Sons da Escrita 234

17 de Julho de 2009

Segundo programa do ciclo Maria do Rosário Pedreira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Maria do Rosário Pedreira

Não tenhas medo do amor

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e a genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como um rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca

foi só inverso, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.


Walk unafraid (R.E.M.)

As the sun comes up, as the moon goes down
These heavy notions creep around
It makes me think
Long ago I was brought into this life, a little lamb
A little lamb
Courageous, stumbling
Fearless was my middle name
But somewhere there I
Lost my way
Everyone walks the same
Expecting me to step
The narrow path they've laid
They claim to

Walk unafraid
I'll be clumsy instead
Hold my love me or leave me
High

Say "keep within the boundaries if you want to play"
Say "contradiction only makes it harder"
How can I be
What I want to be?
When all I want to do is strip away
These stilled constraints
And crush this charade
Shred this sad masquerade
I don't need no persuading
I'll trip, fall, pick myself up and

If I have a bag of rocks to carry as I go
I just want to hold my head up high
I don't care what I have to step over
I'm prepared to look you in the eye
Look me in the eye
And if you see familiarity
Then celebrate the contradiction
Help me when I fall to


Maria do Rosário Pedreira

Trocáramos as cartas do começo

Trocáramos as cartas do começo - alegrias tão
frágeis, mas tão fundas, de quem mal se conhece
e já se amam; todo um inverno, diante das palavras,
o movimento dos pássaros no interior dos olhos,
o lume das estrelas na ponta dos dedos. De um

encontro tão breve é sempre fácil esquecer o que
nunca se viu. E, nessa tarde, enquanto te escutava,
soube que a memória era um espelho partido -

porque ler-te era uma coisa, mas ouvir-te era outra; e
o rosto que espreitara do papel fora eu que o desenhara;
e a assinatura ao fundo da página era o nome de uma
outra vida que eu tecera - como se na tua boca,

nesse tempo, falassem duas vozes desencontradas.


Letter (America)

You have one letter left to send
With no beginning and no end
You saw them in the park
The laughter in the dark, oh no
How can you face him and pretend 

So now you thank him carefully, oh no
'Cause that's the way he's going to be, oh no
I hope you find some reason to be free 

There is no sunshine in your eyes
You make no sound and yet you cry
It's not the double cross
You feel the love you lost, oh no
This letter has to say goodbye 

So now you thank him carefully, oh no
'Cause that's the way he's going to be, oh no
I hope you find some reason to be free 

You saw them in the park
The laughter in the dark, oh no
How can you face him and pretend 

So now you thank him carefully, oh no
'Cause that's the way he's going to be, oh no
I hope you find some reason to be free


Maria do Rosário Pedreira

Afasto as cortinas devagar

Afasto as cortinas devagar; e, atrás dos vidros, acordo
o silêncio de um muro de granito onde já não se demora
a luz. Lembro-me sem querer de ti e convoco as memórias
de um quarto antigo para não repetir o que os livros
diriam sempre de outro modo. Contemplo a surda vegetação

da sombra, os pequenos animais à deriva, a noite rasgada
ao meio pelos gumes da lua. Aguardo provavelmente o teu
regresso, embora secretamente. Mas o que acode à janela

é uma impressão luminosa e fria que desfigura o olhar
e dá das coisas apenas metades imperfeitas ou estilhaços
que lembram a arquitectura da poeira sobre as baías.

A sabedoria é um gomo amargo que se consome junto aos
lábios. Ainda que quisesse murmurar o teu nome, como
o sol a morder os pátios de manhã, calo-me para sempre.
Esqueço-me talvez de ti, embora secretamente.


Don't you (forget about me) (Simple Minds)

Won't you come see about me?
I'll be alone, dancing you know it baby

Tell me your troubles and doubts
Giving me everything inside and out and
Love's strange so real in the dark
Think of the tender things that we were working on

Slow change may pull us apart
When the light gets into your heart, baby

Don't You Forget About Me / Don't Don't Don't Don't
Don't You Forget About Me

Will you stand above me?
Look my way, never love me
Rain keeps falling, rain keeps falling
Down, down, down

Will you recognise me?
Call my name or walk on by
Rain keeps falling, rain keeps falling
Down, down, down, down

Don't you try to pretend
It's my feeling we'll win in the end
I won't harm you or touch your defenses
Vanity and security

Don't you forget about me
I'll be alone, dancing you know it baby
Going to take you apart
I'll put us back together at heart, baby

Don't You Forget About Me / Don't Don't Don't Don't
Don't You Forget About Me

As you walk on by
Will you call my name?
As you walk on by
Will you call my name?
When you walk away

Or will you walk away?
Will you walk on by?
Come on - call my name
Will you call my name?


A lágrima que pousa no papel: a tua
mão tão longe. Este é um caderno de
linhas que também não se encontram.

e a minha mão escreve o teu nome às
cegas numa delas. Vê - a lágrima é
uma lente que multiplica a dor, toda a
saudade do mundo cabe nessa palavra.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden, Alasdair Fraser, Oystein Sevåg

Ligações
R.E.M., America, Simple Minds

Textos:
Maria do Rosário Pedreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012