Sons da Escrita 233

10 de Julho de 2009

Primeiro programa do ciclo Maria do Rosário Pedreira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Maria do Rosário Pedreira

Queixei-me do nome que me deste

Queixei-me do nome que me deste
antes ainda de teres podido ver-me
entre os folhos e as rendas do meu

berço - pedra muito rugosa para
carregar ao ombro a vida inteira,
chicote na boca, rasgão interno no
fundo do ouvido, camisa que nunca

se fez pele junto do corpo. Disseste
que podia escolher desse património o
que melhor vestisse o meu futuro: ou

uma cruz, como parecia ser, ou dois
paus de bandeira para conquistar o
mundo. Não dei ouvidos. Mas hoje,

enquanto espero de pé que me chamem
ao tampo frio de um balcão, sinto-me
humilhada por terem transformado a
minha herança num simples número.


Queixa das Jovens Almas Censuradas (José Mário Branco)

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra para o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
sonos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


Maria do Rosário Pedreira

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas da
morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.


Father's eyes (Amy Grant)

I may not be every mother's dream for her little girl,
And my face may not grace the mind of everyone in the world.
But that's all right, as long as I can have one wish I pray:
When people look inside my life, I want to hear them say,

She's got her Father's eyes,
Her Father's eyes;
Eyes that find the good in things,
When good is not around;
Eyes that find the source of help,
When help just can't be found;
Eyes full of compassion,
Seeing every pain;
Knowing what you're going through
And feeling it the same.
Just like my Father's eyes,
My Father's eyes,
My Father's eyes,
Just like my Father's eyes.

And on that day when we will pay for all the deeds we have done,
Good and bad they'll all be had to see by everyone.
And when you're called to stand and tell just what you saw in me,
More than anything I know, I want your words to be,

She had her Father's eyes,
Her Father's eyes;
Eyes that found the good in things,
When good was not around;
Eyes that found the source of help,
When help would not be found;
Eyes full of compassion,
Seeing every pain;
Knowing what you're going through,
And feeling it the same.
Just like my Father's eyes,
My Father's eyes,
My Father's eyes,
Just like my Father's eyes.
My Father's eyes,
My Father's eyes,
Just like my Father's eyes.


Maria do Rosário Pedreira

Mãe, os meninos andam distraídos

Mãe, os meninos andam distraídos, junto ao rio
ao rio e tu não queres saber de os perder.
Sentaste-te a pensar nesse homem que
apareceu e a desfolhar os malmequeres
da tua bata nova - e não viste que te
largaram a mão nem para onde fugiram
com a pressa do vento. Mãe, os meninos

saíram da tua para a beira do rio
e tu não queres saber de os chamar. Eles
estendem agora os braços pequeninos
para o sol que brilha sobre as águas
como um punhado de moedas que nunca

hão-de ter - mas tu hoje só conheces
um nome nos teus lábios e nem sequer
te lembras que esse nome não é o que
puseste a nenhum deles. Mãe, os meninos

são tão pequenos e já vão tão longe que
a luz pode cegá-los para sempre. Andam
perdidos no rio há tanto tempo que será
tarde demais quando gritarem por ti -
porque a ideia do amor é hoje muito maior
do que a voz deles. Mãe, se tu quiseres, eu
posso tomar conta dos meninos, sento-me
com eles na margem a desenhar o sol e
havemos de fazer horas para o teu sonho:

depois de tanta dor e de tanto luto, eu não
vou deixar que percas os teus meninos
nem pedir-te que sejas viúva para sempre.


Mother (Era)

Mother,
You're always around
Let me tell you,
You're the only one
Mother, / When I see that look in your eye
I know you're my only child
And you make my world go round,
And round
And round
And round
And round
And round
And round

Amio sumoni
Yofanati vorento
Amere coreni
Yoa simento canante

Rentiro men foni
Senti re da muntera
Ioshepa runov
Solite tiro re tiro

Do you love your mother
Like I love mine?
Do you wanna hold her
All through the night?
The silence is my soul
Love just agree / Rest...

Do you love your mother
Like I love mine?
Do you wanna be
A one and only child
Desires of your soul
Love just agree / Rest...

I rest with my head on her chest
Head on her chest
Head on her chest
Do you love your mother
Like I love mine?

Amio sumoni
Yofanati vorento
Amere coreni
Yoa simento canante

Rentiro men foni
Senti re da muntera
Ioshepa runo
Solite tiro re tiro

Do you love your mother
Like I love mine?
Do you wanna hold her
All through the night?
Do you love your mother
Like I love mine?

Solite tiro re tiro
Do you love your mother
Like I love mine?
Amio sumoni
Yofanati vorento
Amere coreni
Yoa simento canante

Rentiro men foni
Senti re da muntera
Ioshepa runo
Solite tiro re tiro


Mas partir é mesmo a minha

última vontade: tu já morreste, morreu o
gato há dias; encontrei hoje um pombo
morto no quintal e, quando o enterrar, não

haverá já nada que me prenda - vou-me
embora daqui tão só como cheguei, sem ter
deixado a ninguém o nome que me deram.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Constance Demby, Andreas Vollenweider, John Adorney

Ligações
José Mário Branco, Amy Grant, ERA

Textos:
Maria do Rosário Pedreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012