Sons da Escrita 310

18 de Dezembro de 2010

Segundo programa do ciclo Maria de São Pedro

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Maria de São Pedro

Passagem

Aragem mansa, insinuada em nevoeiro,
enruga a seda do teu manto pesado.
Espectros, fadas e gnomos disputam
o teu olhar lânguido,
velado por rendas milenares e diáfanas.
Aves do paraíso pousam leves, descuidadas,
em bandejas de miosótis e alecrim.
A intemporalidade reacendendo-se,
sulca portais de eternidade.
Sonhos naufragados despertam tímidos
por entre colunas cobertas de conchas
e algas vermelho-sangue.
Sussurros e suspiros esvaem-se
nas longas roupagens de Invernia.
Duendes e feiticeiras emitem sons
que arrepiam a alma.
Salpicados por cascatas de prata líquida,
os Meninos do Amanhã surgem da bruma
e num espanto essencial, cristalino,
soltam gargalhadas de Amor.
Portais divinos sulcam paredes
de pedra dura,
desabrochando em luzes vibráteis
que entontecem e encantam.
Será o meu caminhar pelas estrelas,
partilhando contigo a mesma saudade
num cálice de rubi
com sabor a maresia.
E na intemporalidade absoluta
dissolver-me na tua paixão.


Time passages (Al Stewart)

It was late in December
The sky turned to snow
All round the day was going down slow
Night like a river beginning to flow
I felt the beat of my mind
Go drifting into time passages
Years go falling in the fading light
Time passages
Buy me a ticket on the last train home tonight
Well, I'm not the kind to live in the past
The years run too short and the days too fast
The things you lean on
Are the things that don't last
Well, it's just now
And then my line gets cast into these
Time passages
There's something back here that you left behind
Oh, time passages
Buy me a ticket on the last train home tonight
Hear the echoes and feel yourself starting to turn
Don't know why you should feel
That there's something to learn
It's just a game that you play
[Instrumental Interlude]
Well, the picture is changing
Now you're part of a crowd
They're laughing at something
And the music's loud
A gal comes towards you
You once used to know
You reach out your hand
But you're all alone
In these time passages
I know you're in there
You're just out of sight
Oh, time passages
Buy me a ticket on the last train home tonight


Maria de São Pedro

Lobo meu

Amar-te à distância
de um pulo de um gato.
Envolver-te em lembranças lindas
como um cobertor de um bebé.
Olhar-te,
pestanas baixas,
derretida como chocolate quente,
servido em noite de temporal.
Rebolar na erva fresca,
debaixo de sol.
Deslizar em lençóis,
acabadinhos de passar a ferro.
Sentir o arrepio
de chapinhar numa água gelada.
Morrer de paixão,
num sussurro
soprado morno,
nos braços do meu homem.
Pela Eternidade caminharás,
roçando o teu pêlo
em mim.
Lobo meu.


From a distance (Byrds)

From a distance the world looks blue and green
and the snow capped mountains white
From a distance the ocean meets the stream
and the eagle takes to flight

From a distance there is harmony
and it echoes through the land
It´s the voice of hope, it´s the voice of peace
It´s the voice of every man

From a distance we all have enough
and noone is in need
There are no guns, no bombs, no diseases
No hungry mouths to feed

From a distance we are instruments
marching in a common band
Playing songs of hope, playing songs of peace
They´re the songs of every man

God is watching us, God is watching us
God is watching us from a distance

From a distance you look like my friend
even though we are at war
From a distance I can´t comprehend
what all this war is for

From a distance there is harmony
and it echoes through the land
It´s the hope of hopes; it´s the love of loves
It´s the heart of every man

It´s the hope of hopes, it´s the love of loves
It´s the song of every man


Maria de São Pedro

Não tens de me conquistar

Não tens de me conquistar
impreterivelmente
neste milénio.
Se calhar
tens de me atirar um sorriso
ao canto da boca,
disfarçado e malandro.
Um baixar rápido
de pestanas
a encobrir a emoção
que te tocou
quando te olhei de raspão.
Um aceno rápido e fugitivo
de cumplicidades de outras vidas
agitam os teus cabelos
espessos e soltos.
Dou-te Paz.
Tu entregas-me gargalhadas.
Não tens de me conquistar neste milénio
mas se calhar
seria bem giro.


Conquistador (Procol Harum)

Conquistador your stallion stands
In need of company
And like some angel's haloed brow
You reek of purity
I see your armour-plated breast
Has long since lost it's sheen
And in your death mask face
There are no signs which can be seen 

And though I hoped for something to find
I could see no maze to unwind 

Conquistador a vulture sits
Upon your silver shield
And in your rusty scabbard now
The sand has taken seed
And though your jewel-encrusted blade
Has not been plundered still
The sea has washed across your face
And taken of it's fill 

And though I hoped for something to find
I could see no maze to unwind 

Conquistador there is no time
I must pay my respect
And though I came to jeer at you
I leave now with regret
And as the gloom begins to fall
I see there is no, only all
And though you came with sword held high
You did not conquer, only die 

And though I hoped for something to find
I could see no maze to unwind


Embalada no teu olhar de lobo solitário,
danço um tango de fascinação.
Esvoaçam folhas de Outono,
rodopiando sobre as nossas cabeças.
Mãos quentes entrelaçadas murmuram
paixões e desejos.
Leve, a bruma cai leve sobre nós.
E tu, meu amado,
amante e senhor de outras vidas
dissolves-te no anoitecer repentino,
deixando no ar
um uivo longo... longo...


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Philip Glass, Dan Gibson, Frank Fischer

Ligações
Al Stewart, Byrds, Procol Harum

Textos:
Maria de São Pedro

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012