georgette Magritte
With their dog apres la guerre

Side by side they fell asleep
Decades gliding by like Indians
Time is cheap when they wake up they will find
All their personal belongings have intertwined
Oh Rene and Georgette Magritte with their dog after the war
Were dining with the power elite
And they looked in their bedroom drawer
And what do you think
They have hidden away
In the cabinet cold of their hearts?
The Penguins, the Moonglows
The Orioles, and The Five SatinsFor now and ever after
As it was before
Rene and Georgette Magritte with their dog after the war


Tantas as vozes na geometria das ruas pardacentas
enormes eram os olhos sob a lâmina em riste
fracturas em caminho dentro dos dias incompletos

aspirava-se a um fôlego mínimo
uma maresia na madrugada das aves
solidão amanhecida em cada sílaba


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Ion

Ligações
Alyson Moyet, Camel, Nick Mason, Paul Simon

Textos:
Maria Manuel

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012